TOPO - PRINCIPAL - 1190X148
TOPO - PRINCIPAL - 1190X148

O que olhamos quando olhamos para a rua

Conexão Milão, Por Daniel Camargo, Jornalista

Em 20/10/2026 às 17:45:24

Em minha coluna anterior, Da Itália ao Brasil: por que alguns povos ocupam as ruas e outros não?, escrevi que ocupar o espaço público depende da disposição de agir coletivamente, da expectativa de que a mobilização possa produzir resultados e da possibilidade de arcar com seus custos: o tempo, os riscos e as consequências pessoais de participar de uma manifestação.

No sábado, 17 de outubro, milhares de pessoas, a maioria jovens, foram às ruas de Milão sob a bandeira de Italia in piazza. O aumento do custo de vida, os salários, a precariedade dos serviços públicos e o futuro dos jovens estavam entre as questões que mobilizaram os manifestantes.

Mas os confrontos, as depredações e os saques acabaram dominando as imagens que circularam pela imprensa e pelas redes sociais. No domingo, a situação se repetiu. Uma brasileira residente em Milão enviou imagens para o Brasil, dizendo que aquilo era o que acontecia quando a esquerda se manifestava.

O reparto mobile, a polícia de choque, foi acionado para conter o que uma reportagem da Rai, a TV pública italiana, chamou de guerrilha urbana. Ao todo, 271 pessoas foram levadas à Questura, a sede da polícia na cidade, para identificação e averiguações. Dentre elas, 220 eram menores de idade e 60, estrangeiros. Trinta e duas pessoas foram presas. Outras 174 foram submetidas ao fermo di prevenzione, medida preventiva prevista no decreto de segurança aprovado em julho.


Há ainda uma particularidade: na Itália, “estrangeiro” é quem não tem cidadania italiana. Um jovem nascido e criado no país, filho de imigrantes, pode continuar sendo estrangeiro; alguém nascido fora, que mal fala italiano, pode ser cidadão por descendência. A categoria é administrativa e não descreve, por si só, a relação de uma pessoa com o país onde vive. Isso importa quando a presença de estrangeiros é usada como argumento, normalmente associado à direita, para atribuir à imigração a causa da insegurança.

Ainda na Rai, um jovem contou que foi retido por cerca de 40 minutos, embora, segundo ele, não tivesse participado dos atos violentos. Outro condenou a invasão e a destruição das lojas, mas disse apoiar o protesto porque levantar cartazes já não resolve nada. São posições diferentes, mas ambas revelam a distância entre o protesto como forma de expressão e a expectativa de que ele produza algum resultado. Quando essa expectativa desaparece, a indignação pode permanecer, mas cresce a sensação de que só ações mais radicais serão ouvidas.


Diante da Questura, onde pais aguardavam a saída dos filhos menores, duas reações chamaram a atenção do Corriere della Sera. Um pai tunisiano, que vive na Itália há quatro anos, esperava pelos dois filhos, de 17 e 16 anos. Com a ajuda de um amigo romeno, que o acompanhava para traduzir o que não compreendia em italiano, mostrou no celular o vídeo do momento em que um dos rapazes era levado pela polícia. «Hoje deveriam ter ido à escola, não sei o que fizeram. Tinham me dito que iam ao Duomo», contou.

A reação de outro pai foi bem diferente: «Se ha sbagliato paghi, gli spaccherei io la testa» — se errou, que pague; eu mesmo quebro a cabeça dele. De um lado, um misto de preocupação e vergonha, do outro, a disposição de responder a uma possível transgressão com violência. A frase combina a defesa da responsabilidade individual com a fantasia de uma punição corretiva. Não é preciso relativizar os danos causados para perceber a contradição.

Nesse debate, reaparece a palavra maranza, rótulo usado na Itália para caracterizar certos jovens, associados sobretudo à periferia, à ostentação e a comportamentos considerados ameaçadores. Mas será que o jovem retido por cerca de 40 minutos se encaixava nesse estereótipo? E, mesmo quando alguém corresponde a ele, o rótulo nos ajuda a entender o que aconteceu ou apenas nos dispensa de olhar mais de perto?

A questão não é desculpar a violência. É distinguir a responsabilidade de quem comete atos criminosos da tentação de transformar um estereótipo numa explicação para tudo o que incomoda na sociedade.

No domingo, Milão ainda repercutia os acontecimentos do dia anterior. Perto do Duomo, vi comércios fechados, bares recolhendo mesas e cadeiras e muitos jovens, de rostos cobertos ou não, circulando em grupos. O transporte público avisava que haveria atrasos por causa de manifestações pela cidade. Entre as pessoas que esperavam o tram, um dizia que um chinelo como o de sua mãe resolveria o problema; outro de que a culpa seria, mais uma vez, da esquerda; um terceiro concluía que a falta de autoridade e as mudanças dos últimos tempos haviam chegado a tal ponto que professores temiam os próprios alunos.

Uma mulher, visivelmente preocupada, referiu-se às manifestações como um novo 68. Pela idade, não havia testemunhado aqueles acontecimentos, mas a comparação revela o peso que aquele período ainda tem no imaginário italiano. O movimento de 1968 foi muito além de uma sequência de protestos: reuniu estudantes e operários, contestou autoridades tradicionais, exigiu reformas nas universidades e nas relações de trabalho e contribuiu para transformar os costumes e a cultura do país.

A comparação também evidencia o que mudou. A mobilização contemporânea é atravessada pelas redes sociais, por convocações rápidas e por grupos que nem sempre compartilham objetivos ou estruturas comuns. Para compreender o que acontece hoje nas ruas, vale olhar para outros momentos em que a insatisfação coletiva produziu resultados — e para a maneira como o significado dos protestos foi disputado.

No Brasil, junho de 2013 mostrou como uma reivindicação concreta pode abrir espaço para uma insatisfação mais ampla. O aumento das tarifas de transporte desencadeou protestos em diversas cidades e, diante da mobilização, houve recuos, entre eles a revogação do reajuste das passagens no Rio de Janeiro.

Naquele mesmo ano, outra mobilização ocupou as ruas e as redes sociais: os protestos contra Marco Feliciano, eleito pelo PL e conhecido por sua oposição aos direitos e pautas da comunidade LGBT+, na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. O grito «Fora Feliciano, não me representa» expressava a contestação à presença de um parlamentar cuja atuação era considerada incompatível, por seus críticos, com a função de presidir aquela comissão.

Na Índia, um movimento de origem digital oferece outro contraste. A Cockroach Janta Party começou como sátira nas redes sociais, mas ganhou força ao mobilizar jovens contra irregularidades denunciadas no sistema de exames de acesso à universidade. A pressão levou à renúncia do ministro da Educação, Dharmendra Pradhan, em julho. Em outubro, o fundador do movimento, Abhijeet Dipke, voltou a ser detido ao tentar organizar um protesto contra a revisão dos cadastros eleitorais. Foi libertado no dia seguinte, sob condições não divulgadas.

O caso indiano mostra que uma mobilização nascida na internet pode ultrapassar a esfera do comentário e produzir consequências políticas concretas. Também mostra como o direito de protestar entra em tensão com as respostas do poder público quando a contestação passa a ameaçar interesses estabelecidos. Os contextos são diferentes, mas nos dois casos a mobilização não pode ser compreendida apenas pelas imagens dos acontecimentos: é preciso considerar o que a provocou e como as instituições responderam.

Na França, os acontecimentos de 17 de outubro tornaram ainda mais evidente a disputa pelo significado das imagens. Entre 550 mil e 800 mil pessoas participaram de manifestações contra o custo de vida e a deterioração dos serviços públicos, segundo estimativas do governo e dos organizadores. Em várias cidades, os protestos foram acompanhados por confrontos, saques, incêndios e danos a edifícios públicos.

As cenas de violência passaram rapidamente a alimentar a disputa política. Marine Le Pen e a Reunião Nacional exploraram os acontecimentos para responsabilizar a esquerda e reforçar seu discurso de ordem e segurança às vésperas da eleição presidencial de 2027. Do outro lado, representantes da esquerda questionaram a atuação policial — um menino perdeu uma mão devido a uma granada de dispertão — e defenderam os manifestantes pacíficos.


É nesse ponto que a mulher brasileira que compartilhou os vídeos de Milão e o debate francês se encontram. A imagem não precisa ser falsa para ser usada de maneira seletiva. Um saque filmado é real; o que não decorre automaticamente dele é a conclusão de que toda uma manifestação, uma ideologia ou um campo político se resume àquela cena. A disputa começa quando o registro de um episódio passa a ser apresentado como retrato completo de um movimento.

A violência pode deslegitimar reivindicações legítimas, mas também pode ser instrumentalizada por quem deseja deslegitimá-las. Reconhecer essa possibilidade não significa negar os crimes nem absolver seus autores. Significa observar quem seleciona as imagens, que interpretação oferece e quais questões deixam de ser discutidas quando o debate se concentra exclusivamente nelas.

Não se pode abolir o direito de manifestação, e esse direito não serve de desculpa para a violência. A rua pode ser ruidosa, contraditória e até frustrante; os atos criminosos têm responsáveis e devem ser apurados. Explicá-los com um chinelo, uma ideologia ou um passaporte é uma forma de não olhar.

No sábado, dia 24, às 15h, o Movimento 17 ottobre anunciou que pretende voltar à Piazza Duomo. O que acontecerá ali ainda não sabemos. Mas uma democracia não se mede apenas pelo que acontece quando as pessoas ocupam as ruas. Mede-se também pelo que as instituições fazem diante das reivindicações, pelo modo como a sociedade interpreta as imagens e pelo que todos deixam de fazer — ou decidem fazer — quando a multidão volta para casa.

POSIÇÃO 2 - DOE SANGUE 1190X148
POSIÇÃO 2 - DENGUE1190X148
POSIÇÃO 2 - VISITE O RIO - 1190X148
POSIÇÃO 3 - DENGUE 1190X148
Saiba como criar um Portal de Notícias Administrável com Hotfix Press.