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Da Itália ao Brasil: por que alguns povos ocupam as ruas e outros não?

Conexão Milão, Por Daniel Camargo, Jornalista

Em 16/10/2026 às 10:02:30

Há uma percepção que ouço de italianos e que também me acompanha desde que me mudei para Milão: diante das manifestações como as da França e da Espanha, parece haver nesses países uma disposição maior para transformar a insatisfação em protesto. Na Itália, mesmo diante de problemas que afetam diretamente a vida cotidiana, a mobilização nem sempre parece alcançar a mesma dimensão.

Os dados dão algum respaldo a essa impressão. Um estudo baseado no European Social Survey, com dados de 2022–2023, constatou que 19,7% dos espanhóis e 18,5% dos franceses entrevistados haviam participado de manifestações públicas nos 12 meses anteriores, contra 11% dos italianos. A diferença existe, embora os números não expliquem suas causas.

O que leva as pessoas às ruas?

Na França, estudantes protestam contra a falta de professores, as condições das escolas e as desigualdades educacionais. Na Espanha, a crise habitacional e os despejos impulsionaram a mobilização pelo direito à moradia. O caso de Maricarmen Abascal, de 87 anos, despejada de sua casa, tornou-se símbolo dessa luta.

Na Itália, estudantes também foram às ruas em outubro para denunciar o custo de estudar e viver, especialmente os aluguéis e as dificuldades de acesso à moradia. As manifestações pró-Palestina reuniram milhares de pessoas em dezenas de cidades. Em Milão, presenciei uma marcha ordeira, com famílias e crianças.

A Itália, portanto, não está ausente das ruas. Mas vale observar a diferença entre mobilizações por causas internacionais e a capacidade de sustentar uma pressão ampla em torno de problemas cotidianos, como salários, moradia e serviços públicos.

Há um obstáculo concreto nessa equação: o custo de protestar. Para quem tem um contrato precário, trabalha por hora ou teme represálias do empregador, participar de uma greve ou manifestação pode significar perder renda ou arriscar o emprego. A indignação pode ser compartilhada por milhares de pessoas, mas o preço de expressá-la publicamente é pago individualmente.

É aí que a organização coletiva faz diferença. Sindicatos, associações e movimentos podem transformar insatisfações dispersas em reivindicações comuns e sustentar a pressão ao longo do tempo. Sem essa capacidade, um problema pode afetar muita gente sem necessariamente produzir uma mobilização proporcional à sua dimensão.

Os confrontos de Turim, em janeiro de 2026, durante uma manifestação em defesa do centro social Askatasuna, lembram que a mobilização política italiana pode ser intensa. A questão não é a ausência de conflito, mas como diferentes insatisfações conseguem — ou não — formar movimentos amplos e duradouros.

O contraponto brasileiro

No Brasil, as Diretas Já transformaram a reivindicação por eleições presidenciais diretas numa mobilização nacional. A Eco-92 colocou o meio ambiente no centro do debate público, enquanto junho de 2013 mostrou como um protesto contra o aumento das tarifas de transporte pode se expandir e reunir insatisfações muito diferentes.

Hoje, as ruas brasileiras também expressam a polarização política, com manifestações pró-Lula e atos bolsonaristas. Essas mobilizações demonstram capacidade de convocação em torno de lideranças e identidades políticas. Mas mobilizar multidões numa disputa eleitoral não é necessariamente o mesmo que manter pressão coletiva por melhores salários, moradia ou serviços públicos.

A comparação ajuda a separar duas coisas que frequentemente confundimos: a existência de insatisfação e a capacidade de transformá-la em ação coletiva. Um país pode ter protestos numerosos sem que todas as demandas sociais encontrem espaço ou continuidade. E uma população pode estar insatisfeita sem conseguir assumir os custos de participar.

Da indignação à pressão coletiva

A diferença entre Itália, França e Espanha não deve ser tratada como uma característica fixa de seus povos. Os dados indicam frequências distintas de participação, mas a história política, as organizações disponíveis, as pautas mobilizadoras e as condições materiais ajudam a compreender o que pode estar por trás delas.

Minha experiência em Milão me faz prestar atenção não apenas às manifestações que acontecem, mas também à distância entre as queixas que circulam no cotidiano e sua transformação em pressão pública.

No fim, ocupar as ruas não depende apenas de ter motivos para protestar. Depende também de conseguir agir junto com outras pessoas, de acreditar que a mobilização pode produzir resultados e de poder arcar com seus custos.

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