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O assunto mais importante da sala

Menina Aleatória, Por Anna Domingues, Escritora

Em 19/10/2026 às 13:32:11

A gente mal termina uma frase e já tem alguém preparando uma resposta. Você ainda está no meio da história, mas o interlocutor já arregala os olhos, levanta o indicador e anuncia um “não, mas veja bem” que promete encerrar qualquer possibilidade de diálogo. Ele nem sabe como a história termina. Não importa. Já tem uma opinião formada, três argumentos na ponta da língua e uma experiência pessoal que, evidentemente, é muito mais interessante que a sua.

Vivemos a era dos especialistas em tudo. Gente que entende de política, educação, economia, relacionamentos e criação de filhos, embora tenha dificuldade para interpretar uma bula de remédio. Basta ler duas manchetes, assistir a um vídeo de quarenta segundos e pronto: temos um novo intelectual, disposto a corrigir quem passou anos estudando o assunto. Se alguém discorda, melhor ainda. A conversa ganha um inimigo, e a opinião ganha ares de missão.

Nas redes sociais, o fenômeno é quase um esporte. A foto de um café pode terminar em uma discussão sobre a decadência da sociedade ocidental. Uma notícia sobre educação convoca especialistas que nunca pisaram em uma sala de aula como professores. Uma mulher diz que está cansada e logo aparece alguém para explicar que lhe falta organização, disciplina ou gratidão. Há sempre um fiscal de experiências alheias de plantão, pronto para ensinar os outros a viver.

Fora da internet, a situação não melhora muito. Nas reuniões de família, alguém pergunta como você está e começa a falar antes da resposta. Entre amigos, você conta uma história e o outro interrompe para contar uma melhor. Até o sofrimento parece ter uma classificação: você teve uma semana difícil, mas o seu interlocutor teve uma pior. No fim, ninguém sabe como o outro está, mas todos tiveram a oportunidade de falar sobre si mesmos.

E eu digo isso com a tranquilidade de quem, muito provavelmente, já interrompeu alguém para contar uma história que julgava indispensável. É fácil identificar a falta de escuta nos outros; difícil é perceber o momento em que a gente também começa a ensaiar a própria resposta enquanto alguém ainda está falando. Às vezes, nem estamos interessados no que a pessoa tem a dizer, estamos apenas esperando uma brecha para entrar na conversa e recuperar o protagonismo.

Talvez seja esse o problema: estamos tão ocupados tentando ser compreendidos que nos esquecemos de compreender. Queremos ser vistos, reconhecidos, validados. Queremos que nossas opiniões encontrem aplausos e nossas certezas, uma plateia. Escutar exige uma disposição menos confortável que é aceitar que, durante alguns minutos, não somos o assunto mais importante da sala. Também exige humildade para admitir que não sabemos tudo, que podemos estar enganados e que uma experiência diferente da nossa não é necessariamente uma experiência errada. Essa última parte é especialmente difícil. Há pessoas de quem discordamos com tanta convicção que, mesmo quando elas dizem algo sensato, nossa primeira reação é procurar um defeito na frase. Não queremos entender o argumento; queremos descobrir onde podemos atacá-lo.

É claro que escutar não significa concordar com todo mundo. Existem ideias que precisam ser contestadas, injustiças que exigem posicionamento e discursos que não merecem ser tratados como simples diferenças de opinião. O problema começa quando a discordância deixa de ser uma oportunidade de reflexão e se transforma em uma disputa por superioridade. Quando já não nos interessa discutir uma ideia, mas provar que somos mais inteligentes do que quem a defende.

Vejo que uma das dificuldades da vida adulta é descobrir que nem toda conversa precisa terminar com um vencedor, algumas deveriam terminar com uma pergunta. Outras, com uma dúvida. Há discussões que nos fazem mudar de ideia e outras que nos ajudam a compreender por que pensamos de maneiras diferentes. Nem sempre saímos delas com uma resposta, e isso não deveria ser considerado um fracasso.

Mas experimente admitir que não sabe alguma coisa em uma roda de amigos. Ou reconhecer, durante uma discussão, que o outro tem razão em determinado ponto. Parece simples, mas há quem prefira sustentar um argumento absurdo a oferecer ao adversário o prazer de um “você tem razão”. Como se mudar de ideia fosse perder uma batalha, e não ganhar a oportunidade de pensar melhor.

Acho que por isso seja tão difícil conversar. Não porque nos faltem assuntos, mas porque transformamos qualquer divergência em uma disputa de ego. Queremos tanto defender nossas posições que esquecemos que uma opinião não é um órgão vital: podemos revê-la sem que isso nos mate.

No fim, ninguém precisa abandonar as próprias convicções ou se calar para que os outros falem. Precisamos apenas recuperar a capacidade de ouvir sem preparar imediatamente uma defesa, de perguntar sem a intenção de desmentir e de reconhecer que nem toda experiência alheia precisa passar pelo nosso julgamento.

Não sei se estamos ficando mais incapazes de escutar ou se apenas nos tornamos mais barulhentos. O fato é que nunca tivemos tantas ferramentas para falar e, ainda assim, parece cada vez mais difícil sustentar uma conversa em que duas pessoas estejam realmente dispostas a se ouvir.

E você pode até discordar de mim. Só espero que espere eu terminar.

Até o próximo texto!

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