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O Brasil para além das urnas

Menina Aleatória, Por Anna Domingues, Escritora

Em 26/10/2026 às 13:40:10

Há uma cena que se repete depois de toda eleição: alguém abre uma garrafa para comemorar, alguém fecha a cara para evitar uma discussão, alguém manda no grupo da família uma mensagem que sabe que vai provocar e alguém, prudente ou cansado, prefere não responder. O resultado sai nas urnas, mas continua sendo discutido à mesa do jantar, no caminho para o trabalho e naquela conversa que ninguém queria ter começado.

Desta vez, Lula venceu com 51,79% dos votos. Pouco mais da metade escolheu um caminho; quase metade preferia outro. A matemática encerra a disputa eleitoral, mas não apaga as mágoas acumuladas durante a campanha.

Imagino duas casas na noite de ontem. Em uma, alguém aumenta o volume da televisão, outro abraça a mãe, uma mulher respira aliviada e há quem diga que agora, sim, vai conseguir dormir. Na outra, a televisão é desligada antes de o discurso terminar. Alguém comenta que o Brasil não tem jeito. Outro responde que tem, sim, mas não desse jeito. A comida esfria enquanto a conversa esquenta. Em ambas, há pessoas convencidas de que estão preocupadas com o futuro do país. E talvez estejam.

Os 51,79% não representam o Brasil inteiro, assim como os votos no adversário não representam a totalidade dos brasileiros. Respeitar o resultado não é aplaudi-lo. Quem perdeu pode criticar, cobrar, fiscalizar, organizar-se e fazer oposição. Aliás, é bom que faça. Uma democracia sem oposição seria como uma casa em que ninguém avisa que há uma infiltração porque o proprietário está feliz com a pintura.

O problema começa quando a derrota nas urnas vira pretexto para atacar a própria democracia. Não precisamos gostar de Lula nem aprovar seu governo para reconhecer que nenhum presidente pode se colocar acima da Constituição, submeter os outros Poderes ou tratar as instituições como propriedade particular. O risco de concentrar poder vai muito além de eleger alguém de quem não gostamos: compromete a possibilidade de contestar decisões e mudar os rumos do país. Uma ditadura não tira apenas o poder de quem perdeu a eleição; tira de todos o direito de escolher, discordar e tentar novamente. Sem democracia, talvez não tenhamos sequer a liberdade de escolher o próximo presidente.

Eu votei em Lula. Sou de esquerda e não tenho interesse em disfarçar minhas convicções para parecer imparcial. Acredito na importância dos direitos trabalhistas, da educação pública, da ciência, da cultura e das políticas de redução das desigualdades. Acredito que o racismo precisa ser enfrentado e que nenhuma pessoa deveria ter seus direitos diminuídos por ser mulher, negra, indígena ou LGBTQIA+. Não considero essas pautas detalhes de uma disputa partidária. Elas dizem respeito à vida que temos e à sociedade que queremos construir.

A política não mora apenas nos discursos transmitidos pela televisão. Está na trabalhadora que troca o turno para levar o filho ao médico, no entregador que enfrenta a chuva sem saber quanto vai ganhar naquela noite, na funcionária que espera as férias para visitar a mãe em outra cidade. Está no valor do salário, no direito ao descanso e na possibilidade de adoecer sem perder o sustento. Direitos trabalhistas parecem palavras de discurso até o dia em que alguém precisa deles.

Também está na mulher que escuta comentários ao voltar sozinha para casa, no homem negro que teme uma abordagem policial, no jovem que pensa duas vezes antes de contar à família quem ama e na comunidade indígena que precisa defender a própria terra. Para quem nunca viveu essas situações, elas podem parecer exageros de uma disputa ideológica. Para quem vive, são questões de segurança, dignidade e sobrevivência.

É por isso que não acredito que respeitar a democracia exija fingir neutralidade diante de tudo. Podemos discordar sobre impostos, gastos públicos, segurança e o tamanho do Estado. Podemos defender outros projetos para o país. Mas o direito de existir sem humilhação, trabalhar sem exploração e recorrer à Justiça em condições de igualdade não deveria depender da simpatia de quem governa. Tampouco a liberdade de discordar pode depender de o governo gostar do que temos a dizer.

A vitória de Lula trouxe esperança a quem deseja mais proteção social e menos desigualdade. Mas esperança não paga o aluguel nem enche a geladeira sozinha. O governo terá de provar, nas decisões concretas, que está à altura do que prometeu. O salário precisa render, os serviços públicos precisam funcionar e os direitos precisam sair do papel. Quem votou em Lula não precisa aplaudir tudo o que ele fizer; precisa poder cobrar, inclusive com dureza. Os 51,79% não são um cheque em branco.

Uma eleição termina, mas a responsabilidade política continua. Quem venceu precisa governar para além da própria base eleitoral; quem perdeu precisa ter garantido o direito de continuar discordando. A democracia não é um prêmio concedido ao candidato de quem gostamos, mas a condição para que haja oposição, contestação e novas escolhas. Sem ela, até o direito de reclamar da situação do país pode deixar de ser tão óbvio quanto parece.

Votei pensando no país que desejo. Agora, quero vê-lo ser construído — não apenas para quem venceu, mas para todos que terão de viver com o resultado. Não espero que metade do Brasil comemore comigo, nem acredito que a paz política dependa de todo mundo apertar as mãos e esquecer as diferenças. Espero algo mais importante: que ninguém precise abrir mão da democracia para continuar defendendo aquilo em que acredita.

Metade do Brasil está em festa, e a outra metade, não. Podemos continuar discordando amanhã, na próxima eleição e em todas as conversas difíceis que ainda teremos pela frente. Desde que continuemos livres para isso.

Até o próximo texto!

@portal.eurio

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