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Pátria amada, que medo!

Menina Aleatória, Por Anna Domingues, Escritora

Em 05/10/2026 às 09:34:40

Eu queria ser uma dessas pessoas que conseguem olhar para uma eleição e pensar: “Bom, democracia é isso. Cada um vota no que acredita e vamos em frente.” Queria mesmo, seria mais simples. Eu poderia votar, reclamar do resultado por quinze minutos, fazer uma piada no grupo da família e seguir a vida.

Mas acho que sou dessas pessoas que levam a sério algumas coisas que deveriam ser básicas como os direitos, a igualdade, a universidade pública, a ciência, a cultura, o trabalhador, a mulher, gente pobre, gente preta, gente LGBTQIAPN+, a liberdade religiosa e a democracia.

Talvez por isso eu não consiga olhar para uma eleição como quem escolhe uma operadora de celular. Por trás do voto tem gente e política não fica dentro da urna: aparece na escola, no hospital, no supermercado, no salário que acaba antes do mês, na universidade, na mulher que manda mensagem dizendo que chegou em casa.

É aí que a eleição deixa de ser uma disputa entre nomes e começa a me preocupar como projeto de país porque existe uma diferença enorme entre votar em alguém por acreditar que essa pessoa vai melhorar a economia e apoiar um projeto em que direitos básicos passam a ser tratados como excesso, diversidade como ameaça e desigualdade como inevitável.

Quando alguém fala em “família”, eu quero saber de qual família está falando. Porque a minha não se parece com propaganda de margarina e desconfio que a sua também não. Família é mãe solo, avó criando neto, casal divorciado, duas mães, dois pais, gente que saiu e gente que voltou. É muito mais bagunçada - e muito mais bonita - do que o modelo que cabe num discurso eleitoral. Talvez seja por isso que eu desconfie quando “Deus” aparece em pedido de voto. Não de Deus. Da apropriação dele. Fé é uma coisa. Estado é outra. Deus pode orientar a vida de quem acredita, o Estado precisa garantir a vida de todos.

E aí chegamos à liberdade. Todo mundo ama a liberdade até descobrir que o outro também tem direito a ela. A nossa é princípio; a do vizinho, dependendo do vizinho, começa a precisar de regulamentação. Só que democracia é justamente essa coisa inconveniente de permitir que o outro exista: que discorde, vote diferente, ame diferente, reze diferente, não reze, escreva o que pensa e critique o governo.

Se toda crítica ao governo for falta de patriotismo, talvez não seja patriotismo. É fã-clube. E eu não quero morar num país de fã-clubes. Existe um paradoxo que me assusta: para existirem dois lados, precisamos de democracia. Mas, se um dos lados começa a considerar a própria democracia um obstáculo quando ela impede que ele faça o que quer, a disputa deixa de ser apenas entre esquerda e direita. É aí que meu medo deixa de ser sobre candidatos e passa a ser sobre ideias. Ideias começam como piada, viram discurso, depois proposta, depois política. E, quando percebemos, já existe uma regra que alguém considera normal porque “sempre foi assim”.

A gente se acostuma rápido. Esse talvez seja um dos nossos talentos nacionais. A gente se acostuma com mulher sendo tratada como propriedade, com racismo chamado de bobagem, com intolerância religiosa chamada de opinião, com pobreza chamada de falta de esforço e com trabalhador reivindicando direitos sendo chamado de privilegiado.

Talvez eu esteja entendendo errado, mas sempre achei que palavras tão grandes deveriam servir para incluir mais gente, não para decidir quem fica do lado de fora.

Por isso, para mim, ser de esquerda não é estética política. É não olhar para alguém que nasceu sem nada e concluir que ela simplesmente não se esforçou o suficiente. É acreditar que o Estado pode ampliar possibilidades, em vez de apenas proteger quem já nasceu com elas. É entender que direitos não deveriam depender do saldo da conta bancária.

Talvez eu esteja exigindo demais. Talvez direitos para todos, Estado sem religião oficial e democracia até quando o resultado desagrada sejam expectativas sofisticadas demais para os tempos atuais. Mas eu ainda pretendo insistir. Afinal, se defender liberdade, igualdade e democracia virou radicalismo, alguém precisa avisar aos moderados que eles talvez tenham ido longe demais para o outro lado.

E eu, que só queria viver num país onde todo mundo pudesse existir em paz, acabei descobrindo que pedir o básico também pode ser considerado provocação.

Que fase.

Até o próximo texto!

Anna Domingues

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