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As vidas que não vivi

Menina Aleatória, Por Anna Domingues, Escritora

Em 28/09/2026 às 07:32:27

Outro dia, procurando uma coisa qualquer no celular, encontrei uma nota antiga. O título era “Coisas que quero fazer”. Abri e comecei a rir.

Tinha um livro que eu jurava que escreveria, um projeto que queria tirar do papel, um curso que começaria “no ano que vem” e uma profissão descrita com a segurança de quem já tinha resolvido o futuro. Em algum lugar da lista, eu também prometia aprender uma língua nova. Não aprendi.

Fui descendo a tela e reconhecendo a pessoa que tinha escrito aquilo. Era eu, mas algumas vontades já não eram. Algumas coisas aconteceram, outras foram ficando para depois e algumas continuavam ali, meio teimosas, como se não tivessem percebido que eu já tinha mudado de ideia.

Até que parei numa delas. Não era um sonho grandioso, desses que a gente conta para os outros. Era uma coisa que eu tinha querido muito e que, por algum motivo, simplesmente não aconteceu. Fiquei olhando para a frase por alguns segundos e senti uma saudade difícil de explicar. Saudade de uma coisa que nunca tive. De um momento que nunca vivi. Vá entender!

Antes da Letras, eu quis outras coisas. Fiz vestibular para Jornalismo e também para Cinema e Audiovisual. Lembro da ansiedade de escolher os cursos, pesquisar as grades, imaginar como seria entrar na faculdade e, por alguns instantes, acreditar que cada uma daquelas escolhas poderia virar a minha vida. No fim, foi a Letras que ficou.

Hoje, quando lembro das outras duas, não penso exatamente “e se?”. Penso na minha versão que teria saído de casa para uma aula de Jornalismo, na que talvez passasse horas discutindo cinema, na que teria outros colegas, outras histórias, outros caminhos até chegar à noite.

É estranho imaginar uma rotina que nunca existiu e, ainda assim, conseguir enxergar a pessoa que eu poderia ter sido dentro dela.

Tem ainda as mensagens. Uma que escrevi e não enviei. Uma conversa que deixei morrer porque não sabia como continuar. Um convite que recusei achando que outra oportunidade apareceria. Não apareceu.

Outro dia, vi uma conhecida anunciando que tinha se mudado para uma cidade onde eu já quis morar. Na foto havia uma varanda, uma xícara de café e uma janela aberta. Fiquei olhando e por alguns segundos, imaginei aquela manhã como minha. Depois fechei o aplicativo. Não queria a vida dela. Nem sei se gostaria daquela cidade depois de duas semanas. Talvez a varanda pegasse sol demais. Talvez o mercado fosse longe. Talvez eu sentisse falta justamente daquilo que hoje reclamo. Eu só queria saber como seria.

A nota antiga continuou aberta na tela. Li a lista inteira outra vez e algumas coisas me fizeram sorrir. Outras me deram vontade de perguntar quem aquela menina estava tentando impressionar. Em duas ou três, pensei: “Ainda quero.”

Fechei.

Não apaguei.

Ela ficou ali, entre uma senha antiga, uma lista de compras e outras coisas que eu provavelmente nunca vou organizar.

Talvez eu ainda faça algumas daquelas coisas. Ou não. Por enquanto, gosto de saber que aquela minha versão escreveu tudo aquilo com muita certeza. Mas hoje eu não tenho mais a mesma certeza, tenho outras. E algumas perguntas.

Voltei para o que estava fazendo. O celular ficou ao meu lado, a noite continuou e aquela lista voltou para o lugar de onde eu a tinha tirado, só que agora eu sabia que ela guardava mais do que planos. Fiquei pensando nisso por alguns minutos e depois fui fazer outra coisa. As vidas que não vivi continuaram onde sempre estiveram.

E eu também.

Até o próximo texto!

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