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Quando o medo de perder alguém vira dependência emocional

Saúde Mental e Bem-Estar, Por Andréa Ladislau, Psicanalista

Em 29/06/2026 às 12:38:59

A personagem da atriz Tatá Werneck na novela “Quem Ama Cuida” traz uma reflexão importante sobre um aspecto natural dos seres humanos: a necessidade de criar vínculos afetivos. Porém, também destaca o excesso dessa necessidade, que pode gerar o que chamamos de dependência emocional. É fato que precisamos de conexões, acolhimento e pertencimento para viver de forma saudável. No entanto, existe uma diferença importante entre compartilhar a vida com alguém e depender emocionalmente dessa pessoa para sentir-se completo, seguro ou feliz.

A dependência emocional é uma condição caracterizada pelo desejo excessivo de aprovação, presença ou validação do outro para manter o próprio equilíbrio emocional. Quando isso acontece, o relacionamento deixa de ser uma fonte de bem-estar e passa a ocupar um lugar de sobrevivência emocional. Muitas pessoas acreditam que amar significa precisar do outro o tempo todo. Entretanto, relacionamentos saudáveis são construídos por duas pessoas inteiras, capazes de compartilhar suas vidas sem abrir mão da própria identidade.

Um dos primeiros sinais da dependência emocional é o medo intenso do abandono. A simples possibilidade de afastamento pode provocar ansiedade, insegurança e sofrimento desproporcionais. A pessoa sente dificuldade para tomar decisões sozinha, evita conflitos a qualquer custo e, frequentemente, coloca as necessidades dos outros acima das próprias. Também é comum abrir mão de sonhos, amizades, projetos pessoais e valores para preservar um relacionamento. Aos poucos, a identidade vai sendo construída em função do outro, enquanto desejos e necessidades individuais ficam cada vez mais esquecidos.

Mas nem sempre a dependência emocional acontece apenas em relacionamentos amorosos. Ela também pode surgir entre pais e filhos, irmãos, amigos e até mesmo em relações profissionais, quando o indivíduo acredita que seu valor depende exclusivamente da aceitação de determinada pessoa ou grupo.

As origens desse padrão costumam estar relacionadas às primeiras experiências afetivas. Infâncias marcadas por insegurança, abandono, rejeição, críticas excessivas, superproteção ou vínculos instáveis podem favorecer o desenvolvimento da crença de que o amor precisa ser conquistado constantemente ou de que não se é suficientemente bom para ser amado.

Com o passar do tempo, esse funcionamento emocional tende a gerar sofrimento significativo. Ansiedade constante, baixa autoestima, ciúme excessivo, dificuldade em estabelecer limites, medo da solidão e tolerância a relacionamentos abusivos tornam-se cada vez mais frequentes. Em muitos casos, a pessoa permanece em relações que lhe causam dor simplesmente porque acredita não conseguir viver sem o outro.

O tratamento da dependência emocional vai muito além de “aprender a ficar sozinho”. Trata-se de reconstruir a relação consigo mesmo, fortalecer a autoestima, desenvolver autonomia emocional, construir relações mais equilibradas, aprender a identificar crenças limitantes, reconhecer as próprias necessidades, estabelecer limites saudáveis e compreender que amor não deve ser confundido com submissão ou anulação. Também é fundamental estimular o autocuidado para recuperar a autonomia emocional.

Portanto, relacionamentos maduros não são construídos sobre o medo de perder alguém, mas sobre a liberdade de permanecer juntos por escolha. Talvez o maior sinal de cura seja perceber que o amor deixa de ser uma necessidade desesperadora para tornar-se uma decisão consciente. Porque quem depende emocionalmente do outro para existir acaba entregando a ele o controle da própria felicidade. O verdadeiro amor começa quando aprendemos a permanecer inteiros, mesmo na presença ou na ausência de alguém.


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