Descobrimos a sustentabilidade na hora de separar o lixo. Pena que ela ainda não chegou aos relacionamentos.
Reciclamos vidro, plástico, papelão. Já as pessoas, não. Essas vão direto para o descarte.
Basta um atraso na resposta, um “não posso hoje”, uma opinião atravessada ou um dia em que alguém simplesmente não está espirituoso. Pronto. Surge o diagnóstico contemporâneo: “essa pessoa não agrega mais”.
Sempre achei curiosa essa obsessão por agregar. Ninguém pergunta se uma árvore agrega. Se um cachorro agrega. Se uma avó agrega. Eles simplesmente existem e, por isso mesmo, transformam tudo ao redor. Mas nós decidimos que gente precisa entregar desempenho emocional, disponibilidade integral e bom humor em tempo integral. Parece vaga de emprego, não amizade.
Outro dia ouvi alguém dizer que cortou uma pessoa da vida porque ela “estava em outra frequência”. Acho fascinante esse vocabulário místico aplicado à mais pura falta de paciência. Antigamente chamava-se conversa. Hoje chama-se incompatibilidade energética. Muito mais elegante.
Vivemos convencidos de que o problema está sempre no outro. O outro é intenso demais. Frio demais. Carente demais. Independente demais. Fala demais. Some demais. Uma pena que ainda não inventaram pessoas na medida exata do nosso ego.
A lógica é simples: enquanto você diverte, serve. Enquanto admira, serve. Enquanto concorda, serve. O primeiro defeito funciona como aqueles potinhos de iogurte: venceu o prazo de validade, joga fora.
E não adianta argumentar que ninguém é perfeito. A perfeição continua sendo exigida, desde que discretamente. Ela vem disfarçada de frases bonitas: “estou preservando minha paz”, “escolhi minha saúde mental”, “não aceito menos do que mereço”. Todas legítimas, claro. O problema é quando essas expressões viram álibi para nunca lidar com o desconforto inevitável que qualquer relação produz.
Porque gente incomoda. Gente atrasa. Gente muda de ideia. Gente atravessa fases insuportáveis.
Inclusive nós.
É curioso como somos especialistas em justificar as nossas ausências e implacáveis ao julgar as ausências alheias. Quando desaparecemos, estávamos sobrecarregados. Quando o outro desaparece, ele perdeu o interesse. Quando erramos, foi um momento difícil. Quando o outro erra, revelou quem realmente é. Que conveniência!
Vá saber, mas talvez seja por isso que existam tantas conexões e tão poucos vínculos. Estamos colecionando contatos como quem coleciona aplicativos: instala, usa um pouco, enjoa, substitui. O mercado agradece. O coração, nem tanto.
No fundo, ninguém quer ser descartado. Só aprendemos a descartar antes que façam isso conosco, e ainda temos a petulância de chamar isso de maturidade. Às vezes, é só medo embalado numa linguagem muito sofisticada.
Até o próximo texto!
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