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Ambulantes dormem na chuva após Barcas impedir embarque em Paquetá

Trabalhadores foram obrigados a ficar na rua depois de trabalharem no Bloco Boto Marinho

Por Luciana Serpa em 09/09/2025 às 14:56:04

Fotos: Divulgação

Dezenas de ambulantes que trabalhavam no Bloco Boto Marinho, realizado neste sábado (06) em Paquetá, foram impedidos de embarcar nas barcas de volta ao Rio de Janeiro. Eles tiveram de passar a madrugada na rua, sob chuva, sem conseguir retornar para suas casas com suas mercadorias, mesmo com as barcas sem grande fluxo de movimentação de outros usuários do transporte.

Segundo Carol Alves, do Movimento Trabalhadores Sem Direitos, havia um acordo prévio estabelecido durante a reunião da comissão organizadora do evento. "Foi acordado que os ambulantes que trabalhavam no bloco poderiam embarcar nos dois últimos horários das barcas, às 22h e às 23h", explicou Carol. "Aqueles que terminassem o trabalho mais cedo poderiam deixar o carrinho e material na 'cocheira', uma espécie de guarda-volumes, para pegar depois."

Ordem para impedir o embarque dos ambulantes

Contudo, às 21h30, seguranças do Consórcio Rio Barcas começaram a impedir o embarque dos trabalhadores informais. De acordo com informações dos próprios seguranças, a ordem era barrar a entrada dos ambulantes que haviam trabalhado no bloco.

A autorização para embarque foi restrita a apenas cinco ambulantes no horário de 8h30 da manhã de domingo, e mais cinco no horário das 10h. Os seguranças alegaram que já haviam sido liberados 18 ambulantes "acima do limite de cinco" e que a proibição de embarque vinha do Centro de Controle, monitorado por câmeras.

"Humilhação" com trabalhadores da cultura

Carol Santos criticou duramente a postura do Consórcio Rio Barcas. "Nós fazemos parte do bloco também e da cultura para sermos humilhados desse jeito. O Consórcio Rio Barcas ganha com cada ambulante que passa porque cada um pesa o seu carrinho, paga ida e volta pelo volume da pesagem com mercadorias e pela passagem. Eles fizeram essa humilhação com trabalhadores, nos proibindo de ir embora para casa depois de um dia de trabalho", disse.

Os ambulantes tentaram contato com Luis Fernando, especialista de operações representante da Barcas Rio, mas o telefone disponibilizado por ele durante a reunião de organização não atendeu às chamadas desde que o embarque começou a ser impedido.


Noite de chuva na rua

Como resultado da medida, trabalhadores, mulheres e crianças passaram a madrugada de sábado para domingo expostos à chuva, sem conseguir retornar às suas residências no Rio de Janeiro.

O caso evidencia as dificuldades enfrentadas por trabalhadores ambulantes, que contribuem para a economia dos eventos culturais da cidade, mas enfrentam restrições que afetam suas condições básicas de trabalho e deslocamento.

Em nota, a Secretaria de Estado de Transporte e Mobilidade Urbana (Setram), por meio do consórcio Barcas Rio, emitiu o seguinte informe:

“Todos os ambulantes que atuavam no evento em Paquetá foram transportados da ilha para a Praça XV na noite do último sábado (06). Inclusive, o consórcio remanejou uma embarcação de maior capacidade para comportar toda a carga do último grupo, que retornou na viagem das 23h30.

É importante esclarecer que os carrinhos usados pelos ambulantes precisam ser submetidos à pesagem. Os limites para o embarque são estabelecidos em função da disponibilidade de carga e da capacidade máxima de cada embarcação. Todas essas medidas são tomadas para garantir a segurança e o conforto dos passageiros.

Antes do evento, a Setram reforçou ao responsável pela organização sobre a importância de adotar todas as medidas necessárias para o ordenamento dos ambulantes, garantindo que a movimentação não impactasse a operação e a rotina dos usuários”.

Após a resposta da assessoria da Setram, o Movimento dos Trabalhadores sem Direitos foi procurado pelo Portal Eu, Rio!, para esclarecimentos se mantinham a denúncia sobre os trabalhadores que ficaram desabrigados impedidos de retornar para suas próprias casas na noite do último sábado. O movimento emitiu a seguinte nota:

“Nós, do Movimento dos Trabalhadores Sem Direitos e do Coletivo Elas por Elas Providência, manifestamos nosso repúdio à forma como os ambulantes foram tratados pela Barca Rio durante o evento em Paquetá.

Desde o início, os trabalhadores credenciados e organizados pelo movimento foram proibidos de embarcar na Praça XV, mesmo após todo o processo de credenciamento feito em reunião, dia 01/09, onde foi firmado um acordo para garantir o acesso desses trabalhadores às barcas. Esse acordo não foi cumprido, desrespeitando diretamente o direito ao trabalho digno.

Eram 5 carrinhos de ambulantes por viagem e um total de 70 trabalhadores credenciados, mas na ida as barcas estavam liberando o embarque de apenas 2 trabalhadores por vez — uma prática abusiva que impossibilitou que todos pudessem atravessar de forma organizada e respeitosa.

Os ambulantes passaram quatro dias dormindo na Praça XV para conseguir atravessar e trabalhar no bloco Boto Marinho. A volta foi ainda mais humilhante: a segurança das barcas alegava que só liberaria a saída às 8h30 da manhã do dia seguinte, expondo trabalhadores, mulheres e até crianças à chuva e ao desgaste. Apenas com muita pressão foi enviada uma embarcação, e parte dos ambulantes precisou buscar abrigo em casas de moradores locais.

Essa postura demonstra desrespeito não só com os trabalhadores, mas também com a própria economia popular que movimenta o Carnaval e fortalece a cultura do Rio de Janeiro. Se com um número menor de ambulantes o acordo não foi cumprido, cresce nossa preocupação para o Carnaval de 2026, quando a demanda será ainda maior.

Exigimos respeito e condições dignas de trabalho. Somos parte fundamental do Carnaval, fazemos a economia girar e não aceitaremos mais tratamento desumano.”

A Setram alegou que todos os ambulantes foram transportados seguindo uma logística para garantir a segurança, entretanto o movimento denuncia o descumprimento de acordos previamente estabelecidos e condições inadequadas de acesso ao transporte que deixaram os trabalhadores em situação de vulnerabilidade. O fato é que o episódio evidencia a necessidade de diálogo entre as partes para estabelecer protocolos claros que conciliem as exigências de segurança com as demandas dos trabalhadores ambulantes, especialmente considerando eventos futuros de maior porte como o Carnaval.


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