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Saúde Pública de Precisão

Anvisa autoriza Fiocruz a começar testes clínicos de terapia gênica contra Atrofia Muscular Espinhal Tipo 1

Transferência de tecnologia da Gemma Biotherapueticos abre caminho para produção nacional de medicamento contra forma mais grave da doença


Atrofia Muscular Espinhal prejudica as funções motoras da criança ao limite de impedir até a respiração, nos casos mais graves. Foto: Divulgação IMAE

A Fiocruz recebeu autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o início dos testes clínicos em humanos do GB221, um produto de terapia gênica avançada voltado ao tratamento da Atrofia Muscular Espinhal (AME) Tipo 1 (SMA1), a forma mais grave da doença. O anúncio foi realizado durante reunião do Grupo Executivo do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (Geceis) do Governo Federal, nesta segunda-feira (24/11), em São Paulo. Aprovado de forma ágil pela Anvisa em processo de análise prioritária, o estudo posiciona o Brasil na liderança do tema na América Latina.

A terapia GB221 foi desenvolvida pela empresa norte-americana Gemma Biotherapeutics, Inc. (GEMMABio). A Fiocruz, além de participar do desenvolvimento clínico da terapia, firmou um acordo de transferência de tecnologia junto à empresa, por meio do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz), abrindo caminho para que a produção nacional de uma terapia gênica seja realizada pela primeira vez. Este é mais um passo no âmbito da Estratégia Fiocruz para Terapias Avançadas, que tem o objetivo de dotar o país das bases científico-tecnológicas, de produção e assistenciais necessárias à disponibilização de produtos para terapias avançadas no âmbito do SUS.

Com a iniciativa, o Ministério da Saúde (MS) avança no apoio nacional à pesquisa e o desenvolvimento de terapias gênicas, uma das fronteiras mais inovadoras da saúde pública de precisão, com foco no SUS. O projeto destinado ao desenvolvimento de terapias gênicas para doenças raras liderado pela Fiocruz já recebeu investimentos de R$ 122 milhões do MS. A Estratégia também conta com aporte financeiro da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), que investiu recursos da ordem de R$ 50 milhões em infraestrutura de produção de terapias avançadas.

Desde a produção da vacina para Covid-19, Bio-Manguinhos/Fiocruz domina a tecnologia de vetores virais, usada para esta terapia gênica. A produção de vetores virais em condições de boas práticas de manufatura é um grande gargalo tecnológico em todo o mundo e o domínio desta técnica coloca o Brasil em potencial inédito de protagonismo global nesta nova fronteira tecnológica.

O projeto integra as iniciativas do Ministério da Saúde para fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (Ceis) e, ao mesmo tempo, é parte do esforço de ampliação da Política Nacional de Atenção às Pessoas com Doenças Raras. Ao atuar nestas duas frentes, a iniciativa fortalece o SUS com um desenvolvimento tecnológico concreto, que pode superar os desafios impostos pelas novas tecnologias à sustentabilidade financeira da saúde pública.

“Como uma instituição que atua há 125 anos em defesa da vida, é emocionante para a Fiocruz colocar sua capacidade científica a serviço das crianças do nosso país. O estudo clínico que acaba de ser autorizado poderá transformar a vida de crianças com atrofia muscular espinhal de forma inédita a partir de técnicas de terapia gênica, um campo de ponta na ciência mundial. Tudo isso, pensando de forma combinada à internalização desta tecnologia, que é bastante cara e sofisticada. Com esta ação, a Fiocruz reafirma seu compromisso com o SUS, com o Complexo Econômico-Industrial da Saúde, com a soberania nacional e, sobretudo, com a redução das desigualdades no país”, destaca o presidente da Fiocruz, Mario Moreira.

Diretora de Bio-Manguinhos/Fiocruz, Rosane Cuber destaca que essa parceria simboliza um passo decisivo para o país. “A inclusão de terapias gênicas em nosso portfólio representa uma oportunidade única de fortalecer a soberania científica e tecnológica do Brasil", destaca. "Em Bio-Manguinhos, trabalhamos com profundo compromisso com os participantes dos estudos, assegurando qualidade, segurança e eficácia em todas as etapas. Atuamos sempre alinhados ao rigor regulatório e científico, porque sabemos que cada avanço representa esperança real para milhares de famílias brasileiras”.

O projeto dá continuidade à iniciativa originalmente liderada pelo biólogo e biofísico Marco Aurélio Krieger, então vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz (2017-2025), falecido em abril deste ano. Durante sua gestão, a Fiocruz passou a atuar de forma estratégica no domínio da tecnologia de vetor viral, pavimentando o caminho para a produção nacional de terapias gênicas e o protagonismo do Brasil nesta fronteira da ciência mundial. Este avanço em terapia gênica consolida a capacidade nacional de conduzir estudos no campo da biotecnologia avançada.

O contrato firmado junto à empresa prevê que os custos da terapia a serem praticados no Brasil seriam de apenas 20% a 25% dos valores atualmente praticados nos Estados Unidos em relação a terapias similares. Esta vantagem no custo da terapia abre espaço para incorporação ao SUS e a redução de gastos públicos oriundos da crescente judicialização do acesso a tratamentos similares.

Testes clínicos

Considerada rara e com manifestação ainda nos primeiros meses de vida, a AME Tipo 1 é causada por uma alteração no gene SMN1, responsável por produzir uma proteína essencial para o funcionamento dos neurônios relacionados ao movimento. A ausência dessa proteína provoca a perda progressiva da força muscular e pode comprometer a sobrevivência das crianças nos primeiros anos de vida.

O estudo que acaba de ser aprovado pela Anvisa será desenvolvido em parceria com a Casa dos Raros, o Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) e o Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Os estudos serão conduzidos no Brasil em parceria com a Intrials Pesquisa Clínica Ltda., contratada pela GEMMABio. para acompanhar a etapa no país.

O foco do ensaio clínico é a avaliação da segurança e da tolerabilidade (fase 1) e dos primeiros sinais de eficácia (fase 2) do medicamento, que será usado em dose única. A administração da terapia será feita por via intracisterna magna (ICM), técnica que permite que o produto seja entregue diretamente ao sistema nervoso central.

A Anvisa tem atuado de modo decisivo para a aprovação do estudo clínico. A Fiocruz, a Intrials e a GEMMABio têm recebido acompanhamento regulatório contínuo da Agência, como parte dos processos de agilização de análises prioritárias. A interação regulatória antecipada reduz incertezas, acelera processos e contribui para que tecnologias de alta complexidade avancem com segurança.

Agência Fiocruz de Notícias

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