Promovida pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER), a formação Axé-Amém, que reuniu pessoas negras evangélicas e de terreiro, deu origem ao livro Axé-Amém: Encruzilhadas da Fé Negra no Brasil. A publicação foi escrita pelos integrantes da formação e reúne 37 textos com histórias, memórias, dores, ancestralidade e cura a partir de suas vivências. O livro será lançado nesta terça-feira (02), no Muhcab - Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira, às 18h. O lançamento reunirá os autores do livro em um encontro que visa celebrar a fé negra, as múltiplas pertenças e a potência espiritual e ancestral. O encontro também terá a roda de samba do Pagode da Gigi e uma intervenção gospel com o cantor Adiel Gustavo. O evento será gratuito e aberto ao público.
Os textos reunidos no livro abordam temas como dupla pertença religiosa, memórias familiares, racismo religioso, formação política, afeto comunitário, disputas de narrativa e práticas de resistência espiritual. São escritas que tensionam fronteiras, questionam estigmas e afirmam a religiosidade e espiritualidade como possibilidade de transformação, afirmação e reinvenção social. Mais do que registrar relatos, o livro aponta para possibilidades reais de diálogo e cooperação entre evangélicos e povos de matriz africana, dois campos religiosos frequentemente representados como antagônicos, mas que compartilham histórias de resistência da população negra no Brasil.
Para a pesquisadora de Religião e Poder do ISER e uma das facilitadoras da formação Carolina Rocha, o livro é um marco para os estudos do campo religioso no Brasil, para as entidades e os atores que lutam contra o racismo religioso. “O livro mostra que somos muito mais africanos do que nós consideramos e que partilhamos muitas estratégias de vivência, por isso a pergunta: a quem interessa que pessoas Negras se vejam como inimigas e não cooperem entre si em um país que nos extermina?”, questiona.
Durante quatro meses, a formação Axé-Amém reuniu 27 pessoas negras evangélicas e de terreiro, unindo vozes e trajetórias em torno de um objetivo comum: superar hostilidades, enfrentar o racismo religioso e construir pontes para um futuro mais inclusivo, onde as diferenças não sejam um entrave frente às possibilidades de cooperação. Em vez de reforçar divisões e conflitos, a iniciativa aposta no encontro e no aprendizado mútuo, visando o bem comum. Ao longo da formação, os participantes compartilharam experiências, sonhos, dores e criaram estratégias de resistência e formas de olhar para a fé do outro não como ameaça e sim como possibilidade de construção coletiva.
A formação foi coordenada pela historiadora candomblecista Carolina Rocha (Dandara Suburbana) e pelo pastor e teólogo Ronilso Pacheco, com colaboração do filósofo candomblecista Obalerá e da pastora e pedagoga Fabíola Oliveira. Os encontros contaram com a mediação de referências das espiritualidades e pesquisas negras, como Iya Wanda de Omolu, Babá Adailton Moreira, Fezinha, Andressa Oliveira, Pastor Júlio Oliveira, Brian Kibuuka, Arthur José e Rodrigo Peniche.
A metodologia adotada partiu da ideia de encruzilhada, compreendida não como conflito ou oposição, mas como espaço de confluência entre diferenças, trânsito entre saberes e abertura para o diálogo.
Em 2024, o Brasil registrou 3.853 violações motivadas por intolerância religiosa, um aumento de 80% em relação a 2023, segundo dados do canal de denúncias do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), o Disque 100. A formação Axé-Amém combate à intolerância religiosa por meio da produção de conhecimento e do diálogo inter-religioso.
Para o Diretor de Programas do ISER e um dos facilitadores da formação Ronilso Pacheco, um encontro como Axé-Amém reforça a importância do diálogo inter-religioso para promover iniciativas em prol de direitos. “Considerando o papel tão fundamental que a espiritualidade e a religião tem na vida de tantas pessoas negras deste país, ter ambientes que promovam o diálogo entre tradições de fé diferentes como o Axé-Amém está fazendo, necessariamente impacta nas relações do dia a dia e ajuda na construção de uma sociedade mais saudável”, afirma.
A livro Axé-Amém: Encruzilhadas da Fé Negra no Brasil integra os esforços do ISER em fortalecer iniciativas de enfrentamento ao racismo religioso, ampliar o repertório de práticas inter-religiosas e fomentar ambientes de diálogo, escuta, articulação política e produção de conhecimento científico e comunitário.
SERVIÇO
Lançamento do Livro Axé-Amém: Encruzilhadas da Fé Negra no Brasil
Data: Terça-feira (02/12)
Endereço: Muhcab - Rua Pedro Ernesto, 80, Gamboa - Centro, RJ
Horário: 18h