Juíza Tula Corrêa de Mello, ao centro, de óculos, destacou importância da exumação do corpo da vítima para comprovar culpa da acusada. Foto: Bruno Dantas/TJRJ
Em uma sessão marcada por forte emoção e relatos de crueldade, o Conselho de Sentença do III Tribunal do Júri do Rio de Janeiro condenou, nesta quinta-feira, 5 de março, Cintia Mariano Dias Cabral a uma pena total de 49 anos, 6 meses e 20 dias de reclusão em regime inicial fechado. Ela foi considerada culpada pelo homicídio qualificado da enteada, Fernanda Carvalho Cabral, e pela tentativa de homicídio qualificado de Bruno Carvalho Cabral, ambos envenenados com "chumbinho", em 2022, em Padre Miguel, Zona Oeste da cidade.
Ao proferir a sentença, após 15 horas de julgamento, a juíza Tula Corrêa de Mello, que presidiu a sessão, ressaltou a especial gravidade da conduta da ré. Para o crime contra Fernanda, a pena foi fixada em 30 anos, enquanto a tentativa contra Bruno resultou em 19 anos, 6 meses e 20 dias. O júri reconheceu as qualificadoras de emprego de veneno e motivo fútil — este último baseado no ciúme excessivo que a ré sentia da relação do companheiro, Adeilson Jarbas Cabral, com seus filhos.
Em sua fala, a magistrada destacou que Cintia agiu de forma premeditada. "A culpabilidade exacerbou. A acusada ceifou a vida da enteada Fernanda. Foi premeditado. A ré planejou friamente a morte da vítima", afirmou a juíza. Ela também mencionou que a ré tentou despistar os médicos ao sugerir que Fernanda passava mal devido ao uso de anabolizantes ("bomba"), o que prejudicou o atendimento e diminuiu as chances de sobrevida da jovem.
Juíza aponta exumação das vítimas como essencial para provar veneno como arma do crime
Ao longo do julgamento, iniciado na tarde de quarta-feira, a defesa de Cintia Mariano adotou uma linha de argumentação técnica rigorosa. Os advogados alegaram que a prova pericial não era suficiente para sustentar a tese da acusação, chegando a afirmar que os laudos eram inexistentes ou insuficientes para atestar categoricamente que a ré havia administrado o veneno. A defesa pontuou que resultados iniciais teriam sido negativos e questionou a validade da exumação do corpo de Fernanda.
No entanto, o Ministério Público rebateu tais argumentos apresentando laudos que confirmaram a presença de grânulos de raticida clandestino (carbamato) no suco gástrico de Bruno e no prontuário médico de Fernanda. A juíza Tula Corrêa de Mello reforçou a necessidade da exumação, ocorrida dois meses após o sepultamento, como fundamental para sanar dúvidas, embora tenha reconhecido o "grave abalo psicológico" causado à família por ter de reviver o trauma.
Filhos biológicos testemunharam confissão informal do assassinato pela acusada
Apesar das negativas da defesa, o depoimento dos próprios filhos biológicos de Cintia, Lucas e Carla Mariano Rodrigues, foi considerado contundente. Ambos relataram que, após Cintia receber alta de uma suposta tentativa de suicídio, ela lhes confessou informalmente ter envenenado os dois enteados.
Lucas detalhou em juízo que a mãe admitiu ter colocado "chumbinho" no feijão de Bruno e que fizera "a mesma coisa com Fernanda", justificando seus atos "por amor a Adeilson". Carla, por sua vez, mencionou as intrigas que a mãe costumava criar e como ela se incomodava até com o dinheiro que a enteada ganhava em seu trabalho.
Bruno Carvalho Cabral, sobrevivente do ataque em maio de 2022, prestou depoimento emocionado. Ele descreveu o momento em que sentiu um gosto amargo no feijão servido pela madrasta e notou "bolinhas azuis" na comida. "Ao perguntar para ela, vi que ficou nervosa", declarou o jovem, que passou cinco dias internado no CTI.
O pai das vítimas, Adeilson, relatou o ciúme doentio de Cintia, afirmando que ela chegava a apagar mensagens de WhatsApp enviadas pelos filhos para que ele não as visse. Jane Carvalho Cabral, mãe de Fernanda e Bruno, encerrou seu depoimento em lágrimas ao lembrar que, durante a internação de Fernanda, os batimentos cardíacos da filha disparavam sempre que Cintia se aproximava do leito.
Atentados ocorreram em 2022, e primeira morte foi tratada de início como de 'causas naturais'
O primeiro ataque ocorreu em 15 de março de 2022, quando Fernanda Carvalho Cabral, de 22 anos, passou mal logo após o jantar. A jovem apresentou sintomas típicos de intoxicação exógena, como tontura e visão turva, vindo a falecer no dia 27 de março após 13 dias de internação. Inicialmente, a morte foi tratada como causas naturais, mas a suspeita de crime surgiu dois meses depois.
Em 15 de maio de 2022, Bruno Carvalho Cabral, então com 16 anos, também passou mal após um almoço servido pela madrasta. O adolescente relatou ter sentido um gosto amargo no feijão e notado "bolinhas azuis" na comida. Diferente da irmã, Bruno recebeu atendimento médico imediato e sobreviveu após passar por uma lavagem estomacal que confirmou a presença do veneno.
Ao encerrar a sessão, a juíza Tula Corrêa de Mello dirigiu palavras de solidariedade à família: "A Fernanda não vai voltar, mas de certa forma acredito que esse é um momento importante, no momento que a justiça está sendo feita". Cintia Mariano, que já se encontrava em prisão preventiva desde julho de 2022 para garantia da ordem pública, teve sua prisão mantida e não poderá recorrer em liberdade.
Processo 0128915-93.2022.8.19.0001
Fonte: Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro