TOPO - PRINCIPAL - 1190X148TOPO - PRINCIPAL - BOM PAGADOR - 1190X148

Valas clandestinas ocultam cadáveres, silenciam famílias e expõem dinâmica perversa do poder na Baixada

'Onde os Corpos Desaparecem', livro surgido de trabalho de mestrado, aponta Caxias e Belford Roxo como endereços da morte

Por Luana Luna em 11/03/2026 às 17:38:07

Polícia Civil descobriu em 2019 cemitério clandestino na Baixada Fluminense, atribuído na época ao Comando Vermelho. Foto: Reprodução TV Globo

Grupos armados, que incluem milicianos, traficantes e pessoas ligadas à política, utilizam valas clandestinas na Baixada Fluminense para ocultar cadáveres e consolidar o domínio territorial através do medo. A dissertação de mestrado "A produção das mortes e a ocultação dos cadáveres: um estudo sobre as valas clandestinas na Baixada Fluminense", que será publicada no livro "Onde os corpos desaparecem" com lançamento marcado para o dia 27 de março, no Centro do Rio, aponta que os municípios de Duque de Caxias e Belford Roxo concentram o maior número de relatos. A prática visa eliminar vestígios criminais ao mesmo tempo em que envia um recado de poder absoluto às comunidades locais, onde o silêncio é a única regra de sobrevivência.

Livro surgiu de trabalho de mestrado de Augusto Torres Perillo sobre a ocultação de cadáveres como estratégia de poder

A dinâmica da invisibilização é cruel e estruturada. Em muitos casos, corpos são jogados em rios e ficam presos à vegetação. Mesmo quando a comunidade local percebe a presença do cadáver, o medo de represálias impede qualquer denúncia ou auxílio à família da vítima. Membros da própria vizinhança chegam a soltar os corpos dos galhos para que a correnteza os leve, garantindo que a estrutura de poder dos grupos armados não seja desafiada.

Segundo o sociólogo José Cláudio Souza Alves, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, a "invisibilização das pessoas é muito bem-estruturada e articulada por grupos com muito poder. Hoje é muito mais visível aqui no Rio de Janeiro a articulação desses grupos, eles aparecem, não têm nenhum pudor, nenhum problema em super expor para todo mundo o poder que eles têm, porque é a partir disso que eles se protegem."

As motivações para as execuções variam entre disputas territoriais, cobrança de dívidas, eliminação de supostos delatores (os "X-9"), feminicídios e justiçamento de acusados de crimes contra crianças. As técnicas de descarte são bárbaras: o estudo que embasa o livro menciona esquartejamento, carbonização e uso de cadáveres para alimentar animais, como porcos e jacarés.

Os locais escolhidos para as valas clandestinas seguem um padrão geográfico: áreas de transição entre o urbano e o rural, com iluminação precária, ausência de asfalto e ambientes que aceleram a putrefação dos corpos, como rios, matagais e poços. Para as famílias, o resultado é uma "morte suspensa", a ausência do corpo prejudica o luto e apaga a memória das vítimas, aprofundando o terror psicológico na região.

POSIÇÃO 3 - DENGUE 1190X148
Saiba como criar um Portal de Notícias Administrável com Hotfix Press.