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Infraestrutura e arborização

Prefeitura inicia obras de ciclovia na Tijuca sob críticas de ciclistas e ambientalistas

Após morte de mãe e filho na Conde de Bonfim, Prefeitura age sem consulta pública


Fotos: Luciana Serpa/Agência Eu, Rio!

Na última sexta-feira (10), o movimento Massa Crítica instalou duas bicicletas fantasmas — memorial adotado em todo o mundo para denunciar locais onde ciclistas perderam a vida no trânsito — na Rua Conde de Bonfim em protesto às mortes de Emanoelle Farias e Francisco Farias Antunes, mãe e filho atropelados no mesmo local em 30 de março. No domingo (12), a Prefeitura começou a remover parte das árvores do canteiro central da via para construir o primeiro trecho da ciclovia, da Praça Saens Pena até a Pinto de Figueiredo.

A obra foi iniciada sem consulta pública. O projeto completo prevê a extensão até a ciclovia já existente na Rua Uruguai, totalizando mais 1,2 quilômetro, e enfrenta críticas de ciclistas e ambientalistas que questionam se a intervenção, feita sem debate público e às custas das poucas árvores da Zona Norte, será de fato segura para quem pedala e para os pedestres que atravessarão o local.

Por mais ciclovias e árvores

O Massa Crítica integra um movimento mundial de ciclistas que ocupa as ruas para afirmar que ciclistas existem, circulam e têm direito ao espaço público. Para o movimento, ciclistas não atrapalham o tráfego — são o tráfego. No Rio de Janeiro, reúne grupos de todas as regiões da cidade em pedaladas e atos periódicos para reivindicar mais segurança e infraestrutura para quem usa a bicicleta como meio de transporte.

Na avaliação do Massa Crítica RJ, mais ciclovias são necessárias, mas não às custas das poucas árvores da Zona Norte. Em nota pública sobre as mortes de Emanoelle e Francisco, o movimento foi direto: "O sistema de tráfego que prioriza o fluxo de motorizados acima da vida humana é quem produz essas mortes. Quem mata é o sistema e o descaso público com o transporte por bicicletas."


Estudo técnico de véspera

No sábado (11), um técnico da Secretaria de Conservação percorreu o canteiro a pedido do secretário Diego Vaz. Em vídeo obtido pelo Portal Eu Rio!, o profissional conclui: "O secretário pode ficar tranquilo, que essas árvores aqui, com a ciclovia ou não, não têm futuro."

O técnico identificou Leucenas, espécie exótica, e Figueiras da espécie Ficus microcarpa com declínio vegetativo e lesões na base. O jornalista e mestre em engenharia ambiental Emanuel Alencar, do Respira-Rio — movimento que pressiona pela aplicação do Plano Diretor de Arborização Urbana do Rio, engavetado há dez anos pela Prefeitura e considerado fundamental para enfrentar o déficit de quase um milhão de árvores na cidade —, rebate: "Mesmo que sejam espécies exóticas, não justifica a ausência de replantio. As árvores, exóticas ou em más condições, ainda assim fazem sombra, regulam a temperatura e retêm água. Fica um debate muito pobre."

Para Gricel Osorio Hor Meyll, do GAE — Grupo Ação Ecológica, o padrão é antigo. "É impressionante a falta de valor das árvores para a administração da cidade. O problema é que costumam retirar e nunca mais replantam."

Alternativas ignoradas

Pedro Matsumoto, ciclista integrante da Rede Bike Anjo, reprova a condução da obra na ciclovia da Tijuca. "A Prefeitura retira árvores essenciais para a saúde coletiva, mantém o tamanho das faixas dos carros particulares poluidores, dificulta a travessia de pedestres e as conversões para ciclistas. Um projeto feito às pressas, sem consulta pública", resume.

O Massa Crítica também cobra dos motoristas o cumprimento das normas de trânsito em que o maior protege o menor. O Código de Trânsito Brasileiro, no artigo 201, exige espaçamento mínimo de 1,5 metro ao ultrapassar ciclistas. Deixar de guardar essa distância é infração média, com multa de R$ 130,16 e quatro pontos na carteira. Não reduzir a velocidade ao ultrapassar um ciclista é infração gravíssima: R$ 293,47 e sete pontos na CNH.

O que o movimento exige

Além de ciclovias com projeto de integração e consulta pública, o Massa Crítica exige do poder público a redução da velocidade padrão nas vias da cidade com radares nas principais avenidas.

O movimento defende o estreitamento de faixas de rolamento para a instalação de ciclovias onde for possível, a ampliação da integração entre a malha cicloviária e o metrô e o trem, e campanhas de educação no trânsito.

O Massa Crítica também reivindica a regulação das concessões de ônibus para que motoristas sejam capacitados e tenham condições de trabalho que garantam a segurança de todos.


Números da morosidade

A previsão de uma ciclovia na Rua Conde de Bonfim consta no Plano de Expansão Cicloviária do Rio há mais de dez anos. Em 2023, a Prefeitura lançou o CicloRio com meta de mil quilômetros até 2033. Em 2026, revisou o plano para 50 quilômetros até 2028, com investimento de R$ 20 milhões. Para Alencar, o ritmo é insuficiente: desde 2022, foram entregues apenas 27 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas. "Uma morosidade inaceitável", define o representante do movimento Respira-Rio.

No último domingo, além do trecho da Tijuca, a Prefeitura iniciou outras obras para a construção de ciclovias na Rua Muniz Barreto, em Botafogo, e no eixo Glória-Cinelândia. As três intervenções somam menos de 1,4 quilômetro de novas ciclovias, com previsão de conclusão em 90 dias.

Alencar defende que a compensação ambiental deve ir além do replantio pontual. "Será que a Praça Saens Pena e a Praça Vanhagem vão ter mais árvores? Vamos desapropriar alguns terrenos na Rua Conde de Bonfim que estão subutilizados para fazer pequenas florestas?", questiona, citando o conceito de floresta de bolso, adotado em São Paulo para combater o calor extremo.

O Portal Eu, Rio! enviou perguntas à Prefeitura sobre replantio, consulta pública, projeto técnico, alternativas ao canteiro e preservação do memorial a Emanoelle e Francisco. A Prefeitura se limitou a enviar o release institucional da obra.

O comunicado informa que apenas 60 metros da ciclofaixa ocupam o canteiro central e que nos demais trechos uma faixa de rolamento será reduzida. Das nove árvores removidas, sete tinham comprometimento na base e apenas duas saudáveis foram retiradas para replantio.

O poste com as bicicletas fantasmas, na altura do número 422 da Conde de Bonfim, será preservado durante as obras e na nova ciclovia, segundo Michael Magalhães, da 5ª Gerência de Conservação da Prefeitura, e William da Cal, Gerente Executivo Local da 5ª Região Administrativa.

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