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Desaceleração

Especialista analisa cenário do setor turístico no Brasil

Analista avalia desaceleração da atividade turística, com foco nos impactos recentes no transporte aéreo, hotelaria e serviços


Foto: Divulgação

Analista Técnica de Investimentos CNPI e Estrategista da WMF Capital Research, Gisele Bazanella, faz uma análise do atual cenário do setor turístico no Brasil e a desaceleração da atividade turística, com foco nos impactos recentes no transporte aéreo, hotelaria e serviços. Veja na entrevista:

1. O setor de turismo está em crise?

Não há evidência estrutural de crise. O que pode haver é uma desaceleração da atividade turística, comum para este setor cíclico e volátil. Se você pensar que o turismo oscila conforme a renda do brasileiro. E a renda está diretamente relacionada com o emprego. Por esta variável, considerando que a taxa de desemprego no 40 trimestre de 2025 caiu para 5,1% (segundo IBGE) a tendência é o setor acelerar.

Se você pensar que o turismo oscila conforme o câmbio (dólar). E o dólar está em queda, operando abaixo de R$ 5,00. Então, por esta variável a tendência é as viagens ao exterior ficarem mais acessíveis e parte da demanda sair do turismo interno e migrar para o turismo internacional. Neste cenário, pode haver uma queda na demanda por hotelaria e uma alta na demanda por passagens aéreas. O preço da passagem, por sua vez, depende também do preço do combustível, que está pressionado pelo cenário geopolítico atual. Observe que estes sinais podem aparecer de forma localizada, não sistêmica.

2. O turismo representa cerca de 5% dos empregos no Brasil. Existe risco real de retração no emprego?

É importante deixar claro que estes 5% referem-se à cadeia do turismo, o que inclui: hospedagens, alimentação (restaurantes), transportes (inclusive terrestre), agências de viagens, atividades culturais, entre outros. Ou seja, não estamos falando do “turismo puro”, mas de um conjunto de serviços associados. Se for considerar o emprego direto no turismo este percentual será menor.

Em relação ao risco real de retração no emprego, existe. Porém, tende a ser limitado. O turismo emprega muito em informalidade. E no caso das empresas, normalmente olhamos para essa sequência: primeiro a companhia comprime margens, depois reduz capacidade operacional, depois segura contratações. Por isso, o risco de desaceleração na geração de empregos existe. Todavia, as demissões amplas são o último recurso e os indicadores atuais não sugerem que chegamos a esse ponto.

3. As medidas do governo (isenção de PIS/Cofins, crédito via BNDES) são suficientes ou paliativas? Existe risco de essas políticas gerarem distorções fiscais ou inflação?

A isenção de PIS/Cofins mencionada existiu no contexto do PERSE (Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos), mas hoje não há empresas ou atividades usufruindo do benefício. Essa política foi criada no contexto da pandemia da Covid-19, com prazo e limite fiscal. E sofreu algumas alterações desde sua criação. Os benefícios não dependiam só do prazo, seriam encerrados automaticamente ao atingir o teto de R$ 15 bilhões e foi atingido. Não é política estrutural permanente.

Em relação ao crédito via BNDES, de fato existe. Crédito público para o setor turístico, pode incluir via Fungetur, vinculado ao Ministério do Turismo.

No geral, estas medidas são medidas cíclicas, não estruturais. Elas aliviam fluxo de caixa, evitam quebras no curto prazo e sustentam empresas mais alavancadas, por exemplo. Elas, normalmente, não aumentam demanda estrutural e não resolvem a renda do consumidor.

Em relação a questão fiscal, a renúncia de receita pode pressionar as contas públicas. O impacto depende da escala.

Em relação a inflação, no geral, essas medidas são desinflacionárias no curto prazo. O risco inflacionário ocorre se houver estímulo excessivo à demanda e piora fiscal relevante. Caso contrário, o risco inflacionário direto é limitado.

Na análise de investimentos, a diferença entre medida paliativa e estrutural é a diferença entre aliviar o caixa e melhorar o modelo de negócio. O crédito via BNDES funciona como oxigênio de curto prazo. Importante, mas não resolve o custo estrutural do setor.

4. O cenário apontou para recuperação ou agravamento nos próximos meses?

O cenário mais provável é a recuperação ou estabilização gradual. Um termômetro que uso como analista de investimentos é o comportamento das empresas relacionadas ao setor na bolsa. Quando há crise estrutural, o mercado de capitais costuma precificar antes de dados de desemprego, por exemplo. Por enquanto, os sinais não indicam deterioração sistêmica. Se pegarmos um representante do segmento de aluguel de carros (MOVI3), por exemplo, para o período de 1 ano, pode-se dizer que está gerando valor. E entregando boa relação risco-retorno, dado alfa positivo e índice de Sharpe acima de 1,0 na análise estatística. Em linguagem prática: o segmento analisado está gerando retorno acima do risco assumido, o que não é o perfil de um setor em crise e sim de recuperação. Isso se traduz em setor para monitorar, não para ignorar ou para apostar com urgência.

Ademais, com o dólar em queda a mais de 1 ano, a tendência não é de reversão, mas de continuidade da queda no longo prazo.

Por tudo isso, minha leitura é de recuperação ou estabilização gradual e não crise instalada. O turismo doméstico costuma ser resiliente e empresas já operam mais ajustadas pós-pandemia da covid-19.

5. O dólar mais baixo pode compensar essa crise?

Sim, mas com efeitos mistos. O combustível de aviação é dolarizado, então a baixa do dólar pode representar maior margem ou preços menores. Em contrapartida, a alta do combustível pode representar menor margem ou preços maiores. Então, esta conta pode equilibrar.

O efeito negativo seria menos turismo doméstico, uma vez que com o dólar desvalorizando as viagens ao exterior ficam mais acessíveis e parte da demanda sai do turismo interno. No caso de empresas aéreas o impacto pode ser positivo. Já a hotelaria pode perder demanda. Porque o turismo internacional é favorecido. Para quem olha o setor pela perspectiva de investimentos: o dólar mais baixo tende a beneficiar as companhias aéreas com dívida dolarizada, mas pode pressionar o fluxo de turistas domésticos para fora do país. São dinâmicas opostas dentro do mesmo setor.

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