Portal de Notícias Administrável desenvolvido por Hotfix

Tecidos humanos em 3D

UFRJ inaugura primeiro hub de bioimpressão 3D do país em parceria com a Merck

Laboratório multiusuário na incubadora da Coppe vai produzir modelos de tecidos humanos para avaliar medicamentos e reduzir testes em animais


Foto: Divulgação/Leandro Joras

O Rio de Janeiro ganhou um laboratório capaz de imprimir tecidos humanos em 3D para pesquisar doenças, avaliar medicamentos e reduzir testes em animais. Apresentado como o primeiro hub de bioimpressão 3D do país, o Biotech Hub foi inaugurado em 18 de junho na Coppe/UFRJ, o Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, em parceria com a Merck Life Science. O espaço funciona no novo prédio de Biotecnologia da incubadora de startups da Coppe, na Cidade Universitária.

O diferencial do espaço não está apenas em bioimprimir, mas no formato de hub. A estrutura foi pensada para aproximar, em um mesmo ambiente de inovação aberta, a indústria farmacêutica, a universidade e as startups de base tecnológica. A proposta é encurtar o caminho entre a pesquisa acadêmica e sua chegada ao mercado.

A bioimpressão 3D funciona de forma parecida com uma impressora 3D comum. No lugar do plástico, a máquina usa biotintas para criar estruturas com características semelhantes às de tecidos biológicos. De acordo com a Coppe e a Merck, a tecnologia será aplicada em estudos sobre doenças, em testes de medicamentos e no desenvolvimento de organoides personalizados, com aplicações na pesquisa biomédica, na saúde humana e animal e na indústria de alimentos.

Um dos focos do hub são as chamadas novas abordagens metodológicas, conhecidas pela sigla em inglês NAMs, que buscam substituir ou reduzir o uso de animais em pesquisas. Modelos de tecidos humanos produzidos em laboratório permitem avaliar medicamentos com respostas consideradas mais próximas às do corpo humano.

“O avanço da inovação biomédica depende não apenas do desenvolvimento de novas terapias, mas também da criação de ferramentas mais sofisticadas para tornar os processos de pesquisa mais rápidos e precisos”, afirmou Leandra Baptista, professora da UFRJ. Segundo ela, a bioimpressão aproxima a ciência de modelos cada vez mais fiéis à biologia humana.

Pesquisadores do Inmetro também participam dessa frente. O instituto atua na padronização da contagem de células, etapa considerada decisiva para dar confiabilidade aos resultados. De acordo com os pesquisadores, a área ainda tem poucos materiais de referência certificados, o que dificulta a rastreabilidade das medições. Um exemplo concreto seriam as terapias para regenerar ossos com fraturas que não cicatrizam, cujo tratamento só funciona com pelo menos 1 milhão de células. Um erro de 10% na contagem, 900 mil em vez de 1 milhão, pode fazer todo o tratamento falhar.

Startups cariocas no centro do projeto

A inauguração reuniu startups incubadas na UFRJ e em outras instituições, que apresentaram seus produtos em um marketplace.

A GCell, deeptech ligada ao grupo da professora Leandra Baptista, fabrica tecidos humanos vivos em laboratório a partir de células certificadas. Combinando esferoides, organoides e bioimpressão 3D, cria modelos que têm uso duplo: substituem animais em testes de medicamentos e servem de base para terapias contra lesões e doenças degenerativas. Já são quatro: pulmão, para infecções; fígado, para hepatotoxicidade; gordura, para ganho e perda de peso; e osso, para reparo e inflamação. A empresa atende setores como o farmacêutico, o de cosméticos, o de suplementos e o de dispositivos médicos. De acordo com a empresa, os esferoides podem ficar prontos em até 18 horas.

Também incubada na Coppe, a NeoBio Nexus leva a lógica da medicina de precisão ao diagnóstico de câncer. A startup desenvolve o GliomaChip, um biochip microfluídico bioimpresso em 3D que modela o glioblastoma, tipo agressivo de tumor cerebral, para simular o tumor do próprio paciente e testar tratamentos antes de aplicá-los. A empresa é liderada pela biomédica Ísis Perez e pelo físico médico Lucas Ramos. A redução de custo é o diferencial: segundo a NeoBio Nexus, um equipamento de órgão em chip importado custa mais de R$ 50 mil, enquanto o seu, fabricado pela startup-irmã IK3D Genesis, sai por cerca de R$ 4 mil. A meta é levar a ferramenta aos hospitais públicos.

A Fly2Human transforma moscas-das-frutas em avatares de pacientes. A startup insere genes da pessoa nos insetos para reproduzir doenças como a esclerose lateral amiotrófica (ELA) e testar rapidamente combinações de medicamentos em um organismo vivo, em busca da resposta mais eficaz para cada caso.

O marketplace também reuniu a Flowprint Innovations, que fabrica no Brasil equipamentos de laboratório normalmente importados, como bombas de seringa e sensores de fluxo, qualidade do ar e temperatura ligados a um painel de dados em tempo real. Outra presença foi a foodtech Bean Possible, que usa tecnologia nacional para extrair do feijão três ingredientes, proteína, fibra e amido, aplicáveis em substitutos de carne, análogos de laticínios, panificação e suplementos.

Entre os expositores estava ainda a TissueLabs, fabricante de bioimpressoras que já vende para mais de 30 países. A empresa tem entre os clientes a L’Oréal, que usa a tecnologia para produzir pele sintética e reduzir testes de cosméticos em animais.

A aposta da Merck

O Biotech Hub estará aberto a startups, spin-offs, indústrias e grupos de pesquisa, com bioimpressora 3D, equipamentos de análise celular, biotintas e reagentes para cultivo celular em 3D. A iniciativa integra a estratégia global da Merck, que recentemente comprou a holandesa HUB Organoids, referência em tecnologia de organoides, e prevê cursos e mentorias técnicas a projetos selecionados.

“Nosso objetivo é criar um ambiente colaborativo capaz de impulsionar novas soluções científicas e ampliar o acesso a tecnologias de ponta no ecossistema de inovação”, disse Misael Silva, gerente de ecossistema de inovação da Merck Life Science para a América Latina.

Conexão com o México

O evento teve ainda a palestra magna dos pesquisadores Mario Moisés Álvarez e Grissel Trujillo-de Santiago, ambos professores do Tecnológico de Monterrey, no México, sobre o impacto da biotecnologia para a sociedade e a cooperação científica entre os dois países. A dupla coordena um laboratório dedicado à engenharia de tecidos e bioimpressão.

O ecossistema da UFRJ

O hub se soma ao ecossistema de inovação da UFRJ. Além da incubadora que abriga as startups, a universidade mantém programas de estímulo ao empreendedorismo, como o InovAÇÃO, competição universitária que reúne estudantes de instituições do Rio de Janeiro, e o InovaSeed, voltado a projetos mais maduros e de maior complexidade tecnológica em busca de financiamento.

Assine o Portal!

Receba as principais notícias em primeira mão assim que elas forem postadas!

Assinar Grátis!

Assine o Portal!

Receba as principais notícias em primeira mão assim que elas forem postadas!

Assinar Grátis!