Pesquisa aponta que 86% dos mortos por intervenção policial no país são pessoas negras. A maioria são homens jovens de até 29 anos que vivem em periferias e favelas. O relatório divulgado pela Rede de Observatórios da Segurança reúne dados das secretarias estaduais de segurança pública de nove estados brasileiros.
As informações revelam que a polícia matou 4.430 pessoas no ano passado - 312 delas eram crianças e adolescentes de até 17 anos. A sétima edição do relatório “Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã” aponta um aumento de 6,4% da letalidade em nove estados monitorados: Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo.
Ouça no Podcast do Eu, Rio! a reportagem da Rádio Nacional sobre a correlação entre violência policial e racismo no Brasil, estudada pela Rede de Observatórios de Segurança.
No Amazonas, 96% das vítimas da polícia eram pessoas negras. Na Bahia, em apenas 19 dias de 2025 não houve registros de mortes por agentes públicos de segurança. No total, foram 1.570 mortes - cerca de 1.200 eram pessoas negras. No Pará, o ano em que Belém sediou a COP30 foi também quando o estado alcançou o maior número da série histórica de letalidade policial, com 632 mortes. Além do Pará, Ceará, Maranhão e São Paulo também registraram o maior número de mortes desde 2019, quando o levantamento começou a ser realizado.
O coordenador da pesquisa da Rede Observatórios da Segurança, Jonas Pacheco, explica que, além de o racismo seguir presente nas políticas de policiamento, existe um discurso da eficiência da segurança por meio do uso de tecnologias para o emprego de ações violentas, como o “prisômetro”, mecanismo que contabiliza prisões e capturas em tempo real em São Paulo.
"Como que a gente vai enquadrar dentro desse cenário de produtividade policial essas mais de 800 mortes provocadas em São Paulo. O discurso que se tem é que você tendo uma ação mais violenta, um enfrentamento mais envasado, você consegue reduzir o crime. E o que os números mostram é que não é bem por aí. A gente sabe que não existe uma correlação estatística ou ou técnica entre a polícia matar mais e o crime diminuir"
Em Pernambuco, a letalidade policial aumentou 30% e pessoas negras têm onze vezes mais chances de serem mortas pela polícia. No Rio de Janeiro, uma única operação policial nos complexos do Alemão e da Penha deixou 121 mortos em outubro do ano passado, a maior chacina registrada na capital carioca. No total, o estado do Rio de Janeiro registrou 800 mortes no ano, e em São Paulo, foram 834.
O único estado monitorado com redução nos índices foi o Piauí, onde foi criada a Superintendência de Promoção da Igualdade Racial e adotados protocolos antirracistas na Polícia Militar do estado. Esses fatores contribuíram para a queda dos índices no ano passado, segundo o relatório. Jonas Pacheco ressalta que o exemplo do Piauí ainda é um caso isolado.
"As nossas polícias militares, polícias civis são estaduais, o governo estadual acaba tendo maior incidência sobre a segurança. Uma coisa que falta um pouco, justamente por ter esse caráter estadualizado da segurança, essa troca de boas práticas entre as polícias, entre os secretários de segurança. E uma possibilidade que isso pode abrir agora é que com a aprovação do SUSP, você tenha algumas medidas mais integradas com base no governo federal que todos os estados venham a cumprir. Então, talvez essas experiências possam ser mais compartilhadas".
De acordo com o relatório, os dados fornecidos por secretarias de segurança pública de estados como Maranhão e Ceará ocultam o perfil racial de mais da metade das vítimas. A falta de informações detalhadas mantém invisibilizado o recorte racial da letalidade das polícias. Ainda assim, o cálculo da taxa de mortes por cem mil habitantes, calculada de forma separada para a população negra e branca, aponta que pessoas negras correm quatro vezes mais risco de serem mortas pela polícia do que as pessoas brancas.
RadioAgência Nacional