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Klaus Leite Pinto Vasconcellos aprendeu a ler muito cedo. Na infância e na adolescência, passava boa parte do tempo entre livros, estudos e assuntos que não conseguia compartilhar com outras pessoas da mesma idade. Não se recorda de ter sido rejeitado pelos colegas. Pelo contrário, diz que era bem recebido na escola. Ainda assim, sentia-se mais sozinho do que as outras crianças.
“Eu acho que eu mesmo provoquei essa solidão. Com uma capacidade intelectual grande, passei a estudar e ler com uma frequência muito maior do que a normal, e isso fez com que eu mesmo me afastasse”, conta.
A dedicação intensa à literatura e aos estudos reduziu seu contato com outras experiências. “Eu me concentrei demais em literatura e estudo e não tinha ninguém com quem discutir. Isso me impediu de procurar mais o resto do mundo, de ter mais amigos e também tornou mais difícil o contato com o mundo real que estava à minha frente.”
Hoje, Klaus é professor titular do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), doutor em Estatística pela Universidade de Warwick, na Inglaterra, e autor do livro Fundamentos para a Estatística de Convergência de Variáveis Aleatórias, publicado em 2021 pela Sociedade Brasileira de Matemática.
A trajetória acadêmica, no entanto, não foi uma escolha simples.
Desde criança, Klaus queria estudar Matemática. A família, preocupada com as possibilidades profissionais e financeiras, tentou direcioná-lo para outra carreira. Por orientação da mãe, graduou-se em Engenharia Elétrica. Mais tarde, seguiu para a pós-graduação em Estatística Matemática e tornou-se professor universitário.
“Minha vocação era ser matemático. Minha mãe me proibiu de fazer Matemática porque eu acabaria ganhando salário de professor de universidade. Formei-me engenheiro elétrico, mas depois fui fazer pós-graduação em Estatística atemática e hoje sou professor da UFPE. De certa forma, as coisas acabaram acontecendo como tinham que acontecer” , afirma.
Dentro da comunidade estatística, Klaus passou a ser reconhecido justamente pela forte formação matemática. Ele também se destaca pela facilidade para mergulhar em assuntos novos e complexos.
“Se me disserem que preciso estudar Geometria Algébrica para ensinar a disciplina em 2028, minha resposta será: claro, me dê as referências. No final de 2027, vocês terão um professor de Geometria Algébrica” , conta.
Essa facilidade, porém, convive com dificuldades em outras áreas. Klaus conta que sempre teve pouca coordenação para esportes e atividades físicas, uma diferença que marcou sua infância e permaneceu na vida adulta: “Eu sempre fui muito bom intelectualmente, mas tive que pagar o preço de ser desajeitado e sem coordenação. Essa dicotomia sempre foi um dos maiores desafios da minha vida”.

Cobrança para ser sempre excelente
Outro desafio foi conviver com a expectativa de que uma pessoa identificada como superdotada deve apresentar desempenho excepcional o tempo todo. Klaus se recorda de um episódio da adolescência em que acompanharia o pai, que era neurologista, a um hospital. Para passar o tempo, pretendia levar uma revista em quadrinhos, mas ouviu do pai que deveria escolher outra leitura porque os colegas sabiam que ele era superdotado.
No lugar dos quadrinhos, levou Apresentação da Poesia Brasileira, de Manuel Bandeira. “É muito comum ter que enfrentar uma supercobrança. Só esperam de você o máximo, e isso é um grande desafio”, diz o professor.
Fabrícia Signorelli, psiquiatra especialista em TDAH, TEA e altas habilidades, explica que o alto potencial intelectual não garante sucesso acadêmico, profissional ou emocional. “A gente tem um estereótipo muito errado de que ter altas habilidades ou superdotação é igual a ter sucesso ao longo da vida. A falta de desafios, a dificuldade de identificação e a pressão social podem levar ao insucesso”, afirma a médica.
Segundo Fabrícia, características como perfeccionismo, desenvolvimento assíncrono e intensidade emocional podem se tornar fatores de risco para dificuldades socioemocionais quando não há apoio adequado. “O cérebro superdotado precisa ser nutrido. Ele precisa de uma interação dinâmica entre as questões internas do indivíduo e o ambiente para que seja possível desenvolver essas habilidades e realizações ao longo da vida” , explica.
Milhões podem permanecer sem identificação
A história de Klaus ajuda a dar rosto a uma realidade que ainda permanece pouco conhecida no país. Celebrado em 10 de agosto, o Dia Internacional da Superdotação chama a atenção para o baixo número de estudantes identificados no Brasil. O Censo Escolar 2025, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), contabilizou cerca de 56 mil crianças e adolescentes com altas habilidades ou superdotação na educação básica. Em 2024, eram pouco mais de 44 mil.
O crescimento foi de aproximadamente 27% em um ano, mas os registros continuam muito abaixo das estimativas. Uma publicação acadêmica da Universidade Federal de Santa Maria reproduz a estimativa, atribuída à Organização Mundial da Saúde, de que 3% a 5% da população apresente altas habilidades ou superdotação. Aplicada às aproximadamente 46 milhões de matrículas da educação básica, essa proporção representa entre 1,38 milhão e 2,3 milhões de estudantes. Isso significa que o Brasil identifica somente 1 em cada 25 a 41 alunos que podem apresentar esse perfil. A diferença entre os registros oficiais e as estimativas varia de 1,3 milhão a mais de 2,2 milhões de estudantes.

Superdotação não é doença
Fabrícia alerta que as altas habilidades ou superdotação não constituem um diagnóstico médico. “Ter altas habilidades ou superdotação não é um diagnóstico médico. Não existe um CID. Altas habilidades e superdotação são diferentes dos transtornos descritos no DSM”, esclarece. O desconhecimento pode levar profissionais e familiares a interpretar características desse perfil como sintomas de transtornos psiquiátricos.
“Muitas vezes, a não identificação da superdotação e a interpretação dessas características como sintomas de um transtorno psiquiátrico levam a diagnósticos errados ou identificações perdidas”, afirma a psiquiatra. Para Fabrícia, existe ainda o risco de medicalizar características que não representam uma doença. “Mais grave do que o diagnóstico errado é a medicalização de uma condição que não é médica. Se uma característica da pessoa superdotada é entendida como sintoma, pode surgir a tentativa de medicar esse comportamento”, explica.
Altas habilidades podem coexistir com outras condições
Uma pessoa com altas habilidades também pode apresentar TDAH, transtorno do espectro autista, dislexia, deficiência ou outra condição. Essa coexistência recebe o nome de dupla excepcionalidade. Nesses casos, o elevado potencial cognitivo pode compensar algumas dificuldades e tornar menos evidentes os sinais de outros transtornos, principalmente na escola.
“O QI elevado pode mascarar a apresentação clínica de alguns transtornos psiquiátricos. Uma criança com QI de superdotação muitas vezes não apresenta prejuízo no desempenho pedagógico porque essa capacidade consegue compensar os sintomas do TDAH” , explica Fabrícia. Segundo a médica, reconhecer os dois aspectos é fundamental para oferecer um acompanhamento adequado.
“É preciso identificar tanto a condição de altas habilidades quanto o transtorno associado para que seja possível individualizar as intervenções.”
Nova lei prevê identificação precoce e atendimento especializado
Em junho de 2026, foi sancionada a Lei Federal nº 15.436, que instituiu a Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação. A legislação prevê identificação precoce, atendimento educacional especializado, progressão escolar flexível, formação de profissionais da educação e criação de um cadastro nacional.
A lei também reconhece a dupla excepcionalidade e determina que o atendimento considere, de maneira integrada, tanto as altas habilidades quanto as necessidades relacionadas à outra condição ou deficiência.
Para Fabrícia, o cuidado deve envolver escola, família e profissionais de diferentes áreas. “Tanto os diagnósticos errados quanto as identificações perdidas trazem consequências significativas para crianças, adolescentes e adultos. As pessoas com altas habilidades ou superdotação devem ser apoiadas por profissionais da educação, da saúde e por suas famílias para que desenvolvam seus talentos ao longo da vida.”