Sem um cronograma de convocação e ainda à espera de uma definição do Governo do Estado, 1.177 aprovados no concurso para investigador da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro (PCERJ) realizarão, nesta quarta-feira (2), um novo ato para cobrar o ingresso no curso de formação da Academia Estadual de Polícia Sylvio Terra (Acadepol). A manifestação está marcada para as 12h, em frente ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), no Centro, e conta com o apoio de Policiais Civis da ativa.?
Os candidatos já passaram por etapas como prova objetiva, teste de aptidão física, exame psicotécnico e exame de saúde. O grupo aguarda a convocação para o curso de formação, que integra a segunda fase do concurso.
A mobilização dá continuidade às cobranças feitas ao Governo do Estado. Em abril, os aprovados realizaram uma manifestação em frente à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Agora, pretendem obter uma definição sobre o aproveitamento dos candidatos e retomar o diálogo com o governador em exercício, Ricardo Couto.
De acordo com Valmir Olímpio, representante da Comissão dos Aprovados, os concursos para investigador e inspetor foram realizados no mesmo período, com provas aplicadas em 2022 e etapas semelhantes. Porém, os dois grupos tiveram desfechos diferentes nas convocações para o curso de formação. Cerca de dois mil candidatos a inspetor teriam sido convocados, 700 investigadores ingressaram na Acadepol e outros 1.177 continuam aguardando.
A comissão também aponta um déficit superior a 50% no quadro da Polícia Civil e sustenta que a maior parte das vacâncias está concentrada na atual carreira de oficial de Polícia Civil. Os números são utilizados pelo grupo como um dos argumentos para defender o aproveitamento dos excedentes.
Em outubro de 2025, a Lei Complementar Estadual nº 224, juntamente com a Lei 11.003/2025, ratificou a unificação dos cargos de inspetor de polícia, investigador policial e oficial de cartório policial, que passaram a integrar a carreira de oficial de Polícia Civil.
A legislação prevê ainda a possibilidade de convocação de candidatos excedentes durante a validade de concurso homologado quando houver cargos vagos na respectiva classe, respeitada a ordem de classificação.
Encontros com o governo
Segundo Valmir, representantes dos aprovados já estiveram em três ocasiões com o governador em exercício, Ricardo Couto.
No primeiro encontro, em 10 de junho, a comissão apresentou a situação dos candidatos e, de acordo com o representante, foi orientada pelo governador a protocolar um requerimento na Casa Civil para a abertura de um processo no Sistema Eletrônico de Informações (SEI), com o objetivo de analisar a possibilidade de aproveitamento dos aprovados.
O segundo encontro foi em 25 de junho. Valmir afirma que, na ocasião, Couto informou que analisaria a situação e pediu que o grupo retornasse em duas semanas, o que ocorreu 50 dias depois. A comissão diz, no entanto, que quer uma nova reunião.
Ainda de acordo com o representante, o processo administrativo passou por diferentes setores do governo e atualmente está na Secretaria de Estado de Polícia Civil. Até o momento, segundo a comissão, não foi apresentado um cronograma para a convocação dos 1.177 candidatos.
Para Valmir, a ausência de uma definição é uma decisão política. A comissão argumenta que, diante da existência de cargos vagos e da validade do concurso, o Estado poderia aproveitar os candidatos que já concluíram a primeira fase do certame.
Segundo ele, durante a manifestação realizada em abril, em frente à Alerj, o grupo chegou a conversar com o presidente da Casa, Douglas Ruas. "Na ocasião, não houve uma resposta concreta, apenas um 'vamos ver' e uma promessa, não cumprida, de falar novamente como governador", contou Valmir.
Espera interfere em planos
Além da mobilização coletiva, os anos de espera também têm provocado impactos na vida profissional e pessoal dos candidatos.
Guilherme Oliveira, de 26 anos, conta que se preparou durante um ano para o concurso e acreditava que seria chamado na sequência das turmas anteriores. Para ele, ingressar na Polícia Civil representava a realização de um projeto profissional antigo.
“A Polícia Civil do Rio sempre foi um sonho para mim. Então, isso representa um sonho que pode se realizar”, afirma.
Segundo Guilherme, a indefinição fez com que decisões importantes fossem adiadas. Ele relata que deixou de assumir uma oportunidade profissional por acreditar na possibilidade de convocação e afirma que outros candidatos enfrentaram situações semelhantes.
“Essa longa espera fez com que alguns planos tenham ficado de lado, como fazer uma faculdade e estudar para novos concursos, pois a todo tempo a administração pública nos dava esperança de convocação. Alguns colegas até largaram o trabalho por causa dessa promessa de convocação”, relata.
Carina Estevam, de 34 anos, também reorganizou os planos após ser aprovada. Ela conta que começou a estudar para concursos aos 18 anos e viu no resultado a possibilidade concreta de iniciar uma nova trajetória profissional.
“Quando eu soube da aprovação, foi uma mistura de felicidade, alívio e esperança. Eu sabia que ainda existiam etapas pela frente, mas acreditava que, depois de toda a preparação e com a necessidade de efetivo que a Polícia Civil enfrenta, a convocação aconteceria dentro de um prazo razoável”, diz.
Mãe de um filho, Carina afirma que a falta de uma previsão oficial interfere em decisões profissionais, financeiras e pessoais.
“Com o passar do tempo, você fica em uma espécie de limbo: não consegue simplesmente tratar aquilo como algo que não existe, porque você foi aprovado e existe uma expectativa de convocação, mas também não consegue planejar sua vida completamente em função de algo que não tem data”, afirma.
Para ela, mais difícil do que o tempo de espera é a ausência de informações concretas sobre o futuro dos candidatos.
“A espera, por si só, já é difícil, mas quando existe uma previsão, um cronograma ou uma comunicação oficial, você consegue se organizar emocional e financeiramente. O que mais desgasta é não saber!”, reclama.
Carina resume a situação vivida desde a aprovação: “É doloroso demais realizar um sonho pela metade. Você conquistou a aprovação, mas agora vai ter que esperar para poder vivê-lo", diz.
Governo confirma validade do concurso até 2027
Procurado pela reportagem, o Governo do Estado foi questionado sobre a possibilidade de convocação dos 1.177 candidatos, a existência de eventuais impedimentos orçamentários, fiscais, administrativos ou jurídicos, a possibilidade de apresentação de um cronograma e se haverá algum representante do governo para receber os manifestantes no ato de 2 de setembro.
Em resposta, por meio do núcleo de imprensa do Governo do Estado, a Polícia Civil informou que cerca de três mil novos policiais foram convocados e incorporados aos quadros da corporação nos últimos anos.
“Entre 2023 e 2024, mais de 1.600 agentes também foram formados, ampliando a presença da corporação em todo o estado”, divulgou a nota.
O governo confirmou ainda que o concurso realizado em 2021/22 permanece válido até 2027 e que existem candidatos excedentes aptos à convocação.
O comunicado, no entanto, não disse se existe previsão ou cronograma para a convocação dos 1.177 candidatos, nem esclareceu se há algum impedimento orçamentário, fiscal, administrativo ou jurídico para o chamamento. Também não respondeu se o governador em exercício ou algum representante do governo pretende receber os manifestantes no dia do ato.
Deputado defende convocação
Presidente da Comissão de Servidores Públicos da Alerj, o deputado estadual Flávio Serafini afirmou que não foi procurado pela atual comissão dos aprovados, mas disse acompanhar a situação do concurso e já ter cobrado a convocação.