Recentemente, o cantor e compositor britânico Robbie Williams revelou publicamente que recebeu o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Ele afirmou que a descoberta, aos 52 anos, trouxe alívio e ajudou a explicar comportamentos que antes não compreendia.
A exemplo do astro da música pop, a busca pelo diagnóstico de TEA na vida adulta tem se tornado cada vez mais frequente, acompanhando os avanços na compreensão dos transtornos do neurodesenvolvimento e na conscientização sobre as suas diferentes manifestações. Em muitos casos, esse movimento começa a partir do diagnóstico de um filho: ao conhecer mais sobre o autismo, pais passam a reconhecer em si mesmos comportamentos, dificuldades e padrões que, durante anos, foram interpretados apenas como características da personalidade.
Com a evolução das avaliações neuropsicológicas, a capacidade de identificar sinais do TEA ao longo das diferentes fases da vida também avançou. Dificuldades de interação social, necessidade de rotinas, alterações na comunicação, interesses restritos e desafios na adaptação a determinadas situações podem ter sido vivenciados durante anos sem uma explicação clara. Para alguns adultos, compreender que essas características estão relacionadas ao autismo ajuda a reorganizar a própria história e a dar novos significados a experiências na escola, no trabalho e nos relacionamentos.
“Receber um diagnóstico tardio pode representar uma importante oportunidade de autoconhecimento. A confirmação do TEA não apaga as dificuldades vividas no passado, mas pode contribuir para que a pessoa compreenda melhor seus limites, necessidades, formas de comunicação e maneiras de lidar com diferentes demandas. Esse processo pode reduzir a sensação de inadequação e favorecer uma relação mais consciente consigo mesmo, substituindo julgamentos por estratégias mais adequadas às características individuais”, explica o médico psiquiatra Alexandre Valverde.
A fala do especialista é baseada na experiência particular. Valverde foi diagnosticado com Autismo e Altas Habilidades/Superdotação aos 42 anos. Com 17 anos, ingressou na Escola Paulista de Medicina - Universidade Federal de São Paulo. Desde pequeno, já notava sua facilidade em identificar os comportamentos humanos. O sexto médico psiquiatra da família dedica-se atualmente a auxiliar seus pacientes no processo de autoconhecimento a partir da Psiquiatria, psicoterapia e expressões artísticas como dança, teatro, fotografia, pintura e jardinagem.
Uma nova vida
O diagnóstico não deve ser visto apenas como uma explicação para o passado, mas como uma possibilidade de construir novas formas de conduzir a vida no presente. Hoje, adultos autistas podem contar com intervenções e estratégias individualizadas, desenvolvidas com o acompanhamento de psiquiatras, psicólogos, neuropsicólogos e outros especialistas, que podem auxiliar na organização da rotina, no manejo de dificuldades emocionais e sociais, na adaptação do ambiente e no desenvolvimento de recursos para lidar com situações desafiadoras.
“Além dos benefícios individuais, o diagnóstico pode repercutir positivamente na dinâmica familiar. Quando pais identificam características semelhantes às de um filho diagnosticado com TEA ou TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade), por exemplo, o processo de avaliação pode ampliar a compreensão sobre as necessidades de cada integrante da família. Esse olhar mais atento favorece relações mais ajustadas, comunicação mais clara e estratégias que consideram as particularidades de adultos e crianças”, pontua Alexandre.
Mais do que estabelecer um diagnóstico, reconhecer uma condição como o TEA pode representar um importante instrumento de compreensão, autoconhecimento e cuidado. Mesmo quando essa descoberta acontece após muitos anos de dúvidas e desafios, ela pode abrir caminho para intervenções mais direcionadas, estratégias de manejo e escolhas que respeitem as características, necessidades e potencialidades de cada pessoa.
“Receber um diagnóstico de TEA na vida adulta não representa ter chegado tarde, mas, sim, a oportunidade de contar com novas informações e recursos para compreender a própria trajetória, ampliar a qualidade de vida e construir formas mais conscientes e adequadas de lidar com os desafios do cotidiano”, acrescenta Valverde.