A fibromialgia ganhou espaço no horário nobre. Em Quem Ama Cuida, novela das 9 da TV Globo, Elisa, personagem interpretada por Isabela Garcia, recebe o diagnóstico da doença depois de enfrentar sintomas que afetam sua rotina e qualidade de vida. Fora da ficção, histórias semelhantes vêm sendo relatadas por mulheres que passaram meses ou até anos tentando entender a origem de dores persistentes, cansaço e outros sintomas.
O assunto ganhou ainda mais repercussão com relatos recentes de celebridades. A atriz Carol Castro contou publicamente que conviveu durante anos com dores e cansaço e que chegou a normalizar os sintomas antes de descobrir a fibromialgia. Já Franciely Freduzeski revelou ter levado cerca de quatro anos e passado por dezenas de médicos até chegar ao diagnóstico.
Outros nomes conhecidos, como Dani Valente e Cristiana Oliveira, também já falaram sobre a convivência com a doença. Internacionalmente, Lady Gaga tornou pública sua experiência com a fibromialgia e os impactos das crises em sua vida profissional.
A exposição do tema na televisão e nos relatos de pessoas conhecidas ajuda a chamar atenção para uma questão frequente nos consultórios: quando uma dor deixa de ser consequência do cansaço, da rotina ou do estresse e merece uma investigação mais cuidadosa?
Segundo a médica Márcia Umbelino, um dos desafios é justamente não normalizar sintomas persistentes.
“Existe uma diferença entre chegar ao fim de um dia cansativo sentindo o corpo pesado e conviver repetidamente com dor difusa, fadiga intensa e a sensação de acordar sem ter descansado. Quando esses sintomas persistem e começam a interferir no trabalho, no sono, na atividade física ou na vida social, eles precisam ser investigados”, explica.
Dor existe mesmo quando os exames não mostram alterações
A fibromialgia é uma condição crônica caracterizada principalmente por dor generalizada, frequentemente associada a fadiga, alterações do sono e outros sintomas. Diferentemente de várias doenças inflamatórias ou lesões musculoesqueléticas, porém, não existe um exame de sangue ou de imagem específico capaz de confirmar sozinho o diagnóstico.
Isso significa que uma pessoa pode realizar exames que não apresentam alterações significativas e, ainda assim, estar sofrendo com um quadro real de dor crônica.
Para Márcia, esse é um dos pontos que mais precisam ser esclarecidos quando a fibromialgia ganha espaço na ficção ou no debate público.
“Exame normal não significa paciente sem doença e muito menos paciente sem dor. Na fibromialgia, a avaliação é essencialmente clínica. Os exames podem ser importantes para investigar outras causas e condições associadas, mas não podemos transformar a ausência de uma alteração laboratorial em argumento para desqualificar aquilo que a pessoa está sentindo”, afirma.
Essa característica também ajuda a explicar por que alguns pacientes passam por diferentes consultas e especialidades antes de compreender o conjunto dos sintomas.
Dor muscular pode inicialmente ser atribuída à postura ou ao excesso de atividade; fadiga pode ser interpretada como consequência da rotina; dificuldade de concentração pode ser associada ao estresse; e noites mal dormidas podem ser tratadas de forma isolada.
É justamente a combinação e a persistência dessas queixas que devem chamar atenção.
Fibromialgia vai muito além da dor
Embora a dor generalizada seja o sintoma mais conhecido, a fibromialgia não se resume a ela. Fadiga, dificuldade para dormir ou sono não reparador, problemas de concentração e memória e alterações emocionais podem fazer parte do quadro.
“Muitas vezes a pessoa diz: ‘Eu durmo, mas acordo como se não tivesse dormido’. Esse é um relato que merece atenção. Quando o sono não restaura, a fadiga aumenta, a tolerância à dor pode piorar e o paciente entra em um ciclo que compromete progressivamente sua qualidade de vida”, explica Márcia.
Por isso, a avaliação não deve olhar apenas para um sintoma isolado.
“O cuidado precisa enxergar o paciente por inteiro. Dor, sono, saúde emocional, nível de atividade física, rotina e outras condições de saúde se comunicam. Tratar apenas uma dessas peças nem sempre é suficiente”, acrescenta.
Movimento pode fazer parte do tratamento, mas começar devagar é fundamental
Para quem sente dor, a recomendação de praticar exercícios pode parecer contraditória. No entanto, a atividade física regular e progressiva é uma das estratégias utilizadas no manejo da fibromialgia.
O ponto fundamental, segundo Márcia, é evitar dois extremos: o sedentarismo completo e a tentativa de iniciar de uma vez uma rotina intensa de exercícios.
“Não é dizer para uma pessoa que está com dor simplesmente ‘vá fazer exercício’. É preciso respeitar o ponto de partida de cada paciente. Muitas vezes começamos com pouco, aumentamos gradualmente e buscamos uma atividade que seja possível manter. O objetivo não é desempenho esportivo. É recuperar função, autonomia e qualidade de vida”, explica.
Sono adequado, manejo do estresse, acompanhamento médico e, quando necessário, atuação de diferentes profissionais também podem integrar o cuidado. Não existe uma única intervenção que funcione igualmente para todos.
Promessas de cura rápida merecem desconfiança
A repercussão de doenças crônicas nas redes sociais também trouxe outro fenômeno: a multiplicação de vídeos e anúncios que prometem eliminar a fibromialgia por meio de suplementos, dietas, fórmulas, procedimentos ou protocolos isolados.
Para Márcia, é preciso cautela principalmente diante de promessas definitivas.
“Quando alguém oferece uma solução única e rápida para uma condição complexa, isso deve acender um sinal de alerta. A fibromialgia pode ser controlada e muitas pessoas conseguem melhorar significativamente os sintomas e a qualidade de vida, mas não existe uma fórmula universal. O tratamento precisa ser individualizado”, ressalta.
A busca por uma solução milagrosa pode ainda levar o paciente a gastar dinheiro com produtos sem benefício comprovado ou abandonar estratégias terapêuticas que estavam ajudando.
“O objetivo não é colocar a pessoa em uma peregrinação eterna atrás de uma cura milagrosa. É construir um cuidado possível, baseado em evidências e que permita que ela volte a fazer coisas importantes para a própria vida”, diz.
Acolher não significa tratar a pessoa como incapaz
A fibromialgia também pode afetar as relações familiares. Como a dor nem sempre é visível para quem está de fora, pacientes podem enfrentar desde descrença até o extremo oposto: familiares que, na tentativa de proteger, passam a tratar aquela pessoa como incapaz.
Nenhuma das duas atitudes ajuda.
“Acolher é acreditar no relato da pessoa, respeitar seus limites e oferecer ajuda quando ela precisa. Mas isso não significa retirar sua autonomia. O paciente continua sendo protagonista da própria vida e deve ser estimulado, dentro das suas possibilidades, a preservar movimento, vínculos, projetos e independência”, orienta Márcia.
Nesse sentido, a presença da fibromialgia em uma novela de grande audiência pode cumprir um papel que ultrapassa a própria trama: fazer com que pessoas que convivem há muito tempo com sintomas semelhantes percebam que aquela dor merece ser ouvida e investigada.
“Quando uma novela coloca um tema de saúde na sala das pessoas, ela abre uma oportunidade importante de informação. O cuidado que precisamos ter é transformar identificação em orientação adequada. A pessoa não deve se autodiagnosticar porque se reconheceu em uma personagem, mas pode usar essa identificação como motivo para procurar avaliação profissional”, conclui Márcia Umbelino.