Se a música é memória viva, o fim de 2025 parece decidido a lembrar isso no volume máximo. Um dos exemplos mais emblemáticos vem de Marcelo Falcão, que lança o segundo álbum solo e reafirma sua capacidade de atravessar gerações com firmeza. O Legado chega com 11 faixas e uma homenagem emocionante a Chorão. Não por acaso, o disco bateu 17 milhões de plays em uma semana, impulsionado por canções como Vitória, Refletir e Legado. Falcão não repete a própria história: ele a amplia com participações de L7NNON, Cynthia Luz, Orochi, Major RD, Toni Garrido e até registros inéditos do vocalista do Charlie Brown Jr. Em tempos de transição estética no país, o artista carioca volta com voz firme, tecnologia própria e produção dividida entre sua Expressão Musical, Dallass e Malibu Studios. É a rua conectada ao pop, ao rap, ao rock e à saudade.
O movimento da memória também aparece no lançamento do álbum Relicário Karnak (ao vivo no Sesc 1999), que resgata um show histórico pré-Estamos Adorando Tókio. André Abujamra abre o baú sem poeira e revela um Karnak preciso, teatral e delirante, com instrumentistas afiados e arranjos que ainda soam contemporâneos. A gravação reúne faixas que antecederam o disco clássico de 2000, além de registros que misturam música do mundo, humor, filosofia pop e melancolia. Karnak sempre foi carnaval sonoro, choque estético e liberdade. Ouvir agora é perceber que quase ninguém ousou tanto desde então.
Enquanto a memória paira no ar, o futuro corre no palco. A Lagum anuncia turnê de verão com datas entre janeiro e março, incluindo show no Rio em 31/01, no Morro da Urca. Depois, o grupo segue para uma etapa internacional passando por Berlim, Amsterdã, Paris, Londres e Lisboa. A banda mineira vive fase madura desde As Cores, as Curvas e as Dores do Mundo, disco que questiona a vida urbana com empatia e melodia. Nos palcos, a Lagum se transforma em catarses coletivas, timbres remodelados e guitarras que abraçam um público cada vez maior.
E, para quem busca programação gratuita fora do eixo óbvio, Búzios recebe o projeto Sopros & Cordas em 12 de dezembro, na Praça Santos Dumont. A noite abre com o grupo Nós do Choro e segue com o quinteto que visita Queen, Beatles, Ary Barroso, Tom Jobim e Jimmy Cliff com arranjos autorais. Para além do repertório, há beleza no gesto: inclusão, diversidade e música instrumental ocupando o espaço público. Feira caiçara, artesanato, comida local. O mar como amplificador.
Vários movimentos distintos, uma mesma impressão: a música brasileira segue viva, plural, contraditória e teimosa. Entre o passado que ressurge, o presente que pulsa e o futuro que se anuncia. Por fim, continua sendo sobre permanência, sobre quem constrói algo que fica. Sobre legados.