Todo mundo já viveu isso: aquele instante quase imperceptível em que a admiração por alguém começa a se desfazer. Não é cena de novela, não tem grito, nem porta batendo. É só um estalo interno, um fiapo de lucidez atravessando a porta que a gente manteve fechada por teimosia ou, vá lá, esperança.
O encanto nunca acaba de uma vez. Ele vai se despedindo aos poucos, como quem fecha a bolsa, pega o casaco e avisa: “não vou demorar”. Mas demora. E às vezes nem volta.
Às vezes começa com um gesto pequeno, um comentário atravessado, uma preguiça de se colocar no lugar do outro. Outras vezes, com um excesso de si. E você percebe — sem fanfarra — que aquela pessoa que você admirava tanto anda desalinhada com aquilo que você acredita, com aquilo que você já cresceu, com aquilo que hoje te faz bem.
E dói. Porque o encantamento é confortável. Ele enfeita os dias, fornece legendas prontas para as fotos e justificativas generosas para atitudes que não merecem tanta defesa. A gente protege quem admira. Até o dia em que para de fazer isso.
Quando o encanto acaba, sobra a pessoa real, nua de fantasias, livre das projeções que nós mesmos plantamos. E é estranho, quase injusto, perceber que boa parte da admiração estava mais em nós do que nela. Sempre fomos nós: nossas expectativas, nossa vontade de acreditar, nossa sede de encontrar no outro um atalho para a beleza da vida.
Mas não precisa haver ressentimento. Fim de encanto também é começo de sobriedade. Um reencontro com a própria lucidez, essa amiga leal que a gente às vezes coloca para esperar lá fora enquanto se embriaga de ilusões.
E então acontece o que deveria ter acontecido desde o início: você volta para si. Para seus critérios. Para o que te move. Para o que te honra. Você olha para o outro com respeito, mas sem pedestal. Com afeto, mas sem fantasia. Com proximidade, mas sem cegueira.
O encanto acaba, e tudo bem. Ninguém é obrigado a permanecer brilhando na mesma intensidade para sempre. A gente muda, o outro muda, e há beleza também nesses reajustes silenciosos.
No fim, o desencanto não é um fracasso: é um convite. Para sermos mais honestos, mais atentos, mais inteiros. E para escolhermos, com mais calma, quem realmente merece permanecer ao alcance do nosso olhar admirado.
Até o próximo texto!
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