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A república independente das pessoas emocionalmente confusas

Menina Aleatória, Por Anna Domingues, Escritora

Em 25/05/2026 às 11:54:50

Há um fenômeno moderno que merecia reconhecimento jurídico: a república independente das pessoas emocionalmente confusas. Não é um país exatamente. É mais um estado de espírito. Uma espécie de território autônomo onde ninguém sabe o que sente, mas todo mundo exige compreensão absoluta por isso.

Os habitantes dessa república são fáceis de identificar. Dizem coisas como “não quero te perder” no mesmo parágrafo em que desaparecem por três dias. Pedem presença, mas oferecem ausência premium. Fazem declarações profundas às duas da manhã e, às nove, agem como funcionários públicos da própria afetividade: atendimento encerrado, volte na próxima instabilidade emocional.

São pessoas que transformaram ambiguidade em linguagem oficial.

Antigamente, gente confusa recebia um conselho simples: “decida-se”. Hoje recebe validação estética e um fio no Twitter explicando que talvez ela apenas esteja “processando emoções complexas”. Mas eu acredito que haja uma importante diferença entre ser sensível e transformar indecisão em método de vida.

A república das pessoas emocionalmente confusas funciona em regime de contradição permanente. Querem conexão, mas temem intimidade. Morrem de saudade, mas não respondem mensagens. Sentem ciúmes de relações que não quiseram sustentar. Sofrem quando o outro vai embora, apesar de ter deixado a porta aberta com a delicadeza de quem expulsa alguém de casa jogando as malas pela janela.

E, claro, há sempre uma frase emblemática! Toda pessoa emocionalmente confusa possui uma frase emblemática: “Tenho medo de estragar tudo” é clássica! E o curioso é como quase nunca impedem o tal estrago.

O mais impressionante é que essa gente raramente se considera irresponsável. Pelo contrário. Considera-se profunda. Acredita que sentir muito é equivalente a amar bem. Não é. Sentir muito, às vezes, é só sentir muito. Amar exige outras competências menos cinematográficas: constância, clareza, presença, coragem de sustentar escolha depois que a euforia passa.

A verdade inconveniente é que a confusão emocional virou artigo de personalidade.

Existe até certo glamour em parecer inacessível. A frieza ganhou status de sofisticação. O desapego virou performance. Demonstrar afeto sem ironia hoje parece quase um ato revolucionário. As pessoas têm medo de parecer intensas, carentes, emocionadas. Então preferem parecer indiferentes mesmo quando estão implodindo por dentro.

O resultado disso? Ninguém conversa, ninguém decide, ninguém vai embora de verdade. As relações modernas parecem reuniões corporativas eternamente adiadas. Muito alinhamento, pouca conclusão.

No fim, relações não acabam apenas por falta de amor. Muitas acabam por excesso de hesitação porque amar alguém enquanto se mantém eternamente na porta de saída não é profundidade emocional. É apenas uma maneira sofisticada de nunca chegar inteiro a lugar nenhum.

Até o próximo texto!

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