Existe uma pergunta que sempre me deixa desconfiada. Não é “como você está?”, porque essa já nasceu condenada ao automático “tudo bem”. A pergunta é outra: “Você anda muito cansada?”. Quase toda mulher responde com uma risada curta, dessas que servem mais para preencher o silêncio do que para demonstrar graça. “Quem não está?”, ela devolve. E a conversa segue como se estivéssemos falando da previsão do tempo.
Talvez seja esse o primeiro sintoma do problema: a exaustão deixou de ser uma condição para se tornar um traço de personalidade. Há mulheres que já nem se apresentam pelo nome. Apresentam-se pelo cansaço. “Prazer, sou aquela que dormiu cinco horas, resolveu um problema no trabalho, marcou consulta para a mãe, comprou o presente da afilhada, respondeu ao grupo da escola, lembrou de descongelar o frango e ainda está se sentindo culpada porque esqueceu de tomar água.”
É curioso como a sociedade distribui medalhas um tanto quanto estranhas. A de ouro vai para quem “dá conta de tudo”. Uma condecoração perigosíssima, aliás. Porque, depois que você ganha fama de competente, eficiente, organizada e resiliente — palavras bonitas que frequentemente significam “a pessoa para quem empurramos tudo” —, ninguém mais cogita perguntar se você gostaria de devolver o troféu.
Existe uma expectativa implícita de que a mulher seja uma espécie de gerúndio ambulante: esteja sempre cuidando, resolvendo, lembrando, conciliando, acolhendo, administrando, providenciando. É quase um tempo verbal. Enquanto todo mundo simplesmente vive, ela permanece vivendo, organizando a vida dos outros e tentando não esquecer o boleto que vence amanhã.
Aliás, desconfio que a maior carga mental feminina nem seja a louça. É lembrar que existe louça. Porque sempre aparece alguém disposto a dizer: “Era só pedir ajuda.” Como se a ajuda viesse acompanhada de um manual de instruções invisível. Como se alguém espontaneamente percebesse que o sabonete acabou, que a vacina do cachorro vence na próxima semana ou que a toalha molhada em cima da cama não desenvolveu pernas para chegar sozinha ao varal.
Há quem chame isso de excesso de responsabilidade. Eu chamaria de uma oração subordinada adverbial concessiva permanente: embora esteja cansada, ela continua. Embora esteja doente, ela continua. Embora precise de descanso, ela continua. A oração principal nunca muda. Ela continua.
E continua porque aprendeu cedo que interromper a marcha é quase um desvio de caráter. Mulher que descansa “poderia estar fazendo alguma coisa”. Mulher que diz não anda “difícil”. Mulher que pede ajuda “não se organiza”. Mulher que coloca a própria vida na frente da fila quase sempre é acusada de furar a fila de alguém.
O mais perverso é que esse roteiro costuma vir embalado como elogio. “Ela é guerreira.” Confesso que nunca entendi o fascínio nacional por transformar mulheres em combatentes. Talvez porque guerreiras não reclamem, não tenham direito a licença emocional e, principalmente, continuem lutando mesmo quando já esqueceram por que a guerra começou.
Outro dia ouvi alguém dizer que mulher é multitarefa. Fiquei pensando que o computador também era, até começar a travar quando abria abas demais.
Talvez não exista metáfora mais contemporânea.
Vivemos fechando abas: trabalho, família, amigos, autocuidado, academia, alimentação saudável, terapia, curso de idiomas, vida social, skincare, leitura, hidratação, planejamento financeiro. E, se alguma delas fecha inesperadamente, ainda sentimos culpa, como se a falha estivesse no sistema operacional e não na quantidade absurda de programas que insistem em rodar ao mesmo tempo.
Não, a exaustão não tem exclusivamente rosto de mulher. Homens também se esgotam. Mas existe um cansaço que ainda bate mais vezes à porta delas: o de quem passa tanto tempo sustentando a vida dos outros que, quando finalmente senta no sofá, já não sabe muito bem o que fazer consigo mesma.
Quem sabe a liberdade não comece justamente aí. No dia em que uma mulher olhar para a pia cheia de louça, respirar fundo e decidir que ela pode esperar. Porque, às vezes, a única coisa que realmente precisa ser lavada é essa culpa antiga que insistiram em colocar sobre os ombros femininos como se viesse de fábrica.
Até o próximo texto!
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