Hoje cedo, a camisa da seleção continuava na cadeira do quarto. Estranho como uma roupa consegue mudar de significado de um dia para o outro. Ontem era esperança. Hoje é só algodão.
Quem sabe seja essa a maior graça da Copa do Mundo: transformar o comum em extraordinário. Uma camiseta vira uniforme, uma simples cadeira vira arquibancada, uma quarta-feira qualquer ganha a solenidade de um feriado nacional. Por algumas semanas, a vida adulta entra em compasso de espera.
O e-mail pode esperar. O boleto também. A dieta, então, nem se fala. Há uma autorização coletiva para comer salgadinho às cinco da tarde bem no meio da semana, gritar com desconhecidos no bar e abraçar gente cujo nome você nunca perguntou.
Até que acaba.
O juiz apita pela última vez, alguém desliga a televisão e a casa parece grande demais. O silêncio faz mais barulho do que a torcida fez durante os noventa minutos. É só no dia seguinte, porém, que a eliminação realmente acontece.
A padaria volta a vender pão francês em vez de esperança. Os grupos de mensagens abandonam os memes patrióticos e retomam as mensagens de “bom dia”. Bom dia pra quem? Me pergunto… As bandeirinhas continuam penduradas na rua, mas agora balançam com um certo constrangimento, como a decoração de uma festa infantil esquecida depois que o aniversariante foi dormir.
A bem da verdade é que me impressiona como o país reaprende a funcionar em poucas horas: O ônibus atrasa como já era de se esperar, e o café? Continua caro! A fila do supermercado permanece do mesmo tamanho… A vida, essa mal-educada, não respeita nem eliminação em Copa!
No fim das contas o futebol ensina que nenhuma derrota tem o poder de congelar o calendário e que o mundo não concede licença emocional porque a bola insistiu em bater na trave em vez de entrar no gol.
Amanhã ainda haverá roupa para lavar, mensagens para responder e gente para amar. E, pensando bem, talvez seja bonito que seja assim.
A seleção perde, nós reclamamos do técnico e elegemos um novo culpado nacional, juramos que nunca mais iremos criar expectativas e, quatro anos depois, estamos outra vez tirando a camisa amarela do fundo da gaveta, fazendo contas improváveis e dizendo, com a convicção de quem esqueceu completamente a dor anterior: “Agora vai.”
Talvez não exista retrato mais fiel do brasileiro.
Não a capacidade de ganhar Copas, mas essa disposição quase ingênua de acreditar de novo. De vestir esperança como quem veste uma camisa mesmo sabendo que, no dia seguinte, ela voltará a ser só algodão.
Ainda bem.
Até o próximo texto!
@portal.eurio