Outro dia alguém me chamou de “boazinha”. Não foi um elogio, pelo menos não soou como tal. A palavra veio acompanhada daquele sorriso condescendente que as pessoas reservam para cachorros adestrados, crianças obedientes e mulheres que ainda não aprenderam a dizer não. Sorri de volta e pensei: você me conhece muito pouco.
Não sou boazinha coisíssima nenhuma.
Sou educada. Que é diferente. A confusão entre essas duas categorias já causou mais estragos do que muito relacionamento tóxico. A pessoa educada respeita o espaço dos outros. A boazinha entrega o próprio espaço junto com a escritura, a chave reserva e um bilhete dizendo “fique à vontade”.
A boazinha aceita, já a pessoa boa escolhe. Parece detalhe, mas é um abismo.
Passei boa parte da vida acreditando que ser uma boa pessoa exigia um certo grau de autossacrifício. Afinal, era isso que recebíamos como manual de instruções: seja compreensiva, seja gentil, seja paciente, seja disponível.
Disponível, aliás, é uma palavra perigosa. Disponível para ouvir, disponível para ajudar, disponível para resolver, disponível para entender. Disponível, inclusive, para ceder.
Quando percebi, eu estava mais disponível para os outros do que para mim mesma. Havia gente com acesso irrestrito à minha agenda, ao meu tempo e à minha energia. Alguns nem batiam à porta. Entravam pela janela.
O mais curioso é que a boazinha raramente recebe medalhas, ao invés disso recebe tarefas. Quanto mais eficiente você é em carregar os problemas alheios, mais problemas alheios aparecem para carregar. É quase um programa de fidelidade: Junte dez favores e ganhe mais quinze.
E Deus nos livre de estabelecer um limite. Ai de nós! A reação costuma ser fascinante porque a pessoa que ignorou suas necessidades por anos imediatamente percebe uma mudança de comportamento. Aquela que nunca respeitou seu tempo se sente ofendida porque você demorou três horas para responder uma mensagem. E a que desaparece quando você precisa de ajuda? Essa acha um absurdo você não estar disponível vinte e quatro horas por dia.
É impressionante como algumas relações sobrevivem exclusivamente à falta de fronteiras. Então, experimente colocar uma cerca e verá muitos visitantes desaparecem.
Com a idade, fui descobrindo uma verdade pouco romântica: gente boa nem sempre parece boazinha. Gente boa às vezes cancela convites. Às vezes discorda. Às vezes vai embora mais cedo. Às vezes não atende. Às vezes simplesmente não quer. E o mundo continua girando apesar disso.
Aliás, uma das maiores decepções da vida adulta é descobrir que ninguém recebe um prêmio por engolir sapos. Você apenas acumula anfíbios emocionais até não haver mais espaço na lagoa.
Hoje continuo gostando de ajudar. Continuo me importando. Continuo tentando ser gentil. Mas a fase de acreditar que bondade exige submissão ficou para trás. Se decepcionei algumas pessoas nesse processo, lamento. Embora nem tanto.
Porque, no fim das contas, a boazinha é amada pelo que entrega enquanto a pessoa boa espera ser amada pelo que é.
E essa diferença vale algumas antipatias.
Até o próximo texto!
@portal.eurio