Há quem diga que o tempo cura tudo. Mentira. O tempo, sozinho, não cura nem unha encravada. O que cura é decisão.
Dedico essa crônica àqueles que tratam o passado como as antigas cristaleiras da casa da avó que ninguém usa, ninguém toca, mas também ninguém tem coragem de jogar fora. Fica ali, ocupando espaço e servindo apenas para lembrar que um dia alguma coisa foi bonita. Ou dolorosa. Ou as duas coisas ao mesmo tempo porque quase tudo que nos marca vem com essa dupla personalidade.
Eu não estaria mentindo ao dizer que há um certo fetiche em sofrer pelo que já acabou. Sofrimento antigo dá status. Dá profundidade. Dá até legenda boa para foto em preto e branco. Há quem não supere ex-amor, cidade antiga, amizade rompida, emprego perdido, a versão antiga de si mesma. Até aí tudo bem. O problema começa mesmo quando essas ruínas passam a ser tratadas como patrimônio afetivo e, então, deixa-se de viver para apenas fazer visitas guiadas ao próprio passado. Um mausoléu afetivo. Um antiquário da dor.
“Ali foi onde eu me decepcionei.” eles apontam. Ou “naquele canto eu era feliz.” é quase um clássico. Tem também o “aqui morreu uma parte de mim.” Como se a vida inteira tivesse se transformado num museu da tragédia pessoal onde tudo ainda está intacto, empoeirado e sendo antigo demais para continuar ocupando espaço, mas ainda assim intocável demais para ser deixado para trás.
E eu entendo. O passado tem uma vantagem irresistível: ele já não pode mais nos contrariar. Já aconteceu. Já terminou. Já foi cuidadosamente editado pela memória, essa roteirista brilhante e um tanto desonesta que suaviza dores, recorta cenas e transforma caos em nostalgia sustentando nossos destroços íntimos.
O passado seduz justamente porque não exige coragem alguma, apenas contemplação. O futuro, ao contrário, exige movimento. E para viver o que vem pela frente, é preciso parar de velar o que já morreu. Sejamos francos: velório demais estraga a vida. O futuro, quase sempre, desiste de entrar em casas emocionalmente abarrotadas.
Vale para tudo: amores, culpas, versões antigas de nós mesmos. Conheço gente que não consegue ser feliz hoje porque continua fiel à tristeza que sentiu ontem. Como se superar fosse traição. Como se seguir em frente diminuísse a importância daquilo que foi vivido. Mas não. Não diminui. Só devolve movimento. Não falo sobre esquecimento mas sim sobre parar de morar em ruínas passionais decoradas com memória afetiva. Porque nostalgia demais vira mofo. E ninguém floresce em lugar abafado.
O futuro, coitado, fica do lado de fora batendo na porta enquanto a pessoa segue abraçada a fantasmas com uma trilha sonora dramática tocando ao fundo. Aí o assunto não é mais saudade, é medo de descobrir quem seria sem aquela dor.
Aceita um puxão de orelha? O passado devia ser referência, não residência!
Até o próximo texto!
@portal.eurio
https://www.instagram.com/annadominguees/
https://www.wattpad.com/user/AnnaDominguees