De vez em quando me pego fazendo turismo emocional em lugares onde nunca estive. Visito a oportunidade que desperdicei, o amor que não vingou, a decisão que hesitei tanto que caducou. São viagens rápidas, de poucos minutos, mas que deixam uma ressaca considerável. Nada cansa mais do que relembrar o que nem chegou a acontecer.
A verdade, porém, é simples e quase desinteressante de tão óbvia: certas coisas não acontecem porque não tinham fôlego para existir. Não é lição espiritual, não é karma, não é má sorte. É só a vida acontecendo no seu ritmo imperfeito.
A gente se apega ao que poderia ter sido porque é mais fácil flertar com versões alternativas de nós mesmos do que encarar a versão atual — que, por sinal, tem defeitos e dívidas. Fantasiar com o caminho não tomado é confortável: nele, nunca erramos.
Também gostamos de acreditar que controlamos o roteiro, que um gesto diferente mudaria toda a trama. Reconforta imaginar que estávamos a um centímetro da vida perfeita — um quase que, cá entre nós, é pura ficção. As coisas que realmente pertencem à nossa história encontram uma maneira de acontecer; o resto emperra, tropeça, perde o timing.
Isso não significa aceitar tudo passivamente, mas abandonar a fantasia de que existe um destino impecável nos esperando, bastando apenas ter tomado a virada certa no semáforo existencial. O que não aconteceu não é um troféu perdido: é só um capítulo que não fazia sentido no enredo.
Quando soltamos o “e se?”, abrimos espaço para o “e agora?”. Parece pouco, mas é libertador. É trocar o peso da imaginação frustrada pelo movimento real da vida. É deixar de recitar as memórias do que nunca existiu para dar chance ao que, enfim, pode começar.
No fundo, existe uma elegância discreta em fazer as pazes com as próprias rotas. Uma tranquilidade que só chega quando paramos de cobrar do passado um desempenho melhor. O passado é teimoso: não muda, não negocia, não arredonda arestas. Ele é o que é, sem desconto à vista.
Então, se um dia você sentir saudade do que não viveu, lembre-se: saudade de miragem não hidrata ninguém. Caminho bom é aquele que está debaixo do pé, não na imaginação.
Até o próximo texto!
@portal.eurio
instagram.com/annadominguees
wattpad.com/user/AnnaDominguees