A Associação Brasileira dos Centros de Diálise e Transplante (ABCDT) alerta para a grave situação dos pacientes renais beneficiários de planos Unimed no Rio de Janeiro. A Clínica Gamen acaba de notificar o grupo Unimed que a partir de 9/12/2025 não terá mais condições de atender os cerca de 45 doentes renais crônicos que fazem tratamento na unidade três vezes na semana. O tratamento é o que garante a vida dessas pessoas, que não têm o funcionamento regular dos rins e, por isso, precisam receber hemodiálise para poder limpar as toxinas do organismo.
A ABCDT alerta que o estrangulamento dos prestadores de serviço da Unimed no Rio de Janeiro - que acumulam dívidas desde 2015, quando a empresa entrou em direção fiscal pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) - levou a esta situação de calamidade. Sem receber o passivo financeiro, sem perspectiva de receber os custos futuros, e sem conseguir sustentar o tratamento, a Gamen não consegue mais atender a Unimed.
Localizada no Engenho de Dentro, a clínica Gamen já fechou novas vagas para os pacientes da Unimed há alguns meses. A dívida com a Unimed-Ferj é de R$ 600 mil. Este valor atual se soma ao valor negociado e não pago pela Unimed-Ferj quando assumiu a operação dos beneficiários da Unimed-Rio, montante este estimado em mais de R$ 1 milhão.
"Para um prestador de serviço de saúde, fechar um atendimento é algo que dói, algo que evita-se no limite do possível e impossível. Mas a situação gerada pela dívida da Unimed e pela inoperância da ANS em encontrar uma solução definitiva para essas vidas anos após ano, estrangulou os serviços de saúde. Os hospitais, clínicas, centros de atendimento não estão sendo vistos nessa equação. Sem receber há anos, sem segurança jurídica em mais uma manobra de migrar as vidas para outra Unimed, sem previsão de pagamento de dívidas que se acumulam, sem cumprimento de acordos anteriores, o colapso é o triste fim dessa longa história. No fim, quem pagará a conta imediata são os pacientes e profissionais de saúde", alerta Leonardo Barberes, médico nefrologista e vice-presidente da ABCDT.
Depoimento de paciente renal prejudicada
"Meu nome é Giselle Sekiguchi, sou paciente renal há 16 anos e sempre recebi um atendimento exemplar na clínica Gamen - acolhimento da equipe inteira, da nutrição aos enfermeiros. Mas, desde o ano passado, vivemos um drama por causa da Unimed, que deixou de repassar os valores da diálise para a clínica. No ano passado lutamos e conseguimos resolver, mas neste ano o problema voltou, e a clínica não consegue sustentar a dívida. Após virar Unimed Ferj, o atendimento também piorou.
Agora, a partir do dia 10, nem sabemos se poderemos continuar o tratamento na clínica. Isso é desesperador, porque a diálise é essencial para nossa sobrevivência e já é, por si só, um desgaste físico e emocional enorme. Somar essa incerteza torna tudo ainda mais difícil.
Tenho apoio da família e da equipe da clínica, mas muitos pacientes são debilitados e não conseguem lutar pelos próprios direitos. A Unimed diz que está tudo certo, a ANS cobra, e eles repetem que não há problema - mas não é verdade. Já recebemos carta avisando da suspensão do serviço, e não sabemos para onde iremos, pois a Unimed não dá qualquer retorno.
Só queremos que isso se resolva rápido, para termos um tratamento digno e um mínimo de tranquilidade. Pagamos o plano em dia; quem não cumpre sua parte é a operadora. Essa situação abala profundamente nosso psicológico. Espero sinceramente que isso seja resolvido logo".
Colapso
A Gamen é também a única clínica de todo o estado do Rio de Janeiro a atender pelo Sistema Único de Saúde (SUS) crianças com doença renal crônica que precisam de hemodiálise neuropediátrica. Todas as demais já interromperam esse tipo de atendimento infantil em 2021 por conta da baixa remuneração da Tabela SUS. Os repasses para custeio do atendimento a crianças renais pelo SUS também está atrasado.