Nesta quarta-feira (6), a Associação Fórum Grita Baixada (AFGB) realiza o ato "Do Luto à Luta: Mães que Desafiam o Silêncio", na Praça dos Direitos Humanos, em Nova Iguaçu, a partir das 17h. A programação marca os 21 anos da Chacina da Baixada Fluminense.
O ato reunirá mães e familiares de vítimas da chacina e de outras formas de violência letal e desaparecimentos forçados que seguem ocorrendo na região, em um grito coletivo por memória e resistência.
Em meio às celebrações do Dia das Mães, o evento expõe uma face da maternidade na Baixada: a das mulheres que precisaram transformar o luto em instrumento político contra a violência de Estado.
Na noite de 31 de março de 2005, grupos de policiais militares percorreram os municípios de Nova Iguaçu e Queimados em uma sequência de execuções. Bares, padarias e pontos de ônibus foram alvejados. Em menos de três horas, 29 pessoas foram mortas. Vinte e um anos depois, a impunidade persiste.
Arte como ferramenta política
A programação inclui a exibição do filme "Nossos Mortos Têm Voz", seguida de roda de conversa com as mães presentes, apresentação coreográfica e leitura dos nomes das 29 vítimas da chacina. O encerramento terá poesia.
O evento integra um projeto de arteterapia desenvolvido em parceria entre a UFRRJ e a AFGB entre 2023 e 2025. Os encontros utilizaram colagem, desenho, pintura e modelagem como ferramentas de expressão e processamento do trauma. Por meio dessa ferramenta psicossocial, a dor individual é ressignificada e se transforma em força coletiva de denúncia.
Nádia Figueiredo, psicóloga e arteterapeuta que ajudou a coordenar o apoio terapêutico, destaca os efeitos físicos da violência sobre os sobreviventes. "A diabetes e a hipertensão arterial são as mais comuns, mas há todo um conjunto de doenças que, associadas aos estados emocionais preexistentes, como o estresse pós-traumático, fazem explodir, de forma silenciosa e oculta, o número de mães doentes", afirmou.
"A nossa Baixada é muito invisibilizada"
Renata Aguiar integra o coletivo de mães da Baixada Fluminense e já teve dois filhos assassinados, não na chacina de 2005, mas nas violências que se repetem na região. "Nós precisamos insistir e perseverar para que isso não caia no esquecimento. A nossa sociedade esquece das coisas muito rápido. E só quem fica com essa dor é a família", disse.
Para Ilsimar de Jesus, da Rede de Mães e Familiares de Vítimas de Violência de Estado da Baixada Fluminense, lembrar é um ato político. "A memória preserva histórias que muitos tentaram apagar, denuncia injustiças e impede que crimes sejam naturalizados ou esquecidos. Resistir é transformar lembranças em ação, dor em denúncia e história em instrumento de mudança", afirmou.
A Baixada Fluminense segue entre as regiões com maiores índices de letalidade policial no estado do Rio de Janeiro. Em março de 2026, o Brasil aprovou a lei que criminaliza o desaparecimento forçado como crime hediondo. A AFGB foi protagonista nessa conquista.
"Enquanto houver mães que choram filhos assassinados pelo Estado e sem nenhuma resposta da Justiça, nossa obrigação é estar na rua, ocupar a praça, gritar o nome de cada vítima", disse Adriano de Araujo, coordenador executivo da AFGB.
O ato é uma realização da Associação Fórum Grita Baixada (AFGB), com organização da Rede de Mães e Familiares de Vítimas de Violência de Estado da Baixada Fluminense e da Rede de Educação Popular da Baixada Fluminense.