A corrida tem conquistado muitas mulheres, que encontraram no esporte uma forma de cuidar da saúde, ganhar disposição e criar um momento de autocuidado na rotina. Mas, junto com esse movimento, um problema ainda pouco falado pode fazer algumas delas reduzirem os treinos ou até abandonarem a atividade física: os escapes de urina durante o exercício.
A perda urinária pode acontecer durante a corrida, mas também em outras atividades que envolvam esforço, impacto ou aumento da pressão abdominal. Apesar de serem relativamente comuns, os escapes não devem ser encarados como algo normal da prática esportiva, do envelhecimento ou de determinadas fases da vida. Quando a perda urinária começa a causar constrangimento, alterar a rotina ou fazer com que a mulher deixe de se exercitar, é hora de buscar avaliação.
Entre as possibilidades de tratamento estão a fisioterapia pélvica, que trabalha o fortalecimento e o controle da musculatura do assoalho pélvico, o fortalecimento do CORE (abdômen, região lombar, pelve e quadril) , importante para a estabilidade e o controle da região central do corpo, e, em determinados casos, o laser de CO?, de acordo com a avaliação e indicação do especialista.
Mais do que conviver com o problema ou abrir mão do exercício, a orientação é investigar a causa da perda urinária e buscar uma estratégia adequada para cada caso.
Para falar do assunto, o *ginecologista Guilherme Henrique Santos, da Onne Clinic (RJ)*
1. Por que os escapes de urina podem acontecer durante a corrida e outras atividades físicas? O que acontece com o assoalho pélvico e a região abdominal durante esses movimentos?
Durante a corrida, saltos e outros exercícios de impacto, ocorre um aumento da pressão dentro do abdômen, que é transmitida para a região pélvica. O assoalho pélvico participa desse mecanismo, ajudando a sustentar os órgãos da pelve e a manter o fechamento da uretra. Quando a musculatura não consegue responder adequadamente a esse aumento de pressão, pode acontecer a perda involuntária de urina.
Isso não significa necessariamente que exista uma alteração importante na força muscular. Em algumas mulheres, pode haver dificuldade de coordenação entre o assoalho pélvico, o abdômen e a respiração durante o movimento. Por isso, atividades de maior impacto podem revelar uma perda urinária que não aparece no dia a dia. A chamada incontinência urinária de esforço justamente se caracteriza pela perda de urina associada a situações como exercício, tosse, espirro ou outros esforços.
2. Apesar de serem comuns, por que a perda urinária durante o exercício não deve ser considerada normal? Quais sinais indicam que a mulher precisa procurar avaliação especializada?
É importante diferenciar algo que é frequente de algo que deve ser considerado normal. A perda urinária durante o exercício é relativamente comum entre mulheres, mas não precisa ser encarada como uma consequência inevitável da corrida, do envelhecimento ou da maternidade.
A mulher deve procurar avaliação quando os escapes se tornam recorrentes, aumentam de intensidade ou começam a interferir na sua rotina. Um sinal muito importante é quando ela passa a evitar determinados exercícios, reduzir a intensidade dos treinos ou até abandonar uma atividade que gosta por medo de perder urina.
A avaliação também é indicada quando existem outros sintomas urinários associados ou quando a mulher não tem certeza se o que apresenta realmente é uma incontinência urinária de esforço. Identificar corretamente o tipo de incontinência é fundamental para definir a melhor estratégia de tratamento.
3. Quais são as principais possibilidades de tratamento para a incontinência urinária de esforço? Como entram nesse cuidado a fisioterapia pélvica, o fortalecimento do CORE e o laser de CO??
O tratamento depende da causa, da intensidade dos sintomas e das características de cada mulher. A fisioterapia pélvica tem um papel muito importante porque trabalha especificamente a musculatura do assoalho pélvico, desenvolvendo força, resistência e, principalmente, capacidade de contração e coordenação adequadas. O treinamento supervisionado dessa musculatura é uma das principais estratégias utilizadas no tratamento da incontinência urinária de esforço.
O fortalecimento do CORE também pode contribuir, porque existe uma relação funcional entre abdômen, lombar, quadril e assoalho pélvico. O objetivo é melhorar a estabilidade e a coordenação da região central do corpo durante os movimentos, especialmente em atividades que aumentam a pressão abdominal.
Em determinados casos, o laser de CO? pode ser considerado como parte da abordagem terapêutica, sempre após avaliação individual. A proposta é atuar sobre a qualidade dos tecidos da região vaginal, estimulando processos relacionados à remodelação do colágeno. A indicação deve ser feita pelo especialista, considerando o quadro clínico e as necessidades de cada paciente.
4. Muitas mulheres deixam de correr ou treinar por medo de ter escapes. É necessário interromper a atividade física nesses casos? Como é possível tratar o problema sem abrir mão do exercício?
Na maioria dos casos, não é necessário abandonar definitivamente a atividade física. Pelo contrário: o objetivo do tratamento deve ser permitir que a mulher continue se movimentando e volte a realizar o exercício com segurança e confiança.
Durante o período de investigação e tratamento, pode ser necessário adaptar temporariamente a intensidade ou o tipo de impacto, de acordo com cada caso. Paralelamente, o fortalecimento e o treinamento adequado do assoalho pélvico ajudam a melhorar o controle urinário e a resposta da musculatura durante o exercício.
O mais importante é não transformar o escape em motivo para abandonar uma atividade que faz bem para a saúde. Se a mulher está perdendo urina durante a corrida, isso é um sinal para investigar e tratar, e não uma razão para simplesmente parar de correr.
Agência Brasil