A ficha demorou a cair para Claudineia Rosa Figueiredo, de 53 anos, compreender que havia sido vítima de violência. Daiane Coutinho Silva, de 38, reconhecia a situação que vivia, mas enfrentou dificuldades para pôr fim em mais um relacionamento abusivo. As trajetórias são distintas, porém unidas pela luta de romper o ciclo da violência de gênero. Histórias semelhantes evidenciam porque informação, acolhimento e rede de proteção podem mudar destinos. O debate vai reunir autoridades, entidades, especialistas e vítimas dessa realidade no evento Panorama Vermelho – A luta da mulher contra a violência, promovido pelo Grupo OAF Assistencial no dia 19 de setembro, no auditório da subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Itaboraí, na Região Metropolitana do Rio.
A mesa-redonda, mediada por Karla Monielly Belchior, CEO do OAF Assistencial, contará com as presenças da presidente da Comissão OAB Mulher de Itaboraí, Amanda Souza, da coordenadora da Associação Abrigo Rainha Silvia, Claudineia Rosa Figueiredo, da psicóloga e sexóloga Pâmela Clarissa Lira e da atleta de MMA Lorrayne Santos, que abordará como o domínio de técnicas de defesa pessoal pode contribuir para a proteção das mulheres. Ao final da programação, a lutadora ministrará uma aula gratuita da prática. Os debates e os conteúdos da iniciativa serão disponibilizados em uma cartilha digital, cujo acesso será aberto ao público depois do encontro.
O evento foi motivado pela divulgação de pesquisas que apontam um desafio crescente. O estudo Retrato dos Feminicídios no Brasil 2026, por exemplo, publicado em março pelo Fórum de Segurança Pública, mostra que, enquanto as mortes violentas caíram 8,2% no Brasil em 2025, os feminicídios cresceram 4%, atingindo o maior número da série histórica: 1.571 mulheres assassinadas. No Rio de Janeiro, ainda de acordo com o levantamento, mesmo com pequena redução dos crimes envolvendo de mulheres por razões de gênero, outros indicadores de violência continuaram avançando, especialmente os registros de violência psicológica, sexual e moral.
“O objetivo do ‘Panorama’ é transformar esses dados em reflexão e ação. Compreender quem são essas mulheres, como a violência se manifesta e quais caminhos podem fortalecer a prevenção e a proteção”, destaca Karla Monielly Belchior.
Com capacidade para 90 participantes, o evento vai abordar assuntos associados aos direitos, políticas públicas, mecanismos de proteção e canais de ajuda e denúncia. A presidente da Comissão OAB Mulher, seccional de Itaboraí, a advogada Amanda Souza, enfatiza o quanto é fundamental aproximar as mulheres dos mecanismos disponíveis para sua proteção e ampliar o diálogo sobre um futuro em que dignidade e autonomia não sejam exceções, mas direitos garantidos ao gênero.
“Além da necessidade de uma rede integrada de proteção, o enfrentamento à violência contra a mulher também exige que elas conheçam seus direitos e saibam buscar ajuda. Quando ampliamos o acesso ao conhecimento, fortalecemos a capacidade de reconhecer um relacionamento abusivo, denunciar e buscar apoio antes que uma situação se torne ainda mais grave”, avalia.
Idealizadora da cartilha digital Panorama Vermelho, Monielly Belchior explica que o material foi pensado como uma ferramenta de reconhecimento, capaz de ajudar mulheres a identificar situações de abuso e encontrar caminhos para buscar ajuda.
“Nem toda violência deixa marcas visíveis. Muitas mulheres vivem situações de controle e medo sem reconhecer de imediato a violência. A cartilha foi produzida para criar essa ponte de reconhecimento, incentivar o diálogo e facilitar o caminho dessa vítima até uma rede de acolhimento. A ideia é tornar possível a mulher identificar sinais de abuso na própria realidade e chegar à conclusão que ela merece viver com respeito, segurança e liberdade”, afirma a executiva.
‘Uma não larga a mão da outra’
Quando pisou no Abrigo Rainha Silvia, em Itaboraí, em 1996, Claudineia Rosa Figueiredo, de 53 anos, estava grávida pela terceira vez e buscava por apoio para realizar o pré-natal. Sem emprego e suporte do pai do bebê, ela encontrou no local mais que acolhimento: a oportunidade de reconstruir sua vida.
“O abrigo pagou meus estudos, abracei todas as oportunidades. Me formei em Enfermagem e comecei a trabalhar no atendimento a mulheres que procuravam a instituição”, conta. Foi ouvindo outras histórias que Claudineia identificou situações de abuso e agressão verbal que havia vivido em seus próprios relacionamentos.
“Hoje, meu trabalho é ajudar outras mulheres a entenderem que elas não são culpadas das acusações dos seus agressores e que é possível construir um caminho diferente”.
Uma dessas histórias foi a de Daiane Coutinho Silva, de 38 anos, que também encontrou no Abrigo um ponto de virada, em 2009. Grávida, chegou a viver em situação de extrema vulnerabilidade para fugir de um relacionamento abusivo. Ninguém a amparou. No Rainha Silvia recebeu acolhimento e o apoio que precisava para concluir os estudos.
“Depois que saí do abrigo enfrentei outra relação marcada por violência doméstica por 14 anos. Mesmo reconhecendo o abuso, não conseguia romper o ciclo e foi preciso tratar o psicológico. Meus filhos e Claudineia me deram força para sair desse relacionamento e recomeçar. De volta ao abrigo, desta vez como professora mediadora da instituição, voltei a investir na minha carreira e me formo em Pedagogia em breve”.
Atualmente, a instituição acolhe 13 mulheres vítimas de violência e 24 crianças, oferecendo moradia, alimentação, atendimento médico, psicológico e assistência jurídica. As famílias podem permanecer no local por períodos que variam de seis meses a dois anos, tempo em que recebem apoio para reconstruir a autonomia e preparar um novo caminho, longe da violência.
Sinais de uma relação abusiva
Ciúme excessivo, tentativa de controlar roupas, amizades, redes sociais e dinheiro, isolamento da família e dos amigos, humilhações, ameaças, chantagens emocionais e a constante sensação de precisar “pisar em ovos” para evitar conflitos. Segundo a psicóloga e sexóloga Pâmela Clarissa Lira esses são os principais sinais de alerta de um relacionamento abusivo. “O abuso também pode ocorrer de forma mais sutil, por meio de manipulação, culpa e desqualificação constante dos sentimentos e das decisões da mulher”, acrescenta a especialista.
Romper com uma relação abusiva, de acordo com Lira, não depende apenas do desejo da mulher de se livrar dessa condição, mas o processo envolve reconhecer a violência vivenciada, fortalecer a autoestima e buscar uma rede de apoio e acompanhamento especializado, que ofereçam segurança e suporte para a ruptura.
"Reconhecer racionalmente que se está em uma relação abusiva não significa, necessariamente, conseguir romper de forma imediata. O medo, a dependência emocional ou financeira, a baixa autoestima e padrões afetivos construídos ao longo da vida podem dificultar a saída desse ciclo", frisa a psicóloga.
Números da violência em alta
Em 2025, o Brasil registrou 1.571 feminicídios, o maior número da série histórica, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. O crescimento ocorreu na contramão das mortes violentas intencionais, que caíram 8,2% no país. Os dados mostram que 60,9% dos autores identificados eram parceiros e em 62,5% dos casos, as vítimas foram assassinadas dentro de casa.
No Rio de Janeiro, os números mais recentes também mantêm o alerta. Embora os feminicídios tenham apresentado pequena queda em 2025, o número total de mulheres vítimas de violência cresceu cerca de 3%. A violência psicológica foi a que mais avançou, atingindo 59.743 mulheres, alta de 6,3%. Os registros de violência sexual e moral também aumentaram.
Em Itaboraí, o Núcleo Integrado de Atendimento à Mulher (NIAM) registrou 317 atendimentos em 2024. Em 2025, foram 266 mulheres atendidas e, apenas até junho deste ano, outras 179 já haviam procurado o serviço por diferentes situações de violência.
SERVIÇO - Panorama Vermelho – A luta da mulher contra a violência
Data: 19 de setembro de 2026 (sábado)
Local: Auditório da 25ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Rua São João, 139, Centro de Itaboraí.
Programação: mesa-redonda: Karla Monielly Belchior (CEO do OAF Assistencial), Amanda Souza (presidente da Comissão OAB Mulher/Itaboraí), Claudineia Rosa Figueiredo (coordenadora da Associação Abrigo Rainha Silvia), Pâmela Clarissa Lira (psicóloga e sexóloga) e Lorrayne Santos (atleta de MMA).
Lançamento: Cartilha digital Panorama Vermelho – A luta da mulher contra a violência
Aula gratuita de defesa pessoal com LorrayneSantos (atleta de MMA)