Onde vai ter doce? A pergunta conhecida por gerações de crianças cariocas já começou a circular antes mesmo do dia 27. No Méier e no Engenho de Dentro, páginas de bairro no Instagram recorreram aos seguidores para saber quem vai distribuir os tradicionais saquinhos de Cosme e Damião. Endereços e horários informados pelos moradores ajudam a montar uma espécie de mapa para quem pretende sair à procura dos doces.
A forma de encontrar os pontos de distribuição mudou, mas o destino continua sendo o mesmo: a rua.
É justamente nela que o historiador e escritor Luiz Antonio Simas situa uma das principais características da celebração no Rio. Para ele, embora seja uma festa religiosa, o dia de Cosme e Damião ultrapassou os espaços de culto e se incorporou à vida cotidiana da cidade.
“É uma festa religiosa, não tenha dúvida, mas que transcendeu os limites da igreja, os limites inclusive até dos próprios terreiros, já que o sincretismo é muito forte. E ela chegou às ruas”, afirma.
Simas define a festa como “rueira”, ligada às formas de convivência construídas no espaço público.
“É festa de igreja, é festa de terreiro, mas é festa de quintal, é festa de esquina, é festa de calçada. Eu acho que isso talvez seja o mais interessante até.”
A comemoração também guarda uma particularidade no calendário. Simas explica que a Igreja Católica celebra atualmente Cosme e Damião em 26 de setembro, enquanto o dia 27 permaneceu fortemente ligado à tradição popular brasileira e às religiões de matriz africana. Segundo o historiador, a mudança da data no calendário católico ocorreu durante a reforma litúrgica promovida no pontificado de Paulo VI, ficando o dia 27 dedicado a São Vicente de Paulo.
A rua mudou, com prioridade para a circulação de corpos apressados para o trabalho
Se a rua se tornou parte fundamental da festa, as mudanças na vida urbana também repercutem sobre ela.
Para Simas, esse processo não atinge apenas Cosme e Damião, mas diferentes formas de convivência construídas no cotidiano. Botequins, terreiros, quitandas, barbearias e pequenos comércios fazem parte desse universo.
“É a rua que está em jogo aí, né? A gente quer uma cidade em que a rua seja vista prioritariamente como um lugar de encontro ou pensada a partir da circulação de mercadoria e de corpos apressados em direção ao trabalho. Essa é a questão, é a rua.”
Nesse contexto, a discussão não passa apenas pela permanência dos saquinhos, mas pelas mudanças na experiência de sair de casa, encontrar vizinhos e circular pelo bairro.
Nos subúrbios, essa relação assume características próprias.
“Os subúrbios constroem suas sociabilidades numa cidade que não é a cidade do cartão-postal. Não é a cidade de Copacabana, da Zona Sul, do Pão de Açúcar, do Corcovado. Não é a cidade da Lagoa.”
Simas relaciona a força da celebração nessas regiões também à história da Umbanda e à presença de terreiros em áreas como Madureira, Cascadura, Quintino e Estácio. Ao mesmo tempo, chama atenção para uma forma de convivência construída longe da imagem turística da cidade.
“Você constrói sociabilidade no cotidiano miúdo, essa miudeza cotidiana.”
De geração a geração, apego pela fé desafia em cada saquinho ritmo hostil da vida moderna
É nesse cotidiano que o costume também se mantém dentro das famílias.
Na casa de Dona Ivanilde Alves, de 85 anos, a distribuição começou há mais de quatro décadas, a partir de uma promessa pela recuperação de um familiar. A promessa foi cumprida, mas o hábito permaneceu e chegou à filha Andrelina, de 53 anos, e à neta Maria Carolina, de 19.
“Começou com a promessa, mas a gente continuou pela tradição. Eu adoro”, conta Andrelina.
Se pudesse, ela aumentaria a quantidade distribuída. “Meu sonho era dar uns 500 saquinhos”, diz, ao falar do custo para comprar os doces e prepará-los.
Na família, um gesto iniciado pela fé atravessou mais de 40 anos e passou a fazer parte também da memória de outras gerações.
Demonização dos terreiros por seitas fundamentalistas faz intolerância chegar às crianças
A dimensão popular da festa, porém, não apaga sua origem religiosa nem os conflitos que podem acompanhá-la.
Simas aponta como um desses fatores a atuação de segmentos religiosos que demonizam práticas ligadas aos terreiros. Embora Cosme e Damião sejam santos católicos, lembra, a devoção também ganhou forte presença na Umbanda e em outras tradições afro-brasileiras.
O preconceito pode chegar justamente a um dos símbolos mais conhecidos da data: o doce entregue às crianças.
Ivanir dos Santos, pós-doutor em História Comparada pela UFRJ e atuante no enfrentamento à intolerância religiosa, afirma ter conhecimento de situações em que crianças são orientadas a recusar os saquinhos por sua associação às religiões de matriz africana.
“Sim, existem relatos de pessoas que orientam crianças a não receber esses doces por associá-los às religiões de matriz africana. O preconceito aparece justamente quando uma tradição religiosa é tratada como algo negativo ou que deve ser evitado”, afirma.
Para Ivanir, receber o doce não significa aderir à religião de quem o oferece.
“A distribuição de doces representa, em muitas tradições, a partilha, a generosidade e a celebração. O que costuma ser mal compreendido é que receber um doce não significa aderir a uma religião. É uma manifestação cultural e religiosa que deve ser respeitada.”
Ele chama atenção ainda para o que pode ser transmitido às novas gerações quando a recusa é motivada pelo preconceito.
“Esse gesto pode revelar um preconceito, arraigado à intolerância religiosa, que é transmitido às crianças desde cedo. É importante ensinar que cada pessoa tem o direito de seguir sua religião, mas também deve respeitar as crenças e tradições dos outros.”
Da festa à moda, a tradição da festa dedicada aos erês se reinventa
Enquanto enfrenta essas tensões, a festa também chega a outros espaços. Neste mês, a parceria de Simas com a marca Chico Rei ganhou novas peças inspiradas em Cosme, Damião e Doum, ilustradas pelo artista Philipe Kaoká. Camisetas, caneca e bandeira decorativa levam referências da celebração para a moda e para objetos do cotidiano.
“A coleção nasce de uma memória muito brasileira, que atravessa a infância, a rua, o samba e diferentes formas de celebrar a vida. A ideia foi transformar essa memória em estampas que também dialogam com a linguagem da Chico Rei e com o trabalho do Simas e do Kaoká”, afirma Vitor Vizeu, diretor de marketing da marca.
Simas relaciona a parceria a um conceito que utiliza para pensar a cultura popular: a “cultura de fresta”.
“Eu entendo a cultura popular como cultura de fresta. As frestas, ou seja, a ocupação dos espaços, a ocupação das brechas, a ressignificação de certos elementos que a priori não pertenceriam à cultura popular e passam a pertencer.”
A proposta dialoga ainda com sua produção literária. A cultura de rua está presente em O Corpo Encantado das Ruas, enquanto Cosme e Damião são tema do livro infantil As Três Estrelas do Céu: Cordel para Cosme e Damião, lançado em 2025.
“Eu acho que faz parte mesmo de uma estratégia de ocupação de espaço de forma política e poética. Porque eu não acredito numa política que não seja poética. E eu realmente não acredito numa poética que não seja política”, define Simas.
Da calçada às redes sociais, da memória familiar à moda, a festa encontra novas formas de circular. No dia 27, porém, é novamente nas ruas que esse movimento se materializa, quando os endereços compartilhados pelo celular ajudam crianças aos pontos onde os saquinhos serão entregues.
Mudam os caminhos para encontrá-los, mas permanece o gesto que atravessou gerações: de um lado, alguém prepara e oferece; do outro, alguém sai em busca do doce.