Parece que foi ontem, mas lá se vai meio século.
Meninas e meninos, eu lembro: um jornalista chamado Vladimir Herzog, diretor da TV Cultura, foi ao DoiCodi/SP para depor, em 25/10/1975. "Rotina" no regime ditatorial, "checagem" comum no Estado Policial.
Herzog, 43 anos, não era da resistência armada e sim da intelectual: gostava de arte, cinema, teatro, do bom jornalismo, investigativo.
Odiava censura, tortura, truculência, arbítrio. Mas era obrigado a conviver com aquelas violências cotidianas.
Ao contrário do que pensavam Clarice, sua esposa, seus pequenos filhos Ivo e André, colegas de trabalho e o próprio Vlado, o depoente não foi liberado. Ficou preso, foi torturado com eletrochoques até à morte. Barbárie!
A ditadura mentiu descaradamente, divulgando que Vlado "tinha se suicidado na prisão". Crime sobre crime!
Mas não dava mais pra segurar: sete dias depois, um ato ecumênico na Catedral da Sé reuniu 8 mil pessoas enlutadas e indignadas, sob a liderança do cardeal Paulo Evaristo Arns.
"Chora a nossa pátria mãe gentil/ choram Marias e Clarices no solo do Brasil" - cantaram Aldir Blanc e João Bosco.
"Uma dor assim pungente" não foi inutilmente. Era o começo da lenta agonia do regime do terror oficial - esse do qual os bolsonaristas têm nostalgia (seus "heróis" torturadores foram anistiados).
Era o começo da reconquista da nossa ainda hoje frágil democracia.
Obrigado, Vlado e tanto(a)s que deram suas vidas para que as nossas prosseguissem.
Ontem relembramos esse marco histórico e trágico na ABI. Hoje voltaremos à Sé. A "esperança equilibrista" tem que continuar!