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Da burocracia à planta: a Multifoco apresenta “Alma” no Futuros

Dança Além das Fronteiras, Por Cláudio Serra, Professor da Escola de Teatro da UniRio

Em 28/07/2025 às 22:27:22

No cruzamento de circo, teatro e pensamento contemporâneo, a Multifoco Companhia de Teatro apresenta “Alma”, dentro do quadro da comemoração de seus quinze anos de existência, no Futuros – Arte e Tecnologia. Em cena, três atrizes circenses dançam corpo e palavra: Clarissa Menezes (que traz doçura e poesia), Viviane Pereira (cumplicidade com o espectador e cuidado com cada elemento da cena) e Bárbara Abi-Rihan (precisão física, vocal e do timming).

Dança burocrática / dança orgânica

A peça mais importante do cenário de Ricardo Rocha (um complexo trainel retrátil manipulado pelas atrizes) lida com a análise combinatória de entradas e saídas labirínticas. Uma longa partitura coreográfica é composta a partir desse elemento cenográfico. Suspensões, agachamentos, carregamento de travas para a parede, ajustamento de trincos, aberturas de janelas, fechamentos de outras. O corpo burocratizado vai sendo construído a partir das regras dessa peça cenográfica, como se ela fosse o sistema da burocracia burguesa que nos assola há três séculos.

A burocracia outorga um labirinto ao corpo humano, vai se reproduzindo até atingir diferentes meios sociais e topografias. Os personagens kafkianos, outrora compreendidos como surreais, podem, hoje, ser chamados apenas "humanos". A burocracia foi uma invenção bem sucedida de apreensão e censura do que o humano tem de mais singular: a capacidade de imaginar o que não existe, expressar o que não faz sentido, ter uma relação “improdutiva” com o tempo.

Durante toda a “primeira” parte do espetáculo, o corpo dança maquinalmente, mas não por simples estilo, se não por urgência de montar, desmontar e remontar a estrutura cenográfica que lhe demanda uma dança atenta e reta. Clarissa, Viviane e Bárbara se apropriam integralmente da complexa partitura coreográfica.

É, também, por um elemento espacial que ocorre uma pausa nessa dinâmica: as atrizes começam a trazer plantas para o palco, até que ele fique prioritariamente habitado pelo verde (que já podia ser anunciado pelo piso verde desde o início). Isso é um acontecimento. Como em todo acontecimento cênico, o corpo é afetado. A imagem de precisão nos gestos vai dando lugar a certo repouso muscular, a quantidade de deslocamentos diminui, o corpo vai encontrando um tempo mais orgânico, que é o tempo da natureza e de seus ciclos.

O curioso é que, justamente quando o corpo parece não dançar mais (da perspectiva da técnica e da precisão exteriorizada), a dança aparece. É como se não houvesse coreografia, como se houvesse apenas abandono, porém o aparente relaxamento é cuidadoso e se relaciona com o espaço o tempo todo.


Coreografia da palavra

Ainda há outra dimensão coreográfica em “Alma”, aquela da palavra falada. Em um primeiro momento, o fluxo e o ritmo da fala aumentam e diminuem, fazem curvas ou ângulos retos. Burocraticamente a palavra é portadora de informação e, abstratamente mostra sua estrutura. Isso se dá, sobretudo, na fala (ao vivo) das atrizes, mas não somente. O jogo coreográfico da palavra já está estabelecido desde os anúncios em off, na entrada do público: informações apressadíssimas que, volta e meia, tentam se frear.

Nesse sentido, é necessário destacar o trabalho (coreográfico) vocal de Bárbara Abi-Rihan, com seus metálicos que trazem clareza na dicção e precisão na emissão do som. Rapidíssimo, ou lento, o espectador compreende o que é dito e entra no fluxo dançante da palavra proposto pela dramaturgia de Ayana Dias e Ricardo Rocha.

Uma outra camada da palavra aparece quando ela é cantada. A música de Vinícius Mousinho, na “última parte” do espetáculo, traz serenidade, em contraponto complementar aos sons de choques de madeira-ferro-parafuso-trava, da “primeira parte”. A palavra falada e cantada conduz o espectador a um tempo mais embrionário.


O tempo da jornada

Nessa comemoração de uma década e meia de trajetória da Multifoco Companhia de Teatro, é interessante que essa nova montagem coloque o tempo em cena. É revelado, também, um tempo de jornada de artistas trabalhando juntos.

Nesse sentido, a primeira configuração da parede que se desdobra em inúmeras formas ao longo do espetáculo é simbólica: ela começa como uma folha no chão, bidimensional. É preciso levantá-la e montá-la coletivamente para que se sustente e sustente, posteriormente, os corpos das atrizes sobre a estrutura. Esse é o trabalho de uma companhia, seja de dança, de circo, ou de teatro: pesquisar e experimentar, ao longo do tempo, métodos para levantar seus sonhos. E é imperativo um trabalho coletivo.

Quando a parede ainda é uma folha no chão, com o público entrando, Clarissa, Viviane e Bárbara perguntam a alguns espectadores sobre suas infâncias e seus sonhos de infância. Isso, necessariamente, cria um espelho com a infância da Multifoco e sua trajetória de debutante atual.

Cabe ainda, prestar atenção no figurino (Flavio Souza) que, além das belas sobreposições em tons outonais (vinho, verde, mostarda, marinho, marrom), traz uma referência ao palhaço, nas botinas aparentes sob calças “pescando siri”. Bom atrito entre tradicional e contemporâneo.

“Alma” tem, ainda, duas semanas de temporada no Futuros, bem como outra peça da Multifoco, “Esperando”. E outros dois espetáculos (“Elefante” e “Café da manhã”) tem apenas uma semana para serem conferidos. Não percam.

Ficha Técnica

Intérpretes: Bárbara Abi-Rihan, Clarissa Menezes e Viviane Pereira

Dramaturgia: Ayana Dias e Ricardo Rocha

Direção, Cenografia, Iluminação: Ricardo Rocha

Diretor Assistente: Diogo Nunes

Figurinos: Flavio Souza

Direção Musical e composição: Vinícius Mousinho

Preparação Corporal e Direção de Movimento: Palu Felipe

Produção Executiva: Fernanda Xavier e Halyson Félix

Direção de produção: Multifoco Produções Culturais

Assessoria: Marrom Glacê Comunicação

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