Tomar outra época e outro lugar histórico como base para uma obra artística nunca tem como único objetivo discutir apenas aquele tempo e espaço, mas criar uma analogia para pensar sua contemporaneidade. No Teatro Poeira, está em cartaz um espetáculo que parte da história, de certa forma conhecida, da menina Helen Keller (1880-1968) e de sua professora, Anne Sullivan (1866-1936), ambas nascidas nos Estados Unidos.
Gesto e trauma
Helen Keller passou 19 meses de vida com visão e audição e, então, uma doença afetou integralmente ambas as funções. Por mais que “o ver e o ouvir” não fossem exercidos com a consciência que um adulto teria, há uma perda, aquele corpo deixou de ver e ouvir e isso é um trauma, é uma descida em outra dimensão do mundo material, uma escuridão e um silêncio outorgados. Como nosso mundo estabelece padrões nos quais a massa deve se encaixar, é muito difícil entender os códigos de quem não tem a possibilidade de se comunicar pela visão e audição porque é difícil se permitir entrar nos códigos alheios: o corpo precisa mudar.
No caso de Helen e Anne, há uma identificação: Anne experienciou a quase cegueira e o abandono. Há uma disponibilidade de outra ordem para aquele corpo que perdeu a visão e a audição. É nesse terreno que o tema escolhido pelos Buriti deságua na matéria trabalhada em cena. O gesto. Nessa encruzilhada de dança e teatro, o corpo impera e é o meio onde tudo pode acontecer. O gesto pelo qual opera o acontecimento cênico dialoga diretamente com o método de Anne Sulivan, qual seja, uma disponibilidade para entrar nos códigos de Helen por meio do gesto. Não adiantaria impor gestos do mundo padrão, era preciso entrar em negociação com aquele corpo traumatizado.
Em cena, Os Buriti trabalham, logicamente, o gestual das mãos (já bastante explorado pelas versões cinematográficas dessa história), mas trazem a relação gestual para as dimensões que a cena teatral pede. No cinema, a mão pode ser focalizada e ter muita potência, é um recurso bastante realista, visto que, na vida real, professora e aluna tinham nas mãos o principal veículo de comunicação. No teatro, é interessante ver como a encenação de Eliana Carneiro vai espacializando essa troca entre as duas. Os braços vão sendo engajados, seguidos do tronco, para expandir em pernas e pés.

O silêncio
Na entrada do público, apenas um corpo ao chão, coberto por um tecido plástico transparente com dobras e contorções. Casulo? Útero? Membrana do tímpano ou da retina? O espectador começa a se confrontar com a materialidade daquela primeira divisão entre corpo e mundo que a cena propõe (que se intensifica com os ruídos que vão aumentando gradativamente). Ao longo do espetáculo, outros materiais do cenário de Rodrigo Lélis darão concretude para essa divisão: uma mala transparente, na qual está engaiolada uma boneca que lembra a própria Helen; um paralelepípedo que serve de mesa e de jaula para as performers.
A iluminação de Camilo Soudant dá continuidade a essas membranas, trazendo recortes muito precisos no espaço, como um corredor que delimita a travessia de Camila Guerra pela cena, como uma faixa fina de luz que recorta exatamente um olho de Tainá Baldez e um olho de Renata Rezende, como o fio de luz dentro das “gaiolas”, que não apenas ilumina a boneca e as performers, como evidencia as arestas das estruturas que aprisionam as personagens.
Todas essas paredes e membranas parecem um conceito redimensionado em cena, parecem falar de proteção e, ao mesmo tempo, de exclusão e silenciamento.
O depois
Nessa cena inicial, em que Naira Carneiro está coberta pela membrana transparente, seu corpo, contorcido no chão, vai ganhando movimentos sutis, enquanto a membrana plástica vai ganhando ar e se tornando uma esfera inflada. Esse corpo retorcido sobre si vai ser explorado nessa primeira parte do espetáculo no plano baixo, preferencialmente. Isso cria um contraponto visual com a presença de Tainá Baldez, prioritariamente em pé.
O grande orgulho da tradição metafísica é a figura do homem em pé. Ele simboliza a hierarquia da razão sobre as emoções do peito, sobre os instintos do baixo ventre e sobre a sujeira do pé. Quando Naira e Tainá/Camila entram em contato, esse contraste está muito claro: a professora tem a razão e a criança surdocega está em estado larvário, incompreensível para esse espaço fora das membranas protetoras.
O trabalho de composição de personagem de Naira Carneiro ajuda na transição entre o plano baixo e a conquista do espaço total, isso quer dizer que a performer trabalha tanto as abstrações da dança contemporânea, quanto uma linguagem mais realista de composição de personagem teatral. Essa junção constrói uma trajetória física para Helen Keller das pequenas contorções no chão à expansão dos membros em todos os planos, chegando a saltos e giros com os pés fora do linóleo na “cena da água”, que vou mencionar a seguir.
Há uma passagem-chave na relação entre Helen e Anne que foi bem trabalhada, no cinema, por uma das maiores atrizes dessa arte, qual seja, Ane Bancroft. Helen consegue expressar vocalmente a palavra “água”, quando entra em contato físico com a matéria da água. É uma espécie de cena de nascimento. No filme, Bancroft, fazendo jorrar água de um poço, molha as mãos da atriz Patty Duke, que coloca as próprias mãos sobre a cabeça de Bancroft para que esta faça o gesto de “sim”, confirmando esse nascimento para uma nova dimensão.
Em “Depois do silêncio”, a encenação propõe uma expansão do acontecimento, necessária ao teatro. A água se presentifica de forma bem mais material. O nascimento fica potencializado porque a água é o ambiente necessário para a “origem”. Não detalho, aqui, os procedimentos para que o leitor seja impactado pela concretude da cena. O título do espetáculo fala de ausência de som/voz e fala de passagem de tempo e de transformação. Aqui é o início do “depois”.

Depois do silêncio
Se, na maior parte da cena, as projeções priorizam as retas e formas geométricas simples e precisas, em dado momento a rotunda é tomada por uma projeção de linhas curvas que remetem às ondas sonoras. Não há apenas divisão e prisão, mas movimento e transformação.
Nesse sentido, a presença de Renata Rezende é fundamental. Ela consegue interferir na relação entre Helen e Anne, propondo uma abertura no que poderia ter ficado fechado num mundo de personagens. Naira passa a não ser conduzida apenas por Tainá, mas, também, por Renata. É a contemporaneidade como protagonista.
O corpo de Renata é atravessado por palavras projetadas e, por fim, ela está no centro da rotunda, suspensa sobre um cubo. Ali, vemos a dança de seu corpo e ouvimos música produzida (ao que me parece) com sua voz. A trilha sonora de Diogo Vanelli começa na cacofonia dos ruídos cotidianos, passando por abstrações eletrônicas e termina dando voz ao que foi silenciado.
Vão ao Teatro Poeira assistir à cia Os Buriti.
FichaTécnica
Direção: Eliana Carneiro
Direção Artística e Coreografias: Eliana Carneiro
Intérpretes Criadoras: Camila Guerra, Naira Carneiro, Renata Rezende, Tainá Baldez
Roteiro e Dramaturgia: O Grupo
Trilha Sonora Original: Diogo Vanelli
Desenho de Luz: Camilo Soudant
Cenografia: Rodrigo Lélis
Artista Gráfico e Vídeo Arte: Gabriel Guirá
Design: Gilberto Filho
Figurinos: O Grupo
Boneca: Neuza Freire
Fotos: Diego Bresani
Produção Executiva: Thiago Miyamoto
Assessoria de Imprensa: Paula Catunda e Catharina Rocha
Mídias sociais: Rafael Teixeira
Direção de Produção: Naira Carneiro | Os Buriti Produções Artísticas
Realização: Cia Os Buriti