Não sentir não é crime. Fingir também não — o que explica muita coisa. O problema é fingir bem demais. Com educação, constância e aquela delicadeza blasé que confunde. Afeto hoje virou habilidade social. Aprende-se cedo, pratica-se muito e raramente se assume.
Fingir afeto é socialmente aceito, quase elegante. Distribui-se como panfleto em esquina movimentada: um sorriso, um bom dia constante, uma presença pontual. Ninguém lê as letras miúdas.
Quem age como quem fica costuma ser levado a sério. Não por romantismo, mas por lógica. Emoção também obedece à matemática básica: repetição soma. Presença soma. Rotina soma. E ninguém desconfia de uma soma que dá sempre o mesmo resultado. A vida, prática como sempre, entende o recado. O outro também. Se adapta. Afinal, parecia sólido.
Há pessoas que atravessam relações com uma leveza admirável nelas mesmas. Andam como se seus gestos fossem neutros, como se presença fosse um objeto descartável e carinho, um acessório que não deixa marca.
Mas deixa.
Presença deixa. Sempre deixa. Mesmo quando sai pela porta dos fundos.
O problema não é a ausência de sentimento, é a encenação dele. É aquecer um espaço que depois será deixado ao frio. É entrar no território emocional de alguém sem a mínima intenção de permanecer. Não se diz “eu te amo”, mas se age como se dissesse. Não se promete nada, mas se toma tudo: o tempo, a atenção, o presente. O futuro, claro, fica para depois. Sempre fica.
Convém lembrar o óbvio: intimidade não é ensaio geral. Cuidado não é passatempo. Pessoas não são salas de espera enquanto alguém decide se entra ou se perde o voo. Existe educação até na desistência. Existe uma ética discreta em saber sair cedo. Em dizer “não posso” antes que o outro compre cortinas para uma casa que nunca foi combinada.
No fim, ninguém está pedindo epopeias. Nem promessas eternas tampouco planos quinquenais afetivos. Pede-se apenas honestidade básica. A capacidade de não ocupar um espaço que não se pretende habitar. Porque fingir permanência e sair com naturalidade não é maturidade emocional. É só má educação sentimental.
E convenhamos: isso não deveria passar por elegância.
Até o próximo texto!
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