Um dos pensadores de quem mais as redes sociais tem se apropriado, na última década, é Maquiavel. Tanto progressistas, quanto conservadores, encontram inspiração em suas frases categóricas. Maquiavel escreveu uma comédia teatral, montada até hoje, na qual destrinchou dramaturgicamente seu pensamento político, já explicitado em O Príncipe (?1513). Nessa peça, A Mandrágora (entre 1514 e 1518), o leitor/expectador vê uma menina virtuosa ser seduzida por um jovem ambicioso, na cidade de Florença. Na camada mais superficial, qual seja, a da fábula, a menina é praticamente estuprada. Com um olhar mais aprofundado, entretanto, é possível reconhecer a estrutura abstrata na qual se apoia sua teoria a respeito da Fortuna.
Deusa romana, a Fortuna, recorrentemente representada por uma figura feminina com um chifre da abundância (a cornucópia) e/ou com uma roda, parece ter um temperamento caprichoso que pode lançar, tanto a riqueza e a fertilidade, quanto a miséria e o infortúnio. Tal é a instabilidade dessa figura, que ela, muitas vezes, aparece com os olhos vendados. A personagem maquiavélica de A Mandrágora, portanto, não é uma simples menina inocente, mas a própria cidade de Florença e a maneira mais eficaz de manter o poder dos Médicis nessa cidade é seduzir a Fortuna por meio do desejo e da ambição.
Em 1937, Carl Orff estreia sua cantata Carmina Burana, inspirada por textos medievais e, na qual, a relação entre o vulnerável ser humano e a poderosa Fortuna está em destaque. Encontra-se em cartaz no Theatro Municipal do Rio de Janeiro uma montagem da obra de Orff, cuja encenação de Bruno Fernandes e Mateus Dutra traz grande visualidade e dança. Vejamos alguns destaques, sobretudo no que diz respeito ao trabalho de corpo, que é a proposta desta coluna.

Bidimensionalidade medieval e assimetria contemporânea
Uma qualidade da imagem medieval é a bidimensionalidade. Antes do volume e da diferença enfatizada entre figura e fundo, do Renascimento, as representações humanas são chapadas. Nesse sentido, é bem sucedido o desfile de bailarinos de perfil, como cartas do tarô, no proscênio. Os corpos de perfil remetem imediatamente às iluminuras medievais e, estas, remetem aos poemas satíricos nos quais o compositor se inspirou para a obra. Esses corpos bidimensionalizados sobem em uma plataforma e se jogam dentro de um grande moedor de carne.
Se houvesse apenas esse momento, já seria de grande efeito. Porém, a encenação repete o desfile no epílogo (novamente com a área “Fortuna, imperatriz do mundo”) e o efeito se potencializa: agora não são mais cartas de perfil, mas corpos contemporâneos preenchidos de vícios atuais: consumismo, vaidade nas redes sociais, alcoolismo, até as injeções de botox e mounjaro entram no desfile. Cada um desses corpos cai no grande moedor, enquanto o diabo de Tomás Santa Rosa gira a manivela com escárnio. Um detalhe: os bailarinos que caem verticalmente, bem eretos, dão um efeito melhor do que aqueles que dobram os joelhos para se jogar no moedor.

Cascas, películas, luz e sombra
O figurino de Desirée Bastos acompanha os conceitos que parecem vir da direção, dando forma às referências. No primeiro ato, os corpos de bailarinos e cantores são transformados nas criaturas do Jardim das Delícias, de Bosch (pintor contemporâneo de Maquiavel). Aliás, esse famoso tríptico – celebridade do Museu do Prado – parece estar presente em vários momentos ao longo da encenação. Tanto a criação do mundo monocromática no cenário de Vinicius Lugon e nos figurinos de trapos cinza-preto, quanto, de certa forma, no inferno escuro, preenchido de instrumentos musicais.
É na referência ao paraíso, entretanto, que a pintura do mestre holandês mais se evidencia. Os chapéus do coro de cantores remetem às formas meio vegetais, meio de órgãos genitais, presentes na pintura. A bailarina solista, Manuela Roçado, usa uma esfera de filó, estruturada em “casa-de-abelha”, no meio do tronco que lhe proporciona uma silhueta bastante interessante e parecida com os corpos da tela, misturados a películas orgânicas. O prazer que exala da dança de Roçado joga luz para essas películas que nos falam da efemeridade, tanto do mito da Fortuna, quanto da tela de Bosch.
Outro detalhe de indumentária que chama a atenção é a fumaça que sai dos figurinos de Fernanda Rodrigues e Luiza Carpinteiro, na alegoria da Noite. A fumaça branca compõe com o tecido transparente que representa nuvens no corpo da soprano Michele Menezes, cuja presença vocal e plástica é marcante. O dispositivo da fumaça dá uma leveza dialética com a força das pernas de Fernanda e Luiza, que se sustentam na ponta por um longo tempo.

Ostinato, a repetição, o popular
Na área referente à taberna, Bruno Fernandes e Mateus Dutra apostam suas fichas nas danças contemporâneas e populares: passinho, vogue, samba no pé, street, hiphop. Isso resulta em uma espécie de Studio 54 atual e dá certo, sobretudo por dois elementos: o popular e a repetição. Uma das bases da música de Carmina Burana é o ostinato, quer dizer, uma repetição rítmica que torna a música acessível, assim como acontece, por exemplo, no Bolero, de Ravel, que antecede a obra de Orff em uma década apenas. Não são obras difíceis e, portanto, tem um caráter popular, que se contrapõem às estruturas contínuas e complexas das obras clássicas.
Essa é a razão pela qual não é chocante a escolha pela referência pop/disco/vogue feita pela encenação: toda a música pop é baseada nessas repetições. Todos os artistas estão muito bem em cena, se apropriando ironicamente do terreno elitizado da ópera. Destaco a relação da encenação com o corpo de Kapu Araújo: em dois momentos em que instrumentos e cantores produzem uma suspensão da música, o dançarino de break dá um salto em cambré que dura alguns segundos no ar. Forma e conteúdo em harmonia.
Destaco, ainda, no início do segundo ato, a justaposição dos corpos do cantor solista Santiago Villalba e do solista bailarino Glayson Mendes. Duas vivências distintas escritas no corpo que, somadas à presença exuberante de Antonella Pareschi, estabelecem um diálogo rico e interessante. Como essa é uma coluna sobre dança, destaco a precisão do gesto e as finalizações de movimento de Glayson Mendes.
O conjunto de atores (Plínio Morais, Tomás Santa Rosa, Evandro Mattei e Thiago Magalhães) merece, igualmente, uma menção porque executa trabalho corporal em consonância com a linguagem geral estabelecida pelos encenadores, misturando-se perfeitamente aos bailarinos.
É sempre importante reincorporar os símbolos culturais à origem transgressora e humana da arte. Digo isso porque Carmina Burana, durante algum tempo, esteve relacionada ao nazismo. Felizmente, hoje podemos colocar corpos queer e livres em cena ao som dessa obra de Carl Orff porque os artistas tomaram para si a luta de se apropriar de obras que foram desvirtuadas simbolicamente. Parece que a Fortuna está a favor dessa liberdade. Aproveitemos. Oh! Fortuna!
Ficha Técnica
Concepção, coreografia e direção cênica: Bruno Fernandes e Mateus Dutra
Direção musical e regência: Victor Hugo Toro
Solistas Balé do Theatro Municipal: Tiago Tononi, Glayson Mendes, Manuela Roçado, Tabata Salles
Bailarinos: Marcos Vinícius, Marcelo Costa, Franklin Samuel, Bruno Bertoro, Nino Lopes, Henry Silva, Leandro Batista, Luan Ferreira, Gabriel Diniz, Ander Carvalho, Fernanda Rodrigues, Marta Batista, Ana Clara Lyra, Thatyanna Oliveira, Pâmela Philigret, Luiza Carpinteiro, Thalia Veloso, Manoela Leopoldino
Vogue : Rothyer Kali, Alynah Revlon Cabal
Pole dance: Tamhara Barcellos
Burlesco: Miss Morgana
Drag queen: Shannon Skarllet, Maybe Love
Passista: Thays Busson
Break dance: Kapu Araújo
Circense: Alice Amarante
Passinho: Gabriel Henrique
Solistas cantores: Michele Menezes, Loren Vandal, Guilherme Moreira, Herbert Campos, Santiago Villalba e Johnny França
Atores: Tomás Santa Rosa, Thiago Magalhães, Evandro Mattei, Plínio Morais
Figurino: Desirée Bastos
Direção de Arte: Matheus Simões
Cenário: Vinicius Lugon
Iluminação: Jonas Soares
Design gráfico: Carla Marins
Adereços:Renan Garcia, Taísa Magalhães e Penha Maria Lima, Raquel de Loiola, Lorena Couto, Nalanda Rodrigues, Jasmine Lara
Visagismo: Antônio Ulysses
Fotos: Fillipe Aguiar