Quando estive, em janeiro, na exposição "Pinturas Nômades", de Beatriz Milhazes na Casa Roberto Marinho, passei pelo salão que acolhe a obra "Corumbê" e pensei que valeria uma cena aquela grande sala com vitrais feitos pela artista. A ideia é tão clara que, menos de dois meses mais tarde, está acontecendo uma cena dançante nesse espaço, qual seja, as "Paisagens Coreográficas" de Márcia Milhazes.
Colagens
A materialidade do espaço da cena, para qualquer espetáculo, é fundamental. Começo, portanto, pelo espaço. Trata-se da Casa Roberto Marinho. Um salão da casa neocolonial com janelas em arco românico e esvaziado de móveis. Para o vidro, Milhazes criou adesivos que configuram vitrais. A simetria das janelas é evidenciada pela padronização dos vitrais: há dois padrões que são repetidos nas cinco janelas. Porém, pela multiplicidade de formas e cores, resultam na quebra com certa monotonia visual do arco, na simetria da arquitetura.
O Modernismo reinventou os vitrais góticos com novas geometrias. Na obra de Milhazes, ao gesto Moderno é adicionada uma latinidade nas formas e cores. Não se trata do cubismo de um século atrás, mas da exuberância sem complexo da natureza brasileira. Se o vitral gótico proporciona um banho de cores nos corpos dos fiéis da catedral, por meio do encontro do sol com o vidro colorido; aqui, os vitrais das Milhazes banham o chão e o piano.
Nesse contexto, Marcia Milhazes coloca em cena uma bailarina (Maria Alice Poppe) e uma pianista (Yuka Shimizu), dançando e tocando Villa-Lobos e Ernesto Nazareth. O nomadismo da obra plástica e a paisagem da obra coreográfica falam de movimento e diversidade. Todos os elementos do espetáculo trazem a justaposição entre a (re)descoberta do Brasil e a tradição europeia. São colagens radicais de muitos elementos diversos.

Yuka Shimizu. Foto: Sérgio Alberto
Os compositores em questão misturam a vivência com o popular dos fins do século XIX, uma formação musical tradicional eurocentrada e, no caso de Nazareth, a prática de mercado nos bailes do começo do século XX. Essa colagem de referências, extremamente Modernista, está em harmonia com todos os elementos plásticos e corporais.
No âmbito da expressão dançante, uma proposta recorrente em muitos criadores da dança Moderna é a expansão do corpo do bailarino. O gesto parece querer atravessar a sala de apresentação. Isso não se faz, obviamente, sem seu contrário, a contração. Modernismo é o encontro dos contrários. Maria Alice Poppe conduz braços, pés, dedos, até o limite, como indicando as retas que formam o salão da mansão. Quando o espectador espera apenas expansão, ela se curva em grandes extensões de coluna, quebrando com a verticalidade humana. O corpo é um elemento arquitetônico e, nessa luta das formas, um elemento espacial indica o outro. Estamos no terreno das formas, ainda que dialogando com sua desconstrução.
O figurino púrpura metálico de Poppe, em contraste com o brocado/adamascado amarelo de Yuka, dialoga plasticamente com os choques de formas e cores dos vitrais na sala neutra. Dobras sempre revelam sombras e reflexos e as dobras da superfície metalizada do vestido de Poppe oferecem sombras que dançam com a coreografia da bailarina, bem como refletem sutilmente cores da obra de Beatriz Milhazes. O amarelo de Yuka produz menos reflexo, por outro lado, a pianista senta-se sob a luz do sol colorida pela projeção dos vitrais, criando efeitos sobre a pele dos ombros e braços nus.
Guernica e Sema
Diante dos vitrais, na parede oposta do salão, há o painel “Waving Flowers”, também de Beatriz Milhazes. A obra, toda em tons de cinza e branco, serve como fundo para a figura de Poppe, que desenvolve uma travessia em sua direção lateral, e não frontal, como se uma parede invisível retivesse seu avanço para o centro do salão. Os agudos e graves tristíssimos do “Prelúdio” das “Bachianas Brasileiras nª4” estão justapostos aos gestos coreográficos que emolduram o rosto e pés que se deslocam em mínimos passos, remetendo à contenção.
Na justaposição de gesto, música e imagem, o painel acaba por lembrar “Guernica”, de Picasso (pintada, inclusive no mesmo período da composição de Villa-Lobos). O título da obra musical já nos fala de uma multiplicidade estilística: Bach e a brasilidade, proposta claramente Modernista. Os vitrais extremamente coloridos, de frente ao painel cinza, emoldurando a figura roxa metalizada de Poppe e o piano de cauda negro Steinway com Yuka em vestido amarelo, completam o quadro.
Justaposta a essa melancolia, a festa. A música seguinte, qual seja, “Fon Fon”, de Nazareth, é extremamente festiva. Poppe “quebra” com a parede invisível que a obrigava a andar na lateral e ocupa alegremente o centro, trazendo o giro como leitmotiv. Se antes as mãos emolduravam o rosto, agora elas revelam certo descontrole, que logicamente requer técnica para dar a impressão de falta de contenção. Todo esse jogo desemboca numa espécie de “sema”, um movimento giratório dos dervixes. A sutileza final é que os grandes compositores se calam e escutamos apenas a respiração da bailarina diante do olhar da pianista.
O segundo antes do toque
Um dos “momentos pregnantes” mais importantes é o lento encontro entre a brasileira Maria Alice Poppe e a japonesa Yuka Shimizu. O corpo que dança desvela as pernas, o corpo que produz a música desvela os braços. No último segundo antes que os corpos se toquem pelas mãos, há uma foto mental no espectador: ali está a colagem dos ofícios, dos corpos, das nacionalidades, das arquiteturas.
Na última década temos lido muitas críticas aos termos "moderno" e “modernista”, muitas vezes vindo dos estudos decoloniais. Nosso Modernismo é, de fato, contraditório, mas o que no processo histórico de nosso país não tem a contradição como matéria prima? Há vontade revolucionária combinada com elitismo o tempo todo. O contemporâneo pode trabalhar sobre uma pulverização de ângulos e temas porque o Modernista fez um trabalho minucioso de desconstrução da forma. E, desconstruindo, estudava a fundo a forma. O Moderno tem substância, sabe contra o que está obrando.
Esse espetáculo acontece às 15hs. No mesmo dia, às 17hs os bailarinos Ana Amélia Vianna e Domenico Salvatore, da Marcia Milhazes Companhia de Dança, também se apresentam, com outras composições de Villa-Lobos, Nazareth e Mignone.
Não percam essas experiências. Ainda há apresentação nos dias 10, 12, 28 e 29 de março.
Ficha Técnica
Paisagens coreográficas - Espaço Corumbê- Exposição Pinturas Nômades - Beatriz Milhazes - Casa Roberto Marinho
Direção artística, concepção e coreografia- Marcia Milhazes
Intérpretes- Ana Amélia Vianna, Domenico Salvatore e Maria Alice Poppe (artista convidada)
Pianista - Yuka Shimizu
Direção musical e repertório - Marcia Milhazes
Figurino criação - Marcia Milhazes
Costureiras - Eunice Muniz e Gil
Fotos - Denise Mendes