Todo ano, quando o calendário se aproxima do oito de março, brotam mensagens delicadas, descontos em lojas de cosméticos e um súbito entusiasmo por frases motivacionais escritas em letras cursivas e delicadas.
Mas o oito de março não nasceu para ser delicado. Nasceu áspero.
Nasceu de mulheres que trabalhavam até a exaustão, que recebiam menos que os homens, que não votavam, que não podiam decidir sobre o próprio dinheiro, o próprio corpo, o próprio destino. Nasceu de greves, de prisões, de incêndios, de vozes que foram chamadas de histéricas antes de serem chamadas de históricas.
As sufragistas — essas senhoras que hoje aparecem em fotos sépia e parecem inofensivas — foram consideradas escandalosas. Eram acusadas de destruir a família, de atentar contra a moral, de querer inverter a ordem natural das coisas. Curioso como a “ordem natural” quase sempre coincide com a manutenção do privilégio de alguém.
O feminismo, palavra que ainda causa arrepios em certos ouvidos, não surgiu de um capricho ideológico. Surgiu de uma ausência concreta de direitos. É importante repetir isso, porque há uma tentativa insistente de transformar o feminismo numa caricatura: mulheres raivosas que odeiam homens e queimam sutiãs em praça pública. Enquanto isso, o essencial — a desigualdade estrutural — permanece convenientemente fora de foco.
O patriarcado não é um vilão de capa preta. Ele é mais sofisticado. Está nas pequenas decisões cotidianas que parecem banais: quem interrompe quem numa reunião; quem ganha mais pelo mesmo trabalho; quem é julgado pela roupa que veste e quem é chamada de “difícil” quando exerce autoridade.
Estamos falando de um sistema político. Porque quando se discute licença-maternidade, creches públicas, direitos reprodutivos, combate à violência doméstica, não estamos falando de sentimentalismo mas sim de orçamento, de leis, de prioridades de Estado. Estamos falando de poder.
Há quem diga que o feminismo já cumpriu sua missão. Afinal, votamos, trabalhamos, ocupamos universidades, dirigimos. Como se direitos fossem conquistas irreversíveis, gravadas em mármore. A história, infelizmente, mostra o contrário. Direitos podem ser ampliados, mas também podem ser corroídos lentamente, por discursos que relativizam violências, que romantizam submissões, que tratam retrocessos como tradição.
A misoginia contemporânea raramente se apresenta de forma explícita. Ela se mascara de piada, de opinião, de “liberdade de expressão”. Está no comentário sobre a aparência de uma política antes de qualquer análise sobre suas propostas. Está na facilidade com que se questiona a competência de uma mulher em posição de liderança. Está na rapidez com que se duvida da palavra de uma vítima. Está na naturalidade em que se justifica uma violação pela a roupa que a violentada estava usando: “Saiu de shortinho assim, pediu, né?”
E, paradoxalmente, vivemos um tempo em que as mulheres falam mais do que nunca. Escrevem, denunciam, ocupam espaços. A internet virou praça pública, tribunal, confessionário. É um avanço inegável. Mas também é um campo de batalha. A cada voz que se levanta, surge um coro disposto a silenciá-la.
Talvez por isso o feminismo ainda seja necessário: porque igualdade não é um ponto de chegada, é uma vigilância permanente.
Há quem tema que a luta por direitos femininos exclua os homens. Como se igualdade fosse um jogo de soma zero. Não é. Quando uma mulher tem autonomia financeira, quando pode decidir se quer ou não ser mãe, quando pode caminhar sem medo, a sociedade inteira respira melhor. Inclusive os homens, que também são prisioneiros de um modelo rígido de masculinidade que lhes proíbe fragilidades e impõe durezas.
Oito de março não é sobre superioridade feminina. É sobre equidade. Não é sobre guerra dos sexos. É sobre justiça social.
E justiça social nunca foi confortável.
Ela exige revisão de privilégios, redistribuição de oportunidades, reeducação cultural. Exige que homens escutem mais e interrompam menos. Exige que mulheres deixem de se culpar por ambições legítimas. Exige que o Estado reconheça que violência doméstica não é assunto privado, mas questão pública.
É curioso perceber como ainda se tenta esvaziar o sentido político da data. Oferecem flores para evitar debates. Distribuem chocolates para evitar estatísticas. Mas o oito de março não pede bombons. Pede memória.
Memória das que vieram antes e apanharam para que hoje possamos votar. Memória das que ainda apanham — literal e simbolicamente — por ousarem existir fora do script esperado. Memória das que não sobreviveram.
Memória de mulheres como Maria da Penha, que sobreviveu a duas tentativas de homicídio do próprio marido e transformou a violência sofrida em marco legal. Memória de Eloá Pimentel, morta aos quinze anos pelo ex-namorado após dias de cárcere privado televisionado. Memória de Marielle Franco, assassinada por ocupar a política sendo mulher, negra e combativa.
Não queremos presentes. Queremos viver.
Viver para sair de um relacionamento abusivo com segurança. Viver para denunciar violência sem sermos desacreditadas. Viver para voltar para casa sem transformar cada trajeto em cálculo de risco.
Enquanto mulheres são assassinadas por parceiros que confundem posse com amor, qualquer homenagem soa deslocada. Enquanto há quem precise escolher entre permanecer sob ameaça ou enfrentar a precariedade sozinha, “parabéns pelo seu dia” parece pouco.
Ser feminista, no fundo, é um gesto de lucidez. É reconhecer que a desigualdade não é natural, é construída. E, se foi construída, pode ser desmontada.
Não é um convite ao confronto permanente, mas à consciência permanente.
Que o oito de março seja menos perfume e mais reflexão. Menos slogan e mais política pública. Menos celebração vazia e mais compromisso cotidiano.
Porque direitos não florescem sozinhos. Eles precisam ser cultivados — e defendidos — todos os dias do ano.
Caros leitores, perdão por tanta seriedade. Mas quando o assunto é a vida das mulheres, a leveza seria omissão.
Até o próximo texto!
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