Dia desses, eu estava fazendo uma lista de compras e me veio um pensamento: a lista de compras é o retrato mais honesto da nossa semana. Não do que sonhamos ser, mas do que realmente somos. Torradas, papel higiênico, absorvente. Nada mais realista do que isso. É como se a vida nos lembrasse: antes de buscar sentido, é preciso comprar o leite.
Às vezes, me pego relendo listas antigas, encontradas por acaso no fundo de bolsas, em cantos de gaveta. A letra apressada, os itens mal rabiscados - “tomate, queijo, shampoo, paciência.” Sim, às vezes a gente escreve “paciência” no meio das compras. Meio brincando, meio querendo.
A lista de compras, na verdade, esconde desejos mais profundos do que parece. Quando você escreve “chocolate”, pode estar pedindo colo. Quando anota “vela aromática”, talvez esteja desejando paz. “Vinho” às vezes é sinônimo de “quero esquecer um pouco”, e “frutas” pode ser o novo pacto de amor-próprio firmado numa segunda-feira qualquer.
Nunca escrevemos o que realmente sentimos. A lista é só um disfarce. Atrás do “filme plástico” pode haver uma vontade enorme de se proteger. Debaixo do “amaciante” mora um desejo de suavizar as durezas do dia. E o “brócolis” pode ser o lembrete de que ainda dá tempo de se cuidar - mesmo que você acabe comendo lasanha congelada de novo.
Somos assim: escrevemos o necessário e carregamos o invisível. Enchemos carrinhos com coisas palpáveis e saímos do supermercado com sacolas e silêncios. O que falta, de verdade, não dá pra comprar.
E talvez seja por isso que as listas nunca acabam. Porque a vida também é feita de reposições. E de ausências. E de vontades não ditas que ninguém lê, mas que pesam tanto quanto o pacote de arroz.
Até o próximo texto!
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