Tem gente que acorda com café no corpo e azedume na alma. Nem o sol escaparia de um comentário atravessado. Sabe o tipo? Aquele ser humano que mastiga limão com a casca e ainda reclama que estava doce demais.
Amargura é um troço curioso. Não nasce do nada, claro. Vem de frustrações engarrafadas, de sonhos que mofaram no armário, de expectativas jogadas no lixo reciclável esperando que alguém transformasse em poesia mas que só viraram compostagem emocional.
O problema é quando essa amargura vira estilo de vida. Gente que não vive, cultiva ressentimento como quem cultiva samambaia na varanda: com zelo, frequência e uma leve obsessão.
É o colega que detesta segunda-feira, mas odeia a sexta porque “tá tudo cheio”. É a tia que vê defeito no casamento alheio, mas nunca conseguiu fazer durar nem um brunch a dois. É o cidadão que se orgulha de não sorrir à toa, como se bom humor fosse crime de responsabilidade civil.
E o pior? Gente amarga tem um radar incrível pra azucrinar quem está tentando ser feliz.
Basta você dizer que está bem, que vem um olhar enviesado e um “Ah, aproveita enquanto dura”. Amado, não precisa durar, só precisa ser vivido! Mas vai explicar isso pra quem anda usando vinagre como perfume?
A verdade é que a amargura tem uma autoestima inflada. Se acha sensatez. Se acha maturidade. Se acha “pés no chão”. Mas, na real, é só mágoa mal curada que virou filosofia de vida: um ranço que não cicatrizou, só se organizou em frases prontas e julgamentos em caixa alta.
Seja leve, sim. Mas não raso. Profundidade não é sinônimo de acidez. Dá pra ser intenso e ainda assim sorrir com todos os dentes (inclusive os do juízo). Dá pra ter cicatrizes sem usar cada uma delas como justificativa pra jogar sombra no mundo inteiro.
Porque, no fim, quem amarga a vida dos outros já desistiu da própria há muito tempo e tem preguiça de admitir. E, francamente, ninguém tem tempo pra isso. A vida já é curta demais pra gente se ocupar de quem tempera tudo com ressentimento e ainda acha que é gourmet.
Vai por mim: limão faz bem, mas só quando vira caipirinha.
Até o próximo texto!
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