Parece que pensar virou um luxo nos dias de hoje. A mente sintética está em tudo: sugere livros, escreve textos, corrige erros de português, cria receitas, dá diagnóstico médico, monta o treino e a dieta, dá conselhos duvidosos e ainda organiza agendas. Agora ninguém mais se arrisca a errar. Afinal, por que refletir quando um algoritmo resolve em segundos?
Estamos nos acostumando a terceirizar até os pequenos raciocínios. Memorizar números de telefone, lembrar datas de aniversário, decidir o que cozinhar: tudo pode ser delegado. A eficiência é tanta que o improviso humano, antes tão saboroso, agora parece inconveniente. Erros, tropeços e esquecimentos, antes naturais, hoje são vistos quase como falhas graves.
O mais irônico é que, enquanto a inteligência artificial nos salva de pensar, nos tornamos previsíveis, dependentes e, no fundo, um pouco preguiçosos. O corretor ortográfico arruma todas as frases, os bots respondem mensagens, os algoritmos sugerem respostas a qualquer dúvida. É um mundo ensaiado, coreografado, planejado por linhas de código onde o improviso humano virou raridade.
E ainda assim, ninguém reclama. Pelo contrário, aplaudem. A tecnologia que promete tornar tudo mais fácil nos deixa cada vez menos autores das próprias decisões. As ideias originais são consultadas na internet, as opiniões são “inspiradas” por resumos e sugestões automáticas e até a criatividade virou questão de pedir licença a um sistema.
Mas a moral é clara: se depender do cérebro eletrônico para tudo, é melhor ensinar a ele a cometer alguns erros. Porque, sem tropeços a vida fica certinha demais. E, convenhamos, nem Gilberto Gil, quando compôs “Cérebro Eletrônico” lá em 1969, poderia imaginar que chegaríamos a esse ponto: rendidos, sem coragem de pensar sozinhos, obedientes ao algoritmo, e com a audácia de chamar isso de progresso.
Até o próximo texto!
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