Vivemos como se a vida fosse um rascunho interminável. Guardamos os melhores parágrafos para quando tivermos mais calma, mais dinheiro, mais coragem. Enquanto isso, preenchemos as páginas com burocracias e compromissos que, no futuro, ninguém vai se lembrar.
Adiar tornou-se nosso esporte preferido. Adiamos encontros, palavras, gestos. Deixamos de ligar, de visitar, de escutar. Sempre há algo “mais urgente” e tudo fica para amanhã, como se a vida obedecesse à nossa agenda. No fundo, sabemos: o que adiamos, muitas vezes, é o que nunca mais volta.
Mas a verdade é cruel: a vida não tem gaveta de espera. Não existe um almoxarifado onde guardamos as experiências que, um dia, iremos retirar embaladinhas para usar. O tempo não estoca. Ele escorre.
E quando percebemos, já deixamos para depois aquela palavra que poderia ter salvado alguém, aquele ato que teria mudado um destino, aquela ousadia que teria reinventado nossa rotina.
Quantas vezes você já disse “quando eu tiver mais dinheiro”, “quando eu tiver mais coragem”, “quando sobrar tempo”? É sempre quando. E, nesse meio-tempo, a vida vai se ocupando de encher nossos bolsos de boletos e a nossa cabeça de desculpas.
Não é que seja errado planejar, esperar o momento certo. Mas às vezes o momento certo nunca chega. E a gente descobre que passou décadas ensaiando uma peça que nunca estreou.
O depois é um lugar que não existe. É apenas uma miragem confortável que nos faz acreditar que o amanhã está garantido. O que temos é hoje, imperfeito, tumultuado, mas pulsando.
Viver é escolher menos adiamentos. É gastar agora a vida que temos, sem medo de desperdiçá-la porque desperdiçar, de fato, é deixá-la esperando em silêncio na prateleira do depois.
Até o próximo texto!
@portal.eurio
https://www.instagram.com/annadominguees/
https://www.wattpad.com/user/AnnaDominguees