Não há dúvidas de que estamos vivendo uma era em que os transtornos mentais, as neuroses e o adoecimento psíquico só aumentam, evidenciando o sofrimento humano diante dos desafios da vida. Estamos falando mais sobre terapia, autocuidado e saúde mental, porém esse movimento ainda é tímido e carregado de desconfianças.
Além disso, não podemos fechar os olhos para o consumo excessivo de medicamentos controlados utilizados para tratar dores emocionais, tanto por adultos quanto por crianças. Tudo isso aponta para uma triste tendência, cada vez mais evidente nos dias atuais: a patologização do viver.
As emoções e os sentimentos, naturais a todo ser humano, passam a ser considerados distúrbios ou transtornos disfuncionais. O sofrer passa a ser um crime, uma negação. Quando, na verdade, sofrer faz parte do curso natural da vida. Precisamos dos desafios e das dificuldades para impulsionar nossas metas e ampliar nosso autoconhecimento.
Lidar com a dor é um desafio para todos. Por isso, é fundamental encarar o sofrimento como um aspecto natural da existência. Claro que alguns terão maior facilidade para vivenciar uma dor, seja ela qual for. Enquanto outros terão um pouco mais de dificuldade. Afinal, nossas experiências de vida influenciam diretamente nossa capacidade de tolerância emocional.
Saber como olhar para essa dor e acolhê-la é a chave para o equilíbrio físico e mental. Já que sofrimento não é sinônimo de doença. Rotular sentimentos e emoções sem o cuidado necessário é uma grande armadilha. Motivo pelo qual a terapia é imprescindível no processo de cuidado emocional, pois permite e promove a escuta ativa, o acolhimento da dor e a expressão genuína dos sentimentos.
Esse desvio comportamental e de pensamento contribui para reduzir a normalização de emoções legítimas, como tristeza, alegria, raiva, dor, angústia e cansaço, entre outras. Com isso, a busca por soluções paliativas também reflete uma elevação no consumo de medicamentos específicos que, em muitos casos, pode gerar impactos expressivos, como dependência, especialmente quando não há indicação adequada e acompanhamento terapêutico.
Além disso, muitos medicamentos estão se tornando símbolos de uma sociedade psiquicamente adoecida. São milhões de caixas de remédios consumidas para dormir, acordar, emagrecer, sorrir, diminuir a ansiedade, melhorar o humor, aumentar a libido, entre outros objetivos.
E um dado chama ainda mais atenção: o número de crianças e jovens fazendo uso regular e contínuo de medicações psiquiátricas aumentou significativamente nos últimos anos.
No entanto, o objetivo não é transformar os medicamentos em vilões. Pelo contrário. Eles são extremamente importantes no tratamento de diversos transtornos e doenças. O problema está no excesso, na automedicação e na tentativa de eliminar qualquer desconforto emocional sem compreender sua origem.
Portanto, a conclusão é que falta leveza e resiliência para enfrentar os desafios cotidianos. Nossos limites precisam ser respeitados, assim como nossas falhas e fragilidades precisam ser reconhecidas. É necessário encarar de frente sentimentos e emoções antes de recorrer a rótulos diagnósticos como resposta imediata à dor.
Além disso, não podemos esquecer que a mente reflete no corpo aquilo que não está bem elaborado emocionalmente. O corpo funciona como um alerta para dores psíquicas que podem ser trabalhadas através do autoconhecimento e de um olhar mais acolhedor capaz de identificar gatilhos emocionais.
Enfim, esse é o caminho mais saudável para evitar o aprisionamento mental e emocional que rotula, limita e, muitas vezes, compromete as relações sociais e a rotina diária.