Coube aos próprios moradores organizar boa parte das iniciativas que hoje movimentam a Rocinha. Guias formam novos profissionais, mototaxistas conduzem visitantes, famílias abrem as lajes para quem deseja ver a favela do alto e projetos comunitários movimentam cultura, esporte e geração de renda. Apenas em janeiro deste ano, mais de 40 mil pessoas visitaram a comunidade, segundo dados do Observatório do Turismo Carioca.
“A Laje do Drone hoje é conhecida mundialmente. As famílias que têm suas lajes conseguem empreender dentro da comunidade”, afirma William de Oliveira, ativista social há mais de 30 anos e diretor de projetos e relações institucionais da Associação de Moradores da Rocinha. A entidade, segundo ele, ajudou a estruturar o sistema que organiza os passeios com guias turísticos profissionais, em parceria com os coordenadores do aplicativo Na Favela Turismo.
Antes da pandemia, a Rocinha contava com apenas duas lajes abertas a visitantes. Hoje são sete, segundo Gilmar Fernandes, guia cadastrado no Ministério do Turismo e morador da comunidade, onde atua há mais de sete anos. Na alta temporada, entre dezembro e março, formam-se filas nas lajes, nos mototáxis e nas apresentações de capoeira.
O dinheiro gasto pelo visitante também circula pela favela. Gilmar cita o caso de uma moradora que passou a vender cocadas, brigadeiros e bolo de aipim em um dos becos. Lanchonetes, bares, artesãos e outros pequenos comerciantes também se beneficiam do movimento.
A organização comunitária, no entanto, é anterior ao crescimento do turismo. A Associação de Moradores mantém uma programação cultural ao longo do ano e iniciativas voltadas à formação e ao atendimento da população. William também preside o Instituto Missão Rocinha, responsável pela Escola Lab, curso gratuito de DJ que reúne alunos de diferentes idades. Ex-alunos já empreendem na área musical.
Essa capacidade de organização também faz parte da relação histórica da Rocinha com a política e com a cobrança por serviços públicos.
Antonio Ferreira de Mello, conhecido como Xaolin, atua como liderança comunitária desde os anos 1970. Participou de mutirões que transformaram valas em canais e barracos de madeira em casas de alvenaria, em uma época marcada pela ameaça de remoção da favela.
“Criamos mutirões para transformar as valas negras em canais. A gente fazia resistência construindo para impedir a remoção”, relembra.
Ex-presidente da associação, Xaolin aponta a chegada do metrô à região como uma das maiores conquistas de sua trajetória. O traçado original da Linha 4 previa uma estação na Gávea, o que provocou mobilização dos moradores da Rocinha pela inclusão de uma parada mais próxima da comunidade.
A articulação envolveu participação em audiências públicas e cobranças ao poder público e a candidatos durante períodos eleitorais.
“Toda vez que a gente foi para a rua, a gente conquistou. Todas as vezes que não fomos, não conquistamos”, resume Xaolin. Para ele, a participação dos moradores não pode ficar restrita ao período eleitoral. “A promessa não quer dizer nada. O que garante as conquistas para o território é a mobilização”, sustenta.
Nem por isso descarta a disputa institucional: “A gente aprendeu que é dentro da política que acontecem as mudanças.”
Saneamento atravessa gerações
Apesar das iniciativas criadas pelos próprios moradores e das conquistas obtidas ao longo das décadas, há problemas que dependem diretamente de investimentos e políticas públicas.
Ouvidos separadamente e sem contato entre si, os três moradores entrevistados para esta reportagem apontaram a mesma prioridade quando perguntados sobre o que ainda falta na comunidade: saneamento básico.
Gilmar relata o impacto do problema até sobre a atividade turística. Em dias de chuva, parte do trajeto fica encharcada e os grupos precisam desviar por uma vila de casas, aberta pelos moradores, para evitar um bueiro que despeja esgoto a céu aberto. “Isso pode gerar leptospirose”, alerta.
A memória de Xaolin sobre o problema começa em uma enchente dos anos 1960, que atingiu a favela e da qual sua mãe sobreviveu. “Morreram mais de uma centena de pessoas. A favela só tinha barraquinho de madeira, inundou tudo”, lembra.
Décadas depois, ele afirma que a demanda permanece. “Hoje a disputa ainda é o saneamento.”
William também diz que o problema atravessa diferentes gestões. “Desde a fundação da Rocinha que, infelizmente, a gente sofre com essa situação.” Para ele, existe uma dificuldade adicional na disputa por esse tipo de investimento: “O saneamento básico é um tipo de obra que não aparece.”
A Rocinha tinha 72.021 moradores e 30.371 domicílios no Censo 2022, segundo o IBGE, sendo a favela mais populosa e com maior número de domicílios do país. Para as lideranças locais, o número de moradores é subestimado.
Há recursos previstos para enfrentar ao menos parte dos problemas de infraestrutura. Em junho, o governo federal anunciou R$ 702,9 milhões para urbanização de favelas cariocas por meio do Novo PAC Periferia Viva. Segundo as informações reunidas pela reportagem, a Rocinha foi contemplada com R$ 350,4 milhões, em uma intervenção que abrange cerca de 280 mil metros quadrados e deve beneficiar 10 mil famílias.
A Associação de Moradores atribui a inclusão da comunidade no programa à mobilização das lideranças. “A Rocinha não estava incluída. Fomos a Brasília, buscamos lá todo esse amparo”, afirma William.
A expectativa dele, porém, é de que as intervenções não comecem ainda neste ano. “Como agora a eleição chegou, acredito que as obras só devem começar no ano que vem”, projeta. “Mas o importante é que o dinheiro para as reformas de infraestrutura está garantido.”
Procurada pela reportagem, a Rio-Águas informou que realiza serviços de limpeza de rotina no Canal da Rocinha e na caixa de retenção localizada no Complexo Esportivo. Segundo o órgão, cerca de 500 toneladas de resíduos foram retiradas desses locais até julho.
A fundação informou ainda que estão previstos cerca de R$ 350 milhões em obras de urbanização, infraestrutura, mobilidade, saneamento e recuperação ambiental. O projeto está na etapa inicial de implementação do Plano de Ação, com participação dos moradores na definição das intervenções consideradas prioritárias. As obras serão executadas pela Secretaria Municipal de Infraestrutura.
Já a Águas do Rio, concessionária responsável pelo abastecimento e pelo esgoto na comunidade desde novembro de 2021, afirma que vem ampliando os investimentos na comunidade. Segundo a empresa, foram implantados 2,4 mil metros de rede de esgoto e 1,7 mil metros de rede de água tratada em localidades como Vila Verde, Roupa Suja, Linha da Morte e Beco do Rato, onde também foram substituídos 30 metros de tubulação e instalados dois poços de visita. As intervenções, diz a concessionária, têm contribuído para eliminar problemas de décadas, como extravasamentos e esgoto a céu aberto. A empresa informa ter investido R$ 6,4 bilhões na área de concessão em pouco mais de quatro anos e projeta R$ 24,6 bilhões até 2033 para universalizar o saneamento, conforme as metas do Marco Legal. Questionada sobre o percentual atual de cobertura de coleta e tratamento de esgoto na Rocinha, a concessionária não informou.
Mobilização e eleições
A experiência da Rocinha mostra que a relação entre favela e política não acontece apenas no dia da votação. Está também na participação em audiências públicas, na organização das associações, na cobrança aos governos e na disputa pelo orçamento destinado aos territórios.
As eleições de 2026, porém, definem parte dos representantes que tomarão decisões sobre essas políticas nos próximos anos. Em outubro, serão escolhidos presidente da República, governador, senadores, deputados federais e deputados estaduais.
O caso do saneamento da Rocinha ajuda a mostrar como uma mesma política pública pode envolver diferentes esferas de governo. Os recursos do Novo PAC têm participação federal, enquanto as intervenções previstas para a comunidade serão executadas pelo município. Estado e União também possuem responsabilidades próprias e podem participar de políticas de infraestrutura, mobilidade, habitação, cultura e desenvolvimento dos territórios.
No Legislativo, deputados e senadores votam leis e orçamentos e fiscalizam a atuação dos governos. Já prefeitos e vereadores não serão escolhidos em 2026, mas continuam responsáveis pelas atribuições municipais.
Por isso, acompanhar qual esfera de governo é responsável por cada serviço, de onde vêm os recursos e como eles são aplicados também é uma forma de participação política.
Na Rocinha, essa participação tem uma história que antecede as eleições atuais. Está nos antigos mutirões, na pressão por transporte, nas audiências públicas e, mais recentemente, na articulação por recursos para urbanização e saneamento.
Para Xaolin, as transformações conquistadas pela comunidade são resultado dessa organização. “Toda vez que a gente foi para a rua, a gente conquistou.”
Gilmar também reconhece que ainda há muito a ser feito. “Não vou ser hipócrita e dizer que a comunidade é um paraíso. Não é. Tem muita coisa a melhorar.”
Entre iniciativas construídas pelos próprios moradores e investimentos que dependem do poder público, a Rocinha chega a mais um ano eleitoral com demandas antigas ainda presentes. O saneamento, apontado pelos três entrevistados como prioridade, mostra que a mobilização comunitária pode pressionar e participar das decisões, mas não substitui a responsabilidade do Estado de garantir infraestrutura e serviços públicos.
** Este conteúdo foi produzido com apoio do Programa Orire de Apoio às Mídias Independentes 2026, iniciativa do Instituto Orire voltada ao fortalecimento do jornalismo independente e da produção de informação de interesse público.