O El Niño segue se fortalecendo e pode atingir, entre o fim de 2026 e o início de 2027, a maior intensidade já registrada desde 1950. Esse cenário reacende o alerta sobre segurança hídrica e impactos operacionais no país e coloca uma questão que vai muito além da meteorologia: as empresas brasileiras estão preparadas para enfrentar um período de maior instabilidade climática sem comprometer sua operação e sua competitividade?
Na atualização divulgada em 10 de setembro, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) elevou para mais de 95% a probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre setembro e dezembro. Para o último trimestre, a chance de um evento historicamente elevado subiu de 69% para 75%, tornando-o um dos mais intensos já registrados desde 1950.
No Brasil, os impactos variam conforme a região. As projeções do INMET, do INPE e da FUNCEME apontam chuva acima da média na Região Sul, com destaque para o Rio Grande do Sul, além de parte de São Paulo e do Mato Grosso do Sul. Nas Regiões Norte e Nordeste, a tendência é de chuva abaixo da média, o mesmo valendo para partes do Centro-Oeste e do Sudeste, como Mato Grosso, Tocantins, norte de Goiás, Minas Gerais e Espírito Santo. As temperaturas devem ficar acima da média em quase todo o país, aumentando o risco de ondas de calor e, em áreas com menor disponibilidade de chuva, de queimadas. A combinação desses fatores pode produzir efeitos distintos sobre reservatórios, agricultura, geração de energia e disponibilidade de água para as atividades econômicas.
O episódio anterior do fenômeno deixou marcas em todo o país. As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul afetaram cerca de 2,4 milhões de pessoas em 478 municípios e provocaram 183 mortes. O desastre também comprometeu o abastecimento de água e provocou impactos profundos sobre a infraestrutura e a atividade econômica. O prejuízo foi estimado em R$ 88,9 bilhões pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) e pelo Banco Mundial.
O que preocupa especialistas é que eventos extremos não podem mais ser tratados como exceções isoladas. O El Niño não determina sozinho o comportamento do clima em cada região, mas sua consolidação aumenta a probabilidade de alterações relevantes nos padrões de chuva e temperatura. Em um cenário de mudanças climáticas, a capacidade de antecipar riscos passa a ser tão importante quanto a capacidade de reagir a eles.
Esse cenário se torna ainda mais preocupante diante de uma fragilidade estrutural do país: as 100 maiores cidades brasileiras registraram perdas médias de 45,43% da água na distribuição, segundo o Ranking do Saneamento 2025. O índice supera a média nacional de 40,3% registrada pelo SINISA em 2023. São volumes perdidos antes de chegar ao consumidor em razão de vazamentos, erros de medição e consumos não autorizados.
O problema também atinge diretamente a economia. Levantamento do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) mostra que 80% das empresas consultadas já enfrentaram problemas relacionados à disponibilidade ou qualidade da água em suas operações, enquanto 75% possuem atividades com alta ou altíssima dependência hídrica. Para 55% delas, a escassez de água nas regiões onde operam já é hoje o maior desafio na gestão do recurso. O risco, portanto, deixou de ser uma hipótese para o futuro e já faz parte da realidade do setor produtivo.
Para especialistas em eficiência hídrica, o El Niño não cria esse problema, mas pode ampliar suas consequências. Pesquisas e estudos sobre eficiência hídrica na indústria brasileira mostram que parte relevante do desperdício está associada à falta de monitoramento adequado dos processos e à dificuldade de identificar perdas em atividades de apoio, como a higienização de equipamentos. E o pior cenário não é necessariamente a falta absoluta de água, mas a empresa descobrir, durante uma crise, que não sabe exatamente quanto consome, onde desperdiça ou quanto tempo consegue manter sua operação diante de uma restrição no abastecimento.
"A água deveria ter o mesmo nível de monitoramento aplicado à energia e a outros insumos críticos. Empresas que acompanham seus indicadores hídricos conseguem identificar desperdícios, estabelecer metas e agir preventivamente antes que uma alteração no regime de chuvas afete a operação. Quem espera a crise chegar para agir perde a janela mais importante: a da preparação", pontua Felipe Mendes, sócio da T&D Sustentável, greentech brasileira especializada em eficiência hídrica.
Essa preocupação não é exclusiva das grandes indústrias. Academias, hospitais, supermercados, restaurantes e escritórios também dependem de água para funcionar. Em qualquer setor, a interrupção, a restrição ou o encarecimento do abastecimento pode impactar diretamente a operação, os custos e a experiência do cliente. Para empresas menores, o risco pode ser ainda maior, já que normalmente existe menos capacidade financeira para absorver choques operacionais.
Com um El Niño que se fortalece rapidamente e pode atingir níveis historicamente elevados nos próximos meses, a pergunta para as empresas não deveria ser apenas quanto de água haverá disponível, mas quanto tempo elas levariam para perceber que estão diante de um problema. Eficiência hídrica deixou de ser pauta ambiental para se tornar estratégia de resiliência, competitividade e sobrevivência operacional.