O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 78.610 novos casos de câncer de mama por ano no Brasil entre 2026 e 2028. Excluídos os tumores de pele não melanoma, a doença representa 30% dos novos casos de câncer estimados entre as mulheres. No Estado do Rio de Janeiro, a estimativa para 2026 é de 10.360 casos, dos quais 4.510 na capital.
Embora seja muito mais frequente entre mulheres, o câncer de mama também pode atingir homens, que representam entre 0,5% e 1% dos casos, segundo o Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz).
A mastologista Viviane Esteves, responsável pelo Serviço de Mastologia do IFF/Fiocruz, explica que a doença é multifatorial. Idade, fatores hormonais, reprodutivos, genéticos, ambientais e de estilo de vida estão relacionados ao risco. Mudanças no padrão reprodutivo, como ter menos filhos e engravidar mais tarde, também influenciam esse cenário.
“O aumento da expectativa de vida contribui para sua elevada incidência, pois o risco cresce com a idade. Além disso, o sedentarismo, o excesso de peso, especialmente após a menopausa, e o consumo de álcool estão associados a um maior risco de desenvolver a doença”, afirma.
Segundo a especialista, hábitos saudáveis podem reduzir em até 30% o risco de desenvolver câncer de mama, embora não eliminem a possibilidade de ocorrência. O histórico familiar também não é determinante: muitas pessoas que desenvolvem a doença não têm casos na família.
Diagnóstico precoce começa com informação e acesso
Um nódulo fixo e geralmente indolor é a principal manifestação quando o câncer é percebido pela própria mulher. Alterações na pele da mama, retração, aspecto de casca de laranja, inversão do mamilo, nódulos nas axilas ou no pescoço e saída espontânea de secreção anormal pelo mamilo também precisam ser investigados. Nem todo nódulo é câncer, mas uma alteração nova deve ser avaliada.
A mamografia é o principal exame de rastreamento e consegue identificar alterações ainda não percebidas pelo toque. A recomendação atual é que mulheres de 50 a 74 anos façam mamografia de rotina a cada dois anos. Já o aparecimento de sinais ou sintomas suspeitos exige avaliação médica, independentemente da idade e sem esperar pelo próximo exame de rotina.
O ultrassom tem outra função e pode ser indicado para avaliar um nódulo ou esclarecer alterações encontradas na mamografia ou no exame físico, mas não substitui a mamografia no rastreamento de mulheres de risco habitual.
Para Viviane, a detecção precoce também depende do que acontece depois que uma alteração é encontrada. Dificuldades para realizar exames complementares e biópsias, receber resultados ou conseguir consultas com especialistas podem atrasar a confirmação do diagnóstico e o início do tratamento.
“Por isso, é fundamental que a mulher tenha informação clara sobre quando realizar os exames de rotina e quais alterações precisam ser investigadas. Ao mesmo tempo, o sistema de saúde deve garantir acesso ágil e continuidade do cuidado.”
Tumores diferentes, tratamentos diferentes
O câncer de mama não é uma doença única. Características do tumor, estágio no momento do diagnóstico e resposta às terapias ajudam a definir o tratamento e estão relacionadas ao prognóstico.
Uma das classificações considera a presença ou ausência de receptores hormonais e a expressão de HER2. Os tumores triplo-negativos, por exemplo, não apresentam receptores hormonais nem expressão aumentada de HER2 e costumam crescer mais rapidamente.
“Um tumor considerado mais agressivo pode ser tratado com possibilidade de cura, assim como um tumor menos agressivo exige tratamento e acompanhamento adequados”, explica Viviane.
A advogada Simone Barbosa conhece de perto essa diferença. Diagnosticada em 2025 com câncer de mama triplo-negativo, iniciou a quimioterapia, mas conta que o tumor continuou crescendo, o que levou à mudança do esquema terapêutico. Depois vieram cirurgia, radioterapia e imunoterapia.
Simone se define como uma pessoa muito prática e positiva, encontrou no humor uma forma própria de lidar com a doença.”Apelidou o tumor de “Zé do Caroço” e, no dia da cirurgia, anunciou que havia chegado a hora do “despejo”. Ela rejeita a ideia de que essa postura fosse uma forma de negar a gravidade do câncer ou uma “positividade tóxica”. A leveza, diz, era legítima e fazia parte de sua maneira de enfrentar o tratamento.
Reduziu drasticamente o trabalho e respeitava os dias em que o corpo exigia descanso, mas continuou treinando quando podia, saindo, acompanhando os filhos e fazendo planos.
“A escolha é minha. Como eu ia lidar com isso? Porque enquanto meu corpo aguentasse, eu não ia mudar nada. Eu ia viver.”
A postura provocou estranhamento. Simone conta que algumas pessoas esperavam vê-la recolhida e triste durante o tratamento.
“Eu acho que as pessoas esperavam que eu ficasse em casa trancada, triste, mas eu não fiquei. Não era isso que eu queria pra minha vida, não era isso que eu queria pros meus filhos.”
Continuar ativa não significava passar pelo tratamento sem sofrimento. Simone enfrentou limitações e momentos de fragilidade, mesmo quando não eram percebidos por quem estava ao redor.
“Não é porque eu tô sorrindo que ele não foi difícil, ele foi difícil. Ele foi bem difícil.”
Quando o tratamento termina, o acompanhamento continua
Depois da cirurgia e da radioterapia, Simone passou pela reconstrução da mama. Acreditava que aquele seria o fechamento de um ciclo, mas, pouco antes do procedimento, um PET Scan identificou um nódulo de aproximadamente um centímetro no pulmão.
Ela relata que inicialmente foi considerada inclusive a possibilidade de uma alteração de origem infecciosa. Posteriormente, a lesão foi tratada com três sessões de radioterapia. Simone se refere atualmente à sua doença como metastática e aguarda um novo PET, previsto para novembro, para avaliar sua situação após essa etapa do tratamento.
Viviane explica que uma recidiva ou metástase não comprova, por si só, falha na detecção ou inadequação do tratamento anterior. Algumas células tumorais podem sobreviver às terapias ou ter se disseminado antes mesmo do diagnóstico, permanecendo em quantidade microscópica e sem serem identificadas pelos exames disponíveis.
O risco de retorno varia conforme fatores como estágio da doença, características do tumor e resposta às terapias. Por isso, não existe um percentual único que possa ser aplicado a todas as pacientes.
O acompanhamento também deve ser individualizado e pode incluir consultas, exame físico, mamografia das mamas remanescentes, avaliação de sintomas e atenção aos efeitos do tratamento. A saúde emocional faz parte desse cuidado.
Simone retomou integralmente o trabalho. A força com que conduz a rotina, porém, convive com a espera pelo próximo exame e com sentimentos que nem sempre deixa transparecer.
“Eu sei que às vezes o meu sorriso esconde uma fragilidade, sabe? E até uma insegurança mesmo, de fato de não saber se amanhã eu tô aqui.”
Dez anos depois, a experiência de quem passou pelo tratamento
A professora Paloma Lara vive hoje outro momento da doença. Diagnosticada aos 46 anos, em dezembro de 2015, ela chegou à investigação depois que uma mamografia apontou uma alteração.
Começou os exames na rede privada e, posteriormente, seguiu para o Sistema Único de Saúde (SUS). Cerca de um mês depois, recebeu a ligação para iniciar o atendimento no INCA, no Rio, onde os exames foram repetidos para confirmação do diagnóstico.
“O pior mesmo é a espera do diagnóstico. Quando veio, sim, fiquei, chorei, chorei, chorei. Aí, no dia seguinte levantei a cabeça, falei: bom, agora vamos tratar.”
Paloma passou por duas cirurgias, quimioterapia, outra terapia medicamentosa direcionada às características do tumor e radioterapia, esta última realizada no Hospital Mário Kroeff.
Segundo ela, seu tumor era sensível a hormônios, uma característica diferente do câncer triplo-negativo diagnosticado em Simone. Paloma ficou afastada do trabalho por um ano e meio.
No INCA, relata ter recebido acompanhamento de diferentes profissionais, inclusive psicólogo, além de participar de grupos de pacientes e atividades de apoio. A experiência, conta, surpreendeu-a positivamente.
O tratamento, entretanto, foi ficando mais desgastante com o passar dos meses.
“O mais difícil, no meu caso, foi ao final porque o corpo já está cansado, são muitos dias, indo e vindo dos exames, então fiquei sem paciência, contando os dias para terminar.”
Anos depois, Paloma teve uma experiência diferente com o acesso ao serviço. Conta que esperou cerca de seis meses para complementar uma mamografia que exigia nova avaliação. O exame posterior não identificou problema.
A situação reforça um dos pontos levantados por Viviane: identificar uma alteração é apenas uma etapa. O diagnóstico precoce depende também da possibilidade de investigá-la e, quando necessário, iniciar o tratamento em tempo oportuno.
“O câncer de mama tem possibilidades de cura, e as chances são maiores quando a doença é diagnosticada e tratada precocemente”, afirma a mastologista.
Dez anos depois do diagnóstico, Paloma continua em acompanhamento e realiza mamografias a cada seis meses, conforme a orientação específica para o seu caso. Ela não precisa mais manter consultas regulares no INCA, mas tem acesso quando precisar, e conta que, nos retornos à instituição, ouviu dos médicos: “Paloma, você está curada!”.
Força não significa ausência de medo
Simone e Paloma relatam formas diferentes de atravessar a doença, mas as duas atribuem importância à rede de apoio e à espiritualidade. Também reconhecem momentos de medo, cansaço e fragilidade.
Paloma diz que precisou aprender a aceitar ajuda:
“Sabia que na doença precisamos dos outros, nós mulheres temos síndrome de mulher maravilha.”
Simone escolheu manter o máximo possível da vida que tinha antes do diagnóstico. Até a decisão sobre o cabelo acabou atravessada pela reação de quem estava ao redor. Ela conta que estava preparada para raspá-lo quando começou a cair, mas adiou a decisão ao perceber que pessoas próximas ainda não estavam prontas para vê-la careca. Hoje, diz que, se precisasse passar novamente por uma quimioterapia que provocasse queda dos fios, faria diferente.
A experiência também mudou sua relação com o tempo.
“O câncer me ensinou que a gente só tem essa vida e a gente nem sabe até quando. [...] Eu não deixo nada pra amanhã. Se eu posso fazer hoje eu vou fazer hoje.”
Viviane ressalta que preservar vínculos sociais, manter atividade física dentro das possibilidades de cada paciente e cuidar da saúde emocional podem contribuir para o bem-estar e a qualidade de vida. Isso não significa que a mulher tenha obrigação de demonstrar força ou otimismo.
“A paciente não precisa estar bem o tempo todo: sentir medo, tristeza ou ansiedade não significa que esteja prejudicando o tratamento.”
Para a mastologista, o suporte físico e emocional deve fazer parte do cuidado sem se transformar em mais uma cobrança sobre quem enfrenta a doença.