Eu sempre fui daquelas pessoas que acreditam em amizade com grandes gestos. Aquelas amizades de série de tevê, onde os amigos se entendem com um olhar, têm pulseira da amizade e ainda fazem promessas eternas. Que estão sempre lá, prontos para se salvar mutuamente. Eu esperava, até um certo ponto, que as pessoas agissem da mesma maneira comigo. Que as amizades fossem cheias de palavras carinhosas, de visitas inesperadas e telefonemas a qualquer hora do dia. Achava que, se uma amizade fosse verdadeira, ela teria que ser constante, vibrante, intensa.
Mas, com o tempo, aprendi que, assim como no amor, cada amizade tem um jeito de ser. E que esse jeito nem sempre vai ser o que você espera. Eu sempre fui aquela amiga que se dedica, que manda mensagem, que planeja o post do aniversário com antecedência — e, por muito tempo, achei que todo mundo deveria ser assim também. Fiquei esperando que as meus amigos me correspondessem da mesma maneira, com a mesma intensidade, com a mesma disponibilidade. Mas, na verdade, eles tinham formas diferentes de demonstrar afeto.
Foi difícil entender isso. Eu ficava frustrada quando não recebia uma mensagem de bom dia ou quando uma amiga não se lembrava de me contar algo importante logo de cara. Eu tomava isso como um sinal de que a amizade não era recíproca, de que talvez eu não fosse tão importante para aquela pessoa quanto ela era para mim. E, aos poucos, começava a duvidar de nós duas, de nossa relação.
Mas então, algo mudou. Comecei a perceber que, por mais que cada um de nós tivesse suas próprias maneiras de se expressar, a amizade, de alguma forma, sempre estava lá. Percebi que a amiga que nunca manda mensagem de manhã pode ser a mesma que vai estar ao meu lado nos dias mais difíceis, com uma resposta sincera e sem pressa, me ouvindo como ninguém mais. E a amiga que não está sempre no WhatsApp, mas de vez em quando me surpreende com um texto simples, mas cheio de significado, está me dizendo, à sua maneira, que se importa.
E então entendi: não é apenas sobre o que você recebe, mas sobre como você reconhece que o outro também está se entregando da sua forma. A amizade não precisa ser uma troca exata. Não precisa ser medida em gestos diários e públicos, nem em mensagens constantes. Às vezes, o maior sinal de afeto de uma amiga é não precisar o tempo inteiro demonstrar isso. Às vezes, ela se dá por completo nos momentos certos, no ombro que você precisa quando tudo parece desabar ou na palavra sábia no momento exato. E isso também é amor.
Aprender a ver os jeitos de amar na amizade foi libertador. Compreender que a “linguagem do amor” é algo particular, intimo e único de cada um. Não preciso mais que meus amigos se ajustem ao meu jeito de ser. Já sei que, se alguém é importante para mim, o amor dessa amizade se reflete nas pequenas coisas que fazem sentido entre nós. Pode ser um encontro inesperado, um conselho no momento certo, ou até mesmo uma ausência que, na verdade, é presença. A amizade verdadeira não exige reciprocidade exata, mas sim compreensão. Compreensão de que cada um tem seu tempo, seu jeito, sua forma de estar ali.
Agora, quando me sinto negligenciada, tento lembrar que os amigos não são máquinas de entregar afeto. Às vezes, a vida de cada um pede mais espaço, mais silêncio. E, mesmo assim, o laço continua forte. A amizade, como o amor, não é sempre o que imaginamos. Às vezes, é mais silenciosa, mais sutil, mais demorada. Mas está lá, com toda sua beleza, mesmo que não se mostre do jeito que esperamos. E isso, eu percebo, é mais do que suficiente.
Porque, no final das contas, não se trata de receber, mas de aprender a ver o amor nas suas várias formas. Na amizade, como na vida, cada um tem seu jeito de amar. E a graça está justamente nisso: em descobrir esses jeitos e saber que, apesar de tudo, sempre vale a pena.
No fim, percebo que as melhores amizades florescem nas entrelinhas, no cotidiano, nos momentos em que não há palavras, mas o carinho está ali, quietinho, esperando o momento certo para se revelar. A amizade não tem uma fórmula exata, não se encaixa em um molde rígido. Ela se adapta, se ajusta, e aprende a existir nos jeitos de cada um. E, quando entendemos isso, a decepção dá lugar à gratidão por aqueles que, à sua maneira, estão ao nosso lado. A amizade verdadeira não exige que sejamos iguais, mas que saibamos reconhecer, com respeito e paciência, as formas únicas de amar que cada pessoa tem. E, no final, é isso que faz com que ela seja suficiente.
Até o próximo texto!
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